O impulso para esculpir é tão antigo quanto a própria pré-história e história humanas e tão amplo quanto os materiais que em diferentes momentos e locais, nos serviram para expressão artística ou utilitária. Pedra, madeira, argila, terracota, ébano, marfim, são apenas alguns exemplos de materiais duráveis e boas bases de expressão plástica.

Há, contudo, uma categoria de matérias-primas de carácter efémero que, através dos séculos, espicaça a criatividade. Referimo-nos aos alimentos. Pão, gelo, chocolate, açúcar e manteiga são somente cinco exemplos de bens alimentares que têm servido diferentes propósitos: decorativos, religiosos, simbólicos, rituais.

A arqueologia dá-nos, neste âmbito, contributo. Escavações na antiga Babilónia e em território inglês, reportando ao período da presença de Roma, revelam que já na época o pão era esculpido, representando animais.

Atualmente, no Tibete, vamos encontrar uma arte com centenas de anos a servir motivações religiosas e de entrada no novo ano. A de esculpir em manteiga proveniente de leite de iaque. Trata-se de uma prática de inverno, associada ao Budismo Tibetano, e que recorre a intrincados padrões e representações. Esculturas em manteiga que beneficiam das baixas temperaturas que se registam no planalto tibetano e que abonam com a introdução de pigmentos naturais.

Esculpir Manteiga na velhinha Europa

Longe do frio da Ásia Central, mas beneficiando do rigoroso inverno da Europa setentrional, o Velho Continente, também viu chegar à mesa esculturas em manteiga ainda no período renascentista e barroco. Os faustosos séculos XV e XVI, gostavam de enaltecer as mesas mais ricas. Intrincadas esculturas em manteiga serviam este propósito de grandeza. Uma arte complexa que exigia erigir estruturas tendo como base uma matéria-prima que rapidamente entra em degradação, amolecendo. Por isso um labor de inverno, tratado por mãos sujeitas a banhos de gelo, para se manterem permanentemente frias.

Dessa época, no século XVI, há a referência escrita a uma escultura de manteiga em honra do Papa Pio V. Consta que o banquete contou com nove cenas esculpidas em alimentos, o que incluiu a manteiga. Entre estas esculturas, um elefante e uma cena de Hércules em acesa luta com um leão.

Mais tarde, no século XVIII, o pintor Antonio Canova, descreveria o espanto face a uma impressionante escultura em manteiga, representando um leão, trabalhada por um moço de cozinha.

A efémera e difícil arte de esculpir usando manteiga

Uma tradição que se manteria na Inglaterra do século XVIII e nas mãos de cozinheiras domésticas, sábias na arte de produzir miniaturas em manteiga gelada.

Nos Estados Unidos, a amadora que foi pioneira

Do outro lado do Atlântico, nos Estados Unidos da América, a tradição da escultura de manteiga ganhou um impulso através das mãos de uma autodidata, Caroline Shawk Brooks. Em 1876 numa exposição em Filadélfia, um busto em manteiga (denominado Sonho Iolanthe), conservado sobre um balde de gelo surpreendeu os visitantes. Desde 1873 que Caroline reproduzia esta peça em mostras regionais por todo o país.

A artista amadora acabaria por estudar na Europa, em Paris (França) e em Florença (Itália), tornando-se uma escultora profissional, trabalhando em mármore.

Quando em 1893 Caroline reaparece em público, em Chicago, com os bustos da Rainha Isabel I de Castela e de Cristóvão Colombo, deparou-se com inúmeros outros escultores desta arte momentânea.

A partir das primeiras décadas do século XX, a evolução das técnicas de refrigeração e a disponibilidade de manteiga industrial, incentiva a criação de esculturas neste alimento não sujeitas à sazonalidade e de dimensões maiores.

A própria indústria incentivou esta forma de arte como estratégia de marketing contra, por exemplo, a disseminação de margarinas.

Após um período de recessão decorrente das duas Grandes Guerras e da Grande Depressão, entre as décadas de 1920 e 1940, a escultura em manteiga recuperou nos EUA. Atualmente há competições regionais e nacionais tendo como elemento promotor a manteiga de leite de vaca.