Chamamos-lhe menina, mas não hesitamos em apelidá-la porqueira, ou mesmo moranga. Não raro vemo-la nos beirais dos telhados, secando ao sol e, menos bucólico, mas mais romanticamente, ligamo-la ao imaginário infantil, através da carruagem da Bela Adormecida.

Símbolo de uma das mais celebradas festividades anglo-saxónicas, o Halloween, a abóbora para além de um nutritivo e versátil alimento, base para inúmeras confecções culinárias e mesmo medicinais, serve o Homem, desde há milhares de anos.

Antes de partirmos à descoberta da aventura histórica da abóbora, comecemos por lhe desvendar a família, bastante numerosa, com mais de mil espécies, algumas incluindo exemplares de grande porte. Falamos das Cucurbitáceas, nome que soa, e é estranho, mas que engloba algumas espécies bastante comuns e amplamente consumidas, caso do melão, da cabaça e, claro, a abóbora.

Concentremo-nos, então, na abóbora, cujas qualidades a tornam reconhecida como uma boa fonte de fibras, de potássio e de vitaminas do complexo B, sendo igualmente rica em vitamina A. Para além disso, esta Cucurbitácea possui um elevado teor de óleo vegetal insaturado. Embora, regra geral, se joguem fora as sementes (pevides), elas são uma fonte muito rica de proteínas e ferro, muito apreciadas em determinados países, incluindo Portugal, onde se consomem salgadas, com casca ou sem ela.

Dado o seu sabor bastante pronunciado a abóbora raramente surge como legume de acompanhamento, sendo antes utilizado como base para sopas, massas e doçaria.

Em Portugal a utilização da abóbora na cozinha tradicional encontra-se bastante enraizada, assentando em centenas de confecções diferentes, desde as sopas, aos pratos de resistência e às sobremesas e doçaria.

Sem retoques na imagem. As abóboras como nunca as vimos (e um pouco da sua história)
Abóbora Black Futsu.

Abóbora milenar

Feitas as apresentações descubramos a origem da abóbora, actualmente disseminada por todo o Mundo, (excepção feita aos climas mais frios), a sua origem geográfica é bastante mais limitada e um tanto incerta. Certos relatos fidedignos situam o seu cultivo e utilização na América Central e do Norte. Através da arqueologia determinou-se que algumas sementes da planta, encontradas em escavações, datavam de 5.500 anos antes da nossa Era. Estima-se, contudo, que a utilização da abóbora seja anterior a essa data. Os Maias, na América Central, assim como outros povos nativos da América do Norte, incluíam a abóbora na sua dieta, em práticas medicinais rudimentares e mesmo em determinados ritos.

Consta que algumas tribos índias da América do Norte utilizariam a abóbora como acompanhamento ou base para certas confecções, nomeadamente caldos semelhantes a sopas. Entre os antigos índios Oneidas, tribo do Nordeste dos actuais EUA, com uma sociedade extremamente bem estruturada, uma receita, ainda em utilização no século XVII, determinava que a abóbora fosse cozinhada até ao ponto em que adquirisse a consistência de uma sopa de batata. Entre as muitas utilizações que os nativos americanos reservavam à abóbora encontrava-se o fabrico de intricadas esteiras, tecidas a partir de tiras da casca secas. Certas tribos, extraíam das sementes da abóbora um nutritivo e rico óleo utilizado na alimentação e medicina.

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Abóbora Galeux d'Eysine.

A abóbora chega à Europa

Iam os enredos e caminhos da História reservar à abóbora um palco geográfico e social muito mais amplo do que aquele onde inicialmente surgira. Em 1492 o empreendedor e obstinado Cristóvão Colombo, na esperança de, ao navegar para ocidente atingir o Oriente, iria acrescentar sem o saber, ao mapa do “Velho Mundo”, um novo e imenso espaço, o continente americano. Com a descoberta de novas terras, a velhinha Europa, então ávida pelas novidades que chegavam das espantosas paragens de além-mar, incorpora na sua cozinha de séculos, baseada num número limitado de alimentos, os novos produtos. A batata, o milho, o tomate, os amendoins e, a abóbora, viam-se incluídos na dieta dos europeus que, mais ou menos rapidamente, iam assimilando os novos produtos nas diversas cozinhas locais, fosse através de novos pratos, de recombinações dos já existentes, ou na adaptação de antigas receitas.

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Abóbora Black Futsu.

A abóbora, introduzida na Europa no século XVI, viria a ocupar, dada a sua versatilidade, facilidade de preservação e valor nutricional, um lugar de destaque na agricultura do velho continente, assim como nos hábitos de consumo de inúmeras populações. Ao que parece terão sido os franceses, sempre engenhosos na arte de combinar e recombinar a cozinha, os primeiros a introduzir a abóbora à mesa. Seguiram-se os ingleses e, em breve, quase toda a Europa se rendia a esta Cucurbitácea que, em certas circunstâncias poderia atingir enormes dimensões, pesando, por vezes, mais de 100 quilos. Portugal não seria excepção na introdução da abóbora que, no ímpeto expansionista do século XVI, acabaria por embarcar nas naus. Ironicamente, pouco mais de um século após a sua partida do Novo Mundo, a abóbora retornaria ao seu continente natal desta feita a paragens mais a sul, ao Brasil, depois de ser introduzida com sucesso na Guiné. Por esta época, um certo Leonard Fuchs (1501-1566), através de uma obra publicada no campo das ervas e plantas medicinais, acaba por impulsionar a utilização da abóbora, com fins terapêuticos.

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Abóbora Turbante.

Abóbora festiva

Os primeiros colonos europeus chegados à América viram na abóbora, bastante comum naquelas paragens, um importante sustento, garante de alimento nos duros e prolongados Invernos do Nordeste do continente e ingrediente indispensável à mesa do Dia de Acção de Graças. Entre as muitas confecções em que utilizavam a abóbora, uma destinava-se à produção de uma espécie de cerveja, chegando até aos nossos dias algumas fórmulas para a confecção doméstica dessa bebida.

Entre as práticas introduzidas pelos europeus nas novas colónias americanas estava uma antiquíssima celebração com origem nos Celtas, povo que acreditava que na noite de 31 de outubro para 1 de Novembro as almas dos mortos passeavam-se no mundo dos vivos. Para afastar os espíritos maléficos os Celtas penduravam à entrada das suas habitações enormes nabos, entalhando-lhes esgares que brilhavam assustadoramente à luz de velas.

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Abóbora Ghostly White.

A tradição atravessou o Atlântico com os novos colonos irlandeses, a manterem-na embora substituindo os nabos pelas abóboras da noite de Halloween, hoje em dia denominadas “Jack-o'-lantern“, numa alusão a uma lenda irlandesa, baseada numa figura típica, o senhor Jack. De acordo com a lenda, Jack engana habilmente o diabo, até este o apanhar no Inferno e o condenar a vaguear para a eternidade, embora com a benesse de poder alumiar o caminho com um nabo escavado, carregando uma vela acesa.

Entre as Cucurbitáceas mais divulgadas encontra-se, igualmente a cabaça, membro da família muito próximo da abóbora mas, ao contrário desta, originária de diversos continentes, desde a América do Norte à do Sul, a África, ao subcontinente indiano e à Polinésia. As cabaças para além da importância alimentar, desempenharam ao longo da história um importante papel noutras dimensões do quotidiano humano: delas se fizeram, e continuam a fazer, instrumentos musicais, recipientes de cozinha, entre mil e uma outras aplicações.

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