O cancro da bexiga, também conhecido como carcinoma urotelial, é um tipo de cancro que se inicia no revestimento interno da bexiga (uma membrana mucosa). A terminologia de carcinoma urotelial pode aplicar-se não só à bexiga como também à pélvis renal, ureteres e uretra. É um dos 10 tipos de cancro mais comuns em todo o mundo, o quinto mais frequente na Europa e o quarto mais comum entre os homens.

Segundo dados do Registo do Programa Nacional para as Doenças Oncológicas (2014), a incidência do Cancro da Bexiga, em Portugal, situou-se em 17,6 por cada 100.000 habitantes – e este valor sobe para 29 em cada 100.000 habitantes considerando apenas o sexo masculino.

Quais são os sintomas mais comuns do cancro da bexiga? A que sinais é que as pessoas devem estar atentas?

O sintoma mais alarmante é a hematúria (sangue na urina). No entanto, os tumores da bexiga podem cursar com outra sintomatologia do foro urinário, como por exemplo a dor ou ardência ao urinar, urinar com muita frequência, a sensação de esvaziamento incompleto da bexiga e a vontade urgente de urinar.

Em adição, por vezes, também surge associada dor no hipogastro (fundo da barriga) ou na região lombar.

O carcinoma da bexiga em nada tem a ver com doenças sexualmente transmissíveis

Quais são os fatores de risco desta doença?

Como fatores de risco surgem o consumo de tabaco, a exposição a produtos químicos (vernizes, tintas), a história de exposição a radiações e infeções por parasitas, nomeadamente a infeção por Schistossoma, uma infeção que surge após contacto com águas contaminadas por este parasita.

O cancro da bexiga afeta mais homens ou mulheres? Porquê?

O carcinoma da bexiga é mais frequente nos homens, muito provavelmente por causa do consumo tabágico e contacto com produtos químicos. A sua incidência aumenta com a idade.

As doenças sexualmente transmissíveis podem aumentar o risco de desenvolver esta doença?

Não, o carcinoma da bexiga em nada tem a ver com doenças sexualmente transmissíveis.

Como é feito o diagnóstico?

Cerca de 10% dos doentes têm doença disseminada ao diagnóstico. A orientação multidisciplinar é fundamental, de forma a ser possível oferecer o melhor tratamento a cada doente.

O carcinoma do urotélio localiza-se mais frequentemente na bexiga. No entanto, pode desenvolver-se em qualquer localização do aparelho urinário, nomeadamente a nível dos ureteres ou até da pelve renal.

Quando o doente recorre ao Serviço de Urgência, o exame mais frequentemente realizado é a ecografia reno-vesical. Este exame permite a identificação de lesões que estejam a crescer para dentro da bexiga (lesões endoluminais). Posteriormente, é fundamental efetuar uma cistoscopia (exame endoscópico à bexiga), de forma a realizar biópsia da lesão identificada.

Só a biópsia nos dará um diagnóstico histológico certo, de forma a permitir a melhor orientação em termos de tratamento.

O TAC deverá ser feito posteriormente para que seja possível determinar se se trata de uma doença localizada ao órgão ou se já existem depósitos noutros órgãos (metástases).

Que tratamentos existem?

O tratamento a aplicar depende da extensão da doença. Se a doença está localizada e não invade a camada muscular da bexiga, pode ser tratada com uma resseção transuretral (RTU) - remoção do tumor através da uretra, vulgo “raspagem” - seguida de instilação com mitomicina C ou BCG.

Nas situações em que a doença está localizada - mas invade a camada muscular - pode ser efetuada cirurgia (cistectomia) ou pode-se iniciar quimioterapia previamente, com a finalidade de controlar a doença e permitir a possibilidade da cirurgia não ser tão extensa. A quimioterapia é feita com base num platino.

Os doentes que recusem cirurgia radical ou que não tenham condições para realizar o procedimento e apresentem doença localizada, podem ser candidatos a uma terapêutica trimodal, que consiste em RTU associada a quimioterapia e radioterapia em simultâneo.

Nas situações em que a doença está disseminada/metastizada, o tratamento inicial passa por quimioterapia baseada em platino.

Desde há cerca de 2 anos, que a imunoterapia é uma opção nos doentes com carcinoma do urotélio metastizado que progridem após quimioterapia com platino ou até em doentes sem condições para realizarem terapêutica citostática. Atualmente, o pembrolizumab e o atezolizumab estão já aprovados nestas duas indicações. As restantes imunoterapias estão apenas indicadas em 2ª linha de tratamento, ou seja, nas doenças que progridem sob quimioterapia.

Que fatores mais recorrentemente comprometem o tratamento?

Relativamente ao tratamento de quimioterapia, a insuficiência renal é sem dúvida o fator que mais frequentemente compromete a possibilidade de efetuar o tratamento mais adequado. Os doentes com carcinoma urotelial e da bexiga, em particular, apresentam frequentemente hidronefrose (dilatação da porção proximal do uréter, mais próxima do rim, a maioria das vezes causada por obstrução do uréter) com comprometimento do funcionamento dos rins.

A Imunoterapia, terapêutica mais recentemente aprovada nesta indicação tem também efeitos laterais importantes, diferentes dos citostáticos, mas que também podem comprometer a realização do tratamento. São situações muitas vezes imunomediadas, como é o caso do prurido cutâneo, tiroidites, nefrites, pneumonite, colite, além dos efeitos laterais gerais, como a fadiga, astenia, anorexia. O tratamento dos efeitos laterais da Imunoterapia é feito à base de corticoterapia.

Qual é a taxa de mortalidade do cancro da bexiga em Portugal?

A nível mundial, o carcinoma urotelial é o nono mais frequente. Os dados da DGS, referentes ao ano de 2015, mostram uma tendência crescente da mortalidade por carcinoma da bexiga no nosso país.

As taxas de mortalidade são mais elevadas no interior, o que provavelmente se justifica com o facto de os doentes que residem nesses locais, não têm um acesso facilitado aos cuidados de saúde especializados.

A médica Isabel Augusto é Assistente Hospitalar de Oncologia Médica do Centro Hospitalar de São João, Porto.