Carmelinda Gonçalves ainda é uma cara conhecida, mas nem todos já se lembram bem porquê. Em 1996, a mindelense tornou-se na primeira Miss CEDEAO cabo-verdiana com 19 anos. Tempos em que afirma, “quase ninguém conhecia Cabo Verde e não existia moda nacional”.

"Posso dizer que, nessa altura, eu e um grupo de raparigas e rapazes fomos os primeiros modelos de Cabo Verde, nós fizemos os primeiros desfiles, mas pensar numa carreira na moda era irreal", contou.

Tudo começou meio na brincadeira, mas foi assim que aprendeu a desfilar e a ter postura. “Quem nos talhou nesse sentido foram as boutiques da altura e mesmo o Hernâni Almeida que ainda hoje trabalha nessa área", avançou.

E foi também com esse espírito que concorreu para Miss Cabo Verde em 1996. Ganhou, ainda que sem o apoio da família. "Os meus irmãos até gozavam comigo, eles só começaram a entender a seriedade desta carreira quando ganhei o concurso Miss CEDEAO", referiu. Foi um ano em cheio, viajou pela Europa, África e pelos Estados Unidos. Em 1997, Carmelinda Gonçalves foi também a primeira Miss Cabo Verde a participar no concurso de Miss Mundo.

“Foi um ano para abrir os olhos, eu aprendi muita coisa, especialmente sobre a maldade alheia", revelou. Criada no ambiente protegido de uma família unida, a experiência internacional foi também uma oportunidade para crescer e “levar muitas patadas”.

"No concurso de Miss CEDEAO, o acompanhante de uma miss disse-me que me levava a conhecer o YvesSaintLaurent, quando na realidade depois o que ele queria mesmo era ficar com uma máquina fotográfica que eu tinha.”

“Mesmo em Cabo Verde quando fui participar no Miss Mundo enfrentei uma inveja muito grande das pessoas que deveriam estar a fazer de tudo para eu poder participar, chegaram mesmo a fazer-me ameaças", salientou.

Nas ruas de São Vicente, sentia o desagrado do público: "Havia pessoas que passavam por mim e me insultavam, por terem inveja, cheguei a deixar de sair de casa, eu não entendia por que é que as pessoas me desejavam mal por ser Miss", relembrou.

A sua imagem passou a estar mais exposta com a campanha de apoio a crianças carenciadas que realizou na época. "Viajei para alguns países para recolher fundos escolares, na campanha que dei o nome de lagartinha borboleta, e aí também aprendi que muitas vezes as pessoas têm uma grande facilidade em fazer promessas que não vão cumprir", afirmou.

Ainda assim acredita que a experiência foi positiva, por que ajudou a compreender e definir os seus objectivos: "Sempre tive os pés bem assentes no chão e foi isso que me guiou o tempo todo."

Depois da moda, descobriu a sua verdadeira vocação

Após passar a sua coroa, Carmelinda Gonçalves fez ainda algum trabalho de modelo fotográfica, mas não prolongou a carreira. Quando foi estudar para o Brasil passou a preferir o anonimato.

"Cheguei a negar imensos trabalhos para não faltar às aulas", indicou.

A carreira médica esteve sempre no seu sangue e a paixão pela medicina dentária foi uma descoberta que abraçou.

"Cheguei a um local em que ninguém me conhecia e isso foi uma lufada de ar fresco, a experiência no Brasil deu-me três coisas muito importantes: a minha formação superior, foi lá que eu conheci o Kardecismo, a minha religião de doutrina espírita, e por último, o nascimento do meu filho", contou.

Carmelinda Gonçalves regressou a Cabo Verde em 2002 como mãe solteira e encetou numa carreira empreendedora como médica dentista.

"Abri logo a minha clínica e comecei a batalhar pela minha vida, por que afinal na altura já tinha um filho para sustentar", contou.

Os desafios de mãe solteira em início de carreira fizeram-lhe reconhecer as dificuldades diárias das mães cabo-verdianas: "Realmente hoje eu penso em como a mulher cabo-verdiana é forte, por que vemos tantos pais que não querem saber, ela é a matriarca e a patriarca da família."

A maternidade foi como fazer a descoberta de um talento novo: "A experiência de ser mãe é a melhor coisa que existe para as mulheres."

Actualmente está prestes a lançar a sua quarta clínica com o nome Carmelinda Gonçalves, agora na Achada de São Filipe, juntamente com a do Palmarejo, onde trabalha, a da Fazenda e outra na Brava que gere.

Mas a sua vocação está além da medicina. No ano passado, lançou o livro infantil “O Pirilampo e a Libélula”. "Já tinha escrito o livro há cerca de 4 anos e ainda existem mais histórias por publicar", indicou ao avançar que é um projecto para continuar no próximo ano.

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Por ter uma agenda cheia com o trabalho e a família, revela mesmo que gostaria de ter mais tempo livre para se poder dedicar a outros projectos.

O casamento é das "experiências mais enriquecedoras"

"Encontrar uma pessoa com quem possamos partilhar a vida, desde o seu passado, à sua família e ao dia-a-dia, exige muito trabalho", reflectiu.

Carmelinda Gonçalves casou-se e formou família, da qual nasceu o seu filho mais novo. Actualmente conta alguns anos de casamento que afirma ser feliz, mas trabalhoso.

"Em Cabo Verde, infelizmente os valores do casamento não são tão preservados, facilmente as pessoas se divorciam", disse.

"É normal as pessoas não estarem sempre apaixonadas quando há amor, no entanto muitas pessoas não aguentam passar por essas fases e desistem", continuou.

Por reconhecer o homem cabo-verdiano como machista, considera que as relações em Cabo Verde são ainda mais difíceis de manter: "Eles não querem estar só com uma mulher e as mulheres também já não querem estar só com um homem, então aqui começam os problemas de valores."

O diálogo tem sido o segredo do seu relacionamento. "É difícil impedir situações de tentação, mas as pessoas têm é de estar conscientes disso, quando as relações são abertas isso pode ser ultrapassado", aconselhou. No entanto, também não acredita em casamentos indissolúveis e nesse caso afirma.

A sua filosofia de vida tem sido tratar o outro como gostaria de ser tratada, o que lhe tem aberto sempre novas portas. "Acho que esta é a melhor forma de sermos felizes."

"Quando se tem obstáculos, o melhor da vida é conseguirmos acordar com saúde e lutar com o talento que nós temos, porque cada um de nós tem um trunfo", afiançou.

E acredita que é com as adversidades que se conhecem o s maiores ensinamentos da vida. "Os momentos felizes são quando estamos a colher o fruto de períodos menos bons, então é preciso entender e aprender com cada experiência que a vida nos dá", concluiu.

Veja as fotos da sua carreira enquanto modelo

Susana Duarte