Ariana Monteiro descobriu, aos 35 anos, um nódulo na mama esquerda. “Estava de férias e durante uma brincadeira, o meu filho, na altura com 2 anos, bateu-me com a cabeça no seio e vi que algo estava anormal. Fiz o autoexame e decidi procurar um ginecologista que viu que tinha uma alteração no seio e pediu-me vários exames com uma certa urgência”, conta.

Depois de uma biopsia feita em Dakar, no Senegal, os resultados confirmaram o cancro da mama. “Estava sozinha em casa quando recebi a ligação do médico com a notícia que de facto era um tumor maligno, que se tratava de um carcinoma NST triplo negativo e que tinha que fazer o tratamento urgente”, lembra.

De seguida, ligou para uma amiga ginecologista no Mindelo que a aconselhou a procurar um especialista na cidade da Praia para ver se era possível ser evacuada o quanto antes para Portugal. “Entrei em contacto com a médica oncologista Hirondina Spencer no Hospital Agostinho Neto e no mês de dezembro viajei para Portugal para dar início ao tratamento no Hospital de Santa Maria em Lisboa”, salienta.

Pouco depois encarou a mastectomia parcial da mama esquerda, sessões de quimioterapia, radioterapia e foi firme do início ao fim do tratamento.

Ariana tem um histórico de cancro na família. A mãe faleceu há 8 anos de cancro de ovário e tem uma tia que teve leucemia. Durante o seu processo de tratamento, e depois de fazer uma avaliação/exame genético, foi comprovado que o seu tipo de cancro era hereditário e que havia uma propensão maior para o cancro da mama.

Como já tinha feito a mastectomia, optou por fazer cirurgia de redução de risco de cancro no outro seio. “A minha hereditariedade é uma mutação genética BRCA1 que faz com que haja grande possibilidade do cancro reaparecer. Os médicos aconselharam-me a fazer a cirurgia de prevenção, aceitei e fiz todo o processo. Considero-me uma vencedora e neste momento estou na fase de reconstrução do seio”, conta orgulhosa da sua decisão.

A autoestima e a vaidade ficaram em segundo plano. “Não sei se foi pelo percurso que tive com a minha mãe durante o seu tratamento, mas a força que tive foi normal. E pelo facto de estar sozinha em Portugal não pensava na vaidade. Pensava apenas na minha saúde e fazia tudo o que os médicos pediam. Queria a cura para poder voltar ao arquipélago, cuidar do meu filho e encontrar o meu marido e a minha família que estavam à minha espera”, salienta.

“Estar longe da família é a parte que mais pesa”

De acordo com Ariana, ter apoio da família nesta luta é fundamental em todos os aspetos. “Pelo facto de estar num momento de fragilidade, ter pessoas que amamos ao nosso lado a darmos força é muito importante. Quando estamos longe sentimos falta de tudo, até mesmo das pequenas coisas que nem dávamos importância no passado. Estar longe da família é complicado e é a parte que mais pesa”.

Ariana tem uma força e alegria de viver e foi na família e em Deus que buscou forças para vencer o cancro. “Sempre tive essa alegria. Já passei por várias coisas na vida e não me deixei cair. Sempre quis transmitir à minha família a mesma força que a minha mãe tinha. Também tem a fé. Sou católica e tenho muita fé. Fiz todos os tratamentos, a minha família apoiou-me e hoje estou aqui graças a Deus”, salienta.

Realça que a vida é uma caixa de surpresa. “Nunca estamos à espera de tal diagnóstico. Foi uma lição de vida e deu-me mais força. Se antes dava valor à vida, agora dou mais ainda. Mudei o meu estilo de vida completamente, em termos de alimentação, programas. Agora preocupo-me mais comigo e dou mais valor à família e aos amigos”, afirma.

“A família é o nosso alicerce”

Ariana Monteiro está num relacionamento há 7 anos com Emanuel Carvalhal, ou simplesmente Nuno como é carinhosamente conhecido pelos amigos, com o qual tem um filho de 5 anos.

Nuno tem 36 anos e é psicólogo. Receber a notícia do diagnóstico de cancro da mama da mulher foi, inicialmente, “um peso”, para Nuno, mas depois acabou por “digerir” a notícia para “não se abalar emocionalmente”. “Acabei por refletir e torna-la em algo positivo”, salienta Nuno.

“Pensava que o tratamento não iria ser longo, no entanto durou. Tive que abrir mão de algumas coisas de que gostava, como é o caso do ginásio, para cuidar do nosso filho. É um sacrifício que valeu a pena”, conta.

Para ajudar a mulher a vencer o cancro, Nuno fez uso da sua formação, da psicologia. “Às vezes, deixo de ser marido e passo a ser, de certa forma, o psicólogo da Ariana. Faço autoterapia também. Temos que parar para pensar nos nossos próprios estados mentais. Fazer a introspeção. Às vezes, tenho momentos de solidão, mas é uma solidão saudável. Usei muito a parte da psicologia. Tratava a Ariana normalmente, sem exageros e super proteção. Foi assim que fui gerindo a parte emocional”, afirma.

Segundo o psicólogo, em qualquer circunstância da vida, “toda a família tem que estar envolvida”. “O apoio familiar fortalece o ego e o estado emocional equilibra-se. De certa forma a pessoa não se sente desamparada, abandonada, solitária. O desejo de vencer por parte da família e da Ariana foi a coroa. Por isso a família deve estar sempre presente e unida em qualquer situação da vida. A família é o nosso alicerce”, explica.

Há relatos de vários casos de mulheres diagnosticadas com cancro da mama que foram abandonadas pelos maridos. De acordo com o psicólogo, esses casos são “chocantes e graves” e questiona: “será que esses homens amavam de verdade as suas mulheres? Ou será que foi apenas uma paixão ardente?”.

E continua: “Quem ama de verdade não abandona. O físico tem a sua importância, mas não é o mais fundamental. O verdadeiro amor é sentir-se seguro com alguém” salienta e afirma “A Ariana é uma parte de mim que estava à procura. Ela é especial e transcende o físico. Sinto-me seguro e bem com ela. O amor é grande”.

Para Ariana, o Nuno é “tudo” na sua vida. “Pela pessoa que ele é e pelo meu percurso de vida, ele foi a melhor escolha da minha vida. Desde o primeiro momento ele encorajou-me, deu-me força, quebrou-me vários tabus e como psicólogo levantou-me a autoestima. Preparou o nosso filho para o nosso primeiro encontro depois do tratamento. O Nuno é uma pessoa excecional”, diz orgulhosa do marido.

Em forma de mensagem para quem está nesta luta contra o cancro ou para quem ler o artigo, Ariana diz: “Ultimamente o cancro está presente no nosso dia a dia e graças a Deus, aos poucos, estão a aparecer formas para combate-lo. Mas se puderem façam a prevenção. Tenham mais cuidado convosco e preocupem-se sempre em fazer exames de rotinas e estarem sempre informados. No geral devem preocupar-se com o vosso bem-estar físico, emocional e com a alimentação. Amem-se uns aos outros. Pensem e reflitam sobre o ciclo de vida”.

No que tange à autoexame, esta guerreira diz que é “fundamental”. “Conheçam o vosso corpo, façam o autoexame. Procurem sempre um médico. Se descobrirmos o cancro precocemente temos mais chances de vence-lo. Temos que ter fé, a força vem de onde menos esperamos. Somos todas guerreiras”, conclui.