Em declarações à Inforpress, Benilde Estrela, como prefere ser chamada, esta jovem de 23 anos, se apresenta como uma “menina” da cidade da Praia.

“Tenho duas zonas (risos). Achadinha, que é da minha mãe, e Lém Cachorro, do meu pai”, relata a entrevistada, completando que em 2015, quando terminou o ensino secundário, aos 18 anos, no Liceu Domingos Ramos, queria ter experiências novas e oportunidades diferentes e, por isso, resolveu aventurar-se numa viagem para o Estados Unidos, viver em Brockton, no Estado de Massachusetts, onde tem uma grande comunidade cabo-verdiana.

Ao chegar nas terras do Tio Sam, como é conhecido os Estados Unidos, o primeiro objectivo desta “filha da cidade da Praia” era aprender o inglês. Conforme conta, foi estudar, durante dois anos, no Brockton High School.

“Não é por acaso que se diz que esse país é uma terra de oportunidades, estudei e cheguei a trabalhar em diferentes áreas, como em restaurantes e também cheguei a fazer entregas de comidas na moto pela cidade de Boston”, contou Benilde, acrescentando que chegou a conhecer cerca de 90% dos restaurantes daquela cidade capital do Estado de Massachusetts.

O interesse por conduzir camião, segundo fez saber, começou a surgir dentro de casa. Pois seu marido é também camionista. Desde 2018 que, contou, passam a maior parte do tempo longe um do outro, mas, afirmou, o amor, a amizade e o companheirismo falam mais forte. Continuam ainda juntos “um ao lado do outro”, embora cada um numa estrada, longe da sua residência em Brockton.

“Sempre prometeu que um dia me levaria para fazer viagens entre os Estados deste país. No ano passado, quando voltei das minhas férias em Cabo Verde, decidi que estava na hora de tirar um tempo para mim, aproveitar esse período para repensar o que realmente eu queria fazer da minha vida profissional, pois me sentia confusa e indecisa, pressionava a mim mesma a ter de fazer uma escolha”, narrou.

E foi então que Benilde se aventurou pelas estradas ao lado do marido e, simplesmente, se apaixonou, conforme contou, pela sensação de liberdade e aventura que as estradas a proporcionaram.

“Cada dia dormia num lugar diferente, paisagens lindas. Sou grata por aquele momento. Percebi que era possível viver em um pequeno espaço (camião) e com tão poucos materiais. Cada dia acontecia algo novo, ouvi história de pessoas diferentes pela estrada, conversei com outros camionistas, muitos já estão na estrada mais de 30 anos, cada um tinha uma história para contar”, frisou.

Benilde Estrela afirmou ainda que, naquela que foi a sua primeira viagem, não interagiu apenas com outros camionistas, mas também jovens e idosos que viajavam pelas estradas dos Estados Unidos.

“Vi tanta coisa em dois meses, o que me faz sentir que já estava nisto há muito tempo”, acrescentou Benilde.

Conforme disse, já na primeira semana em que esteve na estrada, já estava decidida que queria este trabalho para si, que a permitia viajar e também ganhar dinheiro.

“Era a combinação perfeita para mim. Disse ao meu marido e, na hora, ele me encorajou, começou a me ensinar os sinais das estradas para camião, algumas”, relembra Benilde Estrela a primeira viagem que fez.

Quando voltou, contou que algumas pessoas achavam que era “loucura” aquilo que tinha feito.

“Eu nunca disse que era uma pessoa normal (risos). Tanto é que logo comecei a tratar de tirar a minha carta de condução de carro normal, pois ainda não a tinha. Em uma semana aprendi a conduzir e, nesse período, comecei a trabalhar num casino, pois não queria ficar parada e tive mais certeza que não era o que eu queria”, prosseguiu.

Depois de um mês, com a sua licença, informou Benilde que deu início ao processo para conseguir a licença de condução de camião, embora as pessoas ao seu redor acharem que era “loucura”.

“Fiz aplicações em várias escolas e, no mesmo dia, muitos me ligaram. Não pensei que seria tão rápido. O meu marido sempre me motivou e instruiu. Sou grata por ele ter sempre acreditado e apostado em mim”, acrescenta.

Em Setembro de 2019 Benilde estava a viajar para o Estado de Indiana onde iria, em duas semanas, tirar a sua carta de pesados de cargas, para conduzir camião, na escola da empresa onde trabalha, levando cargas pesadas à vários Estados e cidades dos Estados Unidos.

Desde então, Benilde Estrela está sozinha nas estradas ao volante um Freightliner, onde também mora. A viatura tem espaço para dormir, cozinhar, por exemplo. A jovem conta que já conheceu 48 Estados, dentre eles Califórnia, Texas, Louisiana e Florida.

“Hoje trabalho com cargas mais pesadas. O que exige muito esforço físico, sempre tenho olhares de pessoas espantadas e admiradas, pelo facto de eu ser muito ‘afeminada´”, prosseguiu a jovem camionista, afirmando que recebe também muito apoio de outros camionistas pelo caminho.

O preconceito, contou, vem, na maioria das vezes, de mulheres que, conforme disse, acham que ela não deveria estar a fazer este tipo de trabalho, já que é casada.

“Acham que a mulher não deve trabalhar longe de casa, principalmente quando é casada, e que não daria conta quando tiver filhos, que não terei tempo de cuidar de mim. Já ouvi muitos comentários negativos, mais eu não deixo as pessoas projetarem seus medos em mim, acredito que nós mulheres podemos fazer tudo e continuar sendo lindas e maravilhosas”, prosseguiu.

Benilde Estrela disse ainda não ter medo de viajar sozinha. Mas, afirmou que, por ser mulher, o cuidado com a questão da segurança é sempre maior.

É tudo, segundo conta, uma “bela aventura”.

“Um dos momentos mais marcantes foi num dia em que me sentei na paragem de camiões a tratar uns peixes que trouxe de Cabo Verde para cozinhar. Todo mundo que passava por mim ficava a ver e sorrir. Acharam estranho”, contou Benilde Estrela, acrescentando que, quando está a cozinhar comida típica de Cabo Verde, muita gente que por ela passa pergunta o que está a cheirar.

Nas horas vagas, Benilde está nas redes sociais a falar das suas experiências aos seus seguidores. Recentemente criou um canal no Youtube para o mesmo efeito.

GSF/CP

Inforpress/Fim

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