Quando num mercado, da Albânia, do Curdistão ou da Grécia se pede, respetivamente, para que se pese um quilo de “Portokale”, “Portoghal” e “Portugales”, o comprador refere-se às laranjas. Nestes países, como em outros de influência mediterrânica, o termo que designa laranja refere Portugal, numa clara indicação da importância que os nossos antepassados tiveram na disseminação deste fruto mundo fora.

Doce ou amargo, o fruto da laranjeira, redondo e de casca cor de laranja com polpa suculenta e acidulada, conta com uma longa história, começando no extremo Oriente, onde era considerado um símbolo de fecundidade. Um fruto híbrido, terá surgido na a partir do cruzamento da cimboa com a tangerina.

Tido e consumido durante séculos como um fruto raro, servia basicamente para compotas e ornamento de mesa. Quando oferecido a um doente ou entregue como presente, a laranja era sinónimo de delicadeza e luxo.

A grande generalidade dos citrinos é oriunda das regiões tropicais e subtropicais da Ásia e arquipélago Malaio. O seu habitat nativo vai desde o noroeste da Índia e centro norte da China, a Norte; até à Nova Guiné e arquipélago Bismark, Nordeste da Austrália e Nova Caledónia, a Sul.

A laranja, em particular, julga-se que terá a sua origem numa vasta área a sul dos Himalaias, da Birmânia à China do Sul e à Cochinchina. Certo é que o fruto já era mencionado, milénios atrás, em textos chineses e indianos.

Ao que tudo indica os romanos não conheceram a laranja antes das invasões Bárbaras, por volta de 350 a.C. Em Pompeia encontraram-se alguns frescos representando laranjas, presumivelmente azedas.

Traçar a rota que, desde terras asiáticas, terá trazido a laranja até ao continente europeu, tem-se revelado um quebra-cabeças geográfico para muitos investigadores. De acordo com algumas fontes sabe-se que a partir do início da nossa era existia o tráfego de laranjas azedas, que da Índia, onde se cultivava na época, percorria vasto território até aos portos do Mar Vermelho. Daí, continuando a jornada para Ocidente, as laranjas eram transportadas, a dorso de camelo, até à Palestina.

Os escritos do erudito e grande viajante árabe Massudi, atestam este périplo comercial da laranja azeda, referindo que esta sendo trazida na Índia depois de 922 a.C., passava por Oman e daí para o Iraque, Síria, Palestina e Egipto.

Frutificando nos frondosos pomares de algumas regiões do extremo norte africano a laranja terá chegado a terras europeias através da expansão árabe. Este movimento para territórios mais setentrionais, por volta do século X d.C., levou a cultura da laranja azeda, assim como de outros citrinos, nomeadamente o limão, até à Sicília e Península Ibérica.

A laranja chega à Europa

Voltando às fontes escritas que atestam a presença da laranja por terras europeias, é na obra do alemão Albertus Magnus (1206-1280), grande tradutor dos textos de Aristóteles, que vamos encontrar a primeira descrição da laranja azeda, chamada na época “arangus”. Matthaeus Sylvaticus, de Mantua, médico muito respeitado do século XIII, também se refere à laranja azeda, afirmando ser um fruto há muito conhecido na Ligúria, no ocidente italiano.

laranja
créditos: Xiaolong Wong

Quanto à laranja doce, perdem-se no tempo as origens desta variedade. As primeiras referências encontram-se na China onde se supõe que a sua cultura seja muito antiga. Isso mesmo atesta os escritos do poeta chinês Han Yen Xi, na obra “Chü Lu” de 1178 a.C., designando a laranja doce, assim como à laranja azeda e a tangerina. Afirmava, então, que se conheciam 27 variedades destas três espécies.

É na entrada deste fruto no continente europeu que intervêm os portugueses. Alguns autores, como é o caso do botânico Valmont de Bonare no seu dicionário de história natural (1764) atribuem a origem da laranja doce na Europa aos navegadores lusos, embora esta ideia não granjeie unanimidade entre os investigadores. Há os que apontam para os árabes, admitindo que o fruto tenha chegado à Europa muito antes, por terra, pela rota comercial que trazia as especiarias do Oriente até Génova e outras cidades italianas.

Menos polémica é a teoria que se devem aos portugueses a introdução das melhores variedades de laranja no Velho Continente.

Conta-se que em 1520 (embora outras fontes citem 1548) chegaram ao reino de Portugal, as primeiras laranjas doces de novas variedades de origem chinesa. Foram trazidas de Goa, então possessão portuguesa na Índia, por D. João de Castro. Os primeiros pés foram plantados em Xabregas, próximo a Lisboa, no Jardim do Conde de São Lourenço, D. Francisco de Mascarenhas. Estas terão sido as plantas mães dos pés plantados no vale do Tejo, no vale do Sado, na ilha da Madeira, e no arquipélago dos Açores, entre outras regiões.

Fora de Portugal a “Laranja da China” era, na altura, conhecida como “Laranja de Lisboa”.

Embora D. Pedro II, enquanto regente, tenha proibido, em 1671, a saída de laranjas para fora do reino, considerando-o contrário aos interesses de Portugal, os espanhóis haviam levado diversas qualidades de laranja para o país vizinho durante o domínio dos Filipes, entre 1580 e 1640.

Terão sido, desta forma, os navegadores espanhóis os responsáveis pela introdução, na América do Norte e central, da laranja.

O fruto foi-se, entretanto, disseminando mundo fora, sofrendo mutações e originando novas variedades. As pesquisas e experiências para aprimorar as variedades conhecidas de laranja iniciaram-se no século XIX na Europa, depois de se terem divulgado as teorias geneticista de Mendel e da evolução e seleção das espécies de Darwin. A laranja foi, desta forma, sujeita a verdadeiras mutações de laboratório com vista a melhorar o aspeto, o tamanho e o sabor do fruto, assim como tornando mais resistentes às doenças e variações climáticas.

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