A pele negra tem como se sabe especificidades próprias e requer por isso cuidados diferentes. Alexandra Osório, médica especializada em Dermatologia e mestre em Dermatologia Estética, explica que «apesar de mais espessa e resistente às agressões externas do que a pele branca, sobretudo às radiações que induzem o envelhecimento, a pele negra precisa de determinados cuidados próprios, para evitar alguns problemas a que é mais propensa, e manter-se bonita e saudável».

As mulheres com pele negra, e também os homens que se preocupam com a sua saúde e imagem, têm por vezes alguma dificuldade em encontrar tratamentos ou produtos indicados para as especificidades da sua pele.

Especificidades da pele negra

A pele negra apresenta uma grande produção de melanina, o que lhe confere uma protecção natural às radiações solarese é também mais resistente a agressões externas, por ter uma camada córnea mais espessa e compacta (devido a um maior número de camadas de células). É por isso mesmo menos propensa ao fotoenvelhecimento e ao aparecimento de rugas. É muito normal que uma pessoa negra tenha 40 ou 50 anos e aparente muito menos idade, especialmente se o cabelo ainda não for grisalho.

É geralmente uma pele mais firme, por possuir maiores quantidades de fibras de colagéneo, que também adia o aparecimento das primeiras rugas. É mais lisa e elástica, possuindo também maior tonicidade que a pele branca, por exemplo. É também mais propensa a sofrer de celulite ou flacidez.

Frequentemente a pele é mais oleosa, mas, com o aparecimento das primeiras rugas torna-se seca e desidratada facilmente. No corpo, o grande problema é a celulite localizada nos flancos, ancas e coxas. Mais tarde, com o avançar da idade, dá-se um intenso emagrecimento e surge a flacidez. A pele é menos propensa a sofrer de cancro cutâneo, devido à sua protecção natural.

A pele negra mantém geralmente melhor a hidratação, sendo que tem tendência a ser um pouco mais oleosa que as outras peles, embora varie de pessoa para pessoa, entre um tipo da pele oleoso, misto e seco.

A maior produção de melanina, característica desta pele, pode, apesar do seu benefício de protector solar natural, dar origem a manchas, que aparecem como consequência de uma agressão, irritação ou inflamação. Trata-se de uma hiperpigmentação pós inflamatória, isto porque a pele reage, produzindo mais melanina nesse local, que deste modo ganha uma mancha um pouco mais escura. A homogeneidade do tom, além dos poros dilatados e a celulite é por isso uma das maiores preocupações das mulheres que procuram a consulta de Dermatologia.

Por ser mais espessa, a pele negra rompe com mais facilidade, pelo que é mais propensa a estrias, pelo que a mulher negra deve prevenir grandes oscilações de peso que provocam estrias nos antebraços, mamas, periumbilical, flancos e face lateral das coxas. Alexandra Osório alerta: «especialmente durante a gravidez é necessário ter cuidado com a hidratação da pele, pelo que aconselho sempre a aplicação de cremes ricos em ceramidas, hialuronato de sodium, glicerina».

A hidratação diária do corpo com óleo de cártamo, óleo de sésamo, óleo de coco, óleo de abacate, vitamina A e E é também importante, adequando sempre o produto ao tipo de pele e optando por produtos que nutrem profundamente, mas com elevada sensação de protecção e conforto, uma vez que, «quando está seca, a pele perde o tom viçoso e luminoso para uma tonalidade mais acinzentada, nada bonita ou saudável», explica a especialista.

«A fim de manter uma tez luminosa e uma cor “castanho dourado”, como a pele é muito espessa, deve-se forçar a pele a descamar ligeiramente, com limpezas de pele específicas para peles negras, sem provocar hiperpigmentações pós-inflamatórias (todo o cuidado é pouco no sentido de se evitar manchas desnecessárias), para desta forma aumentar a penetrabilidade de cremes com vitaminas C e A, que irão dar essa luminosidade e tom dourado à pele».

Ao contrário do que muitos pensam, o protector solar não é dispensável. Como em qualquer outro tipo de pele, a pele negra precisa de protector diariamente, pelo menos na face e mãos, embora de índice mais baixo, como SPF 15. A exposição ao sol, no verão, também requer cuidados. Além da aplicação de um factor de protecção SPF 15 em todo o corpo, é necessária a hidratação posterior da derme, uma vez que a pele negra reage ao sol com um mecanismo de defesa, engrossando a camada córnea, o que dá à pele um aspecto seco e um toque áspero.

Por ser tendencialmente mais oleosa a pele negra deve, na face, de ser hidratada com produtos tipo oil-free e que, concomitantemente, fechem os poros, tirem as manchas e alisem as rídulas. «Aconselho um tratamento hidroregenerador com máscaras específicas para peles morenas a negras. No final da primeira sessão a pele torna-se mais sublime e radiosa com um castanho exuberante» comenta Alexandra Osório.

É necessário ter em conta que, além de perder a luminosidade por falta de hidratação, a pele negra pode também ganhar manchas ou lesões de tom mais claro. Estas manchas mais claras ocorrem porque há uma desidratação intensa, localizada, com descamação muito superficial, com um processo inflamatório subjacente, pelo que uma correcta hidratação é muito importante, especialmente na tez.

Embora seja resistente, a pele negra pode ser sensível a irritações, e quando isso acontece, podem aparecer manchas, produzidas pela reacção da pele ao trauma. Assim, é necessário ter cuidados com a exposição solar, com a aplicação de produtos, com a depilação (que pode dar origem a pelos encravados) e com a acne. Um tipo de mancha que é comum na pele negra é o melasma, causado pela toma da pílula, pelas alterações hormonais na gravidez e pelas radiações solares.

A pele negra tem também a particularidade de ter mais glândulas sebáceas, pelo que é geralmente mais oleosa, e é também mais propensa à acne e à foliculite, que se caracteriza pela inflamação do folículo do pelo, por causa de um pelo encravado. A pele negra também está sujeita ao aparecimento de dermatose papulosa nigra. Os queloides, cicatrizes grossas, salientes e dolorosas, que surgem após ocorrência de um trauma na pele, também são um problema mais incidente nas pessoas com pele negra. Geralmente o cabelo das pessoas negras tende a ser mais fraco e quebradiço, devido à tracção exercida nos penteados, desde tenra idade.

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Cuidados diários para manter uma pele saudável

«Além dos cuidados gerais que qualquer pele deve ter, como cuidados diários ao nível da limpeza e hidratação, é essencial levar um estilo de vida saudável. A pele é o órgão mais extenso do corpo e também aquele que está mais exposto às agressões externas, pelo que todos os cuidados são importantes», explica Alexandra Osório. Esta especialista defende que uma dieta saudável, acompanhada de exercício físico regular são essenciais para manter uma pele bonita e saudável.

«Uma dieta desequilibrada e com gorduras em excesso não só é perigosa para o sistema cardiovascular, podendo ter as consequências que todos conhecemos, como é responsável pela obesidade e celulite localizada tão frequente nos negros».

No que toca aos cuidados diários a ter com a pele, como a pele negra tende a ser um pouco mais oleosa, os produtos devem ser indicados para este tipo de pele (oil-free, não irritantes e não comedogénicos, ou seja, que não obstruam os poros da pele). De qualquer forma, e ao contrário do que por vezes é do senso comum, as peles oleosas também precisam de ser hidratadas, mas sempre com produtos oil-free.

Para a determinação do tipo de pele, há que fazer uma avaliação, no sentido de seleccionar os produtos adequados, que vão ao encontro das necessidades da derme. A limpeza à pele deve ser feita de manhã e à noite, se possível com leites desmaquilhantes ou tónicos, seguindo-se a aplicação do produto hidratante. As mulheres com pele negra devem fazer uma esfoliação por semana, ou em caso de indicação médica, duas vezes. É necessário optar por um produto não muito abrasivo e aplicá-lo com delicadeza, evitando assim uma resposta exagerada que provoque maior produção de melanina e aparecimento das manchas.

A esfoliação é muito importante na pele negra, uma vez que remove as células mortas, que nesta pele dão um aspecto baço e acinzentado, pelo que deve ser feita na cara e no corpo. Depois da esfoliação a pele fica mais lisa, fina e melhor preparada para receber o hidratante. Nas peles mais secas é necessário aplicar máscaras com alguma regularidade de modo a fornecer à pele a hidratação perdida evitando o aparecimento de manchas esbranquiçadas nas maçãs do rosto.

Alexandra Osório recomenda ainda o uso de um despigmentante, a aplicar diariamente, à noite, especialmente os que contém ácido kójico, ácido ferúlico.

Muito importante é também o protector solar, que deve ser aplicado diariamente, para evitar fotoenvelhecimento, manchas e queimaduras. «Geralmente recomendo que no dia-a-dia se aplique na face e mãos, e nas outras zonas expostas, um protector de factor SPF 15, assim como em dias de praia».

Para a manutenção de uma pele saudável, no corpo é também necessário ter cuidado com a temperatura da água e com a duração dos banhos, para não ressequir a derme. «Por norma na pele negra deve aplicar-se um gel de banho que mantenha a hidratação da pele».

No que toca a acne e pelos encravados por exemplo é muito importante não mexer, uma vez que, quando agredida, a pele negra forma manchas, mais escuras que o tom normal, e que se notam bastante, especialmente se forem na face.

Os tratamentos dermatológicos e estéticos devem ser adequados à pele negra

Na pele negra podem ocorrer dois tipos de manchas. As manchas esbranquiçadas resultam da cicatrização de processos inflamatórios, como por exemplo pele muito seca na cara que, quando cura, deixa uma mancha esbranquiçada. Estas manchas devem ser tratadas com cremes hidratantes específicos, durante alguns meses.

Já as manchas mais escuras, acastanhadas, denominadas de melasma, que por vezes envolvem várias áreas da cara e podem ser desfigurantes, têm que ser tratadas assim que surgem, com produtos adequados que bloqueiam a sua evolução e controlam a produção desenfreada de pigmento local. Deve também recorrer-se a um laser espeico. Na Dermage, após um diagnóstico, inicia-se uma série de tratamentos Dermage Whitening, que fazem uma limpeza de pele com máscaras específicas e introduzem produtos despigmentantes na pele.

No caso tratamento da foliculite deve usar-se produtos de lavagem para diminuir a proliferação bacteriana, bem como fazer-se a esterilização da derme, que se destina a parar o ciclo vicioso desta patologia. Na resolução precoce associam-se peelings localizados bem como medicação antibiótica e cremes com retinol.

Os queloides previnem-se com a utilização de cintas de compressão e a aplicação de substâncias em silicone. Esta cicatriza, exagerada e descontrolada, só se consegue reverter com a infiltração localizada de corticóide associado a sessões de laser específico.

Na pele negra é muito frequente o acne conglobata, uma forma mais grave de acne e muito deformadora, que cicatrizes com aspecto de verdadeiras crateras. Nestes casos deve-se iniciar tratamento mais precocemente possível, que deve passar por peelings específicos e medicação apropriada.

Sabe-se que a pele negra possui um maior número de glândulas sudoríparas activas por unidade de área, o que resulta muitas vezes em suor excessivo - hiperidrose. Já o odor corporal associado será na consequência de bactérias, e não existem ainda explicações sobre os tipos de odores. O tratamento para a hiperidrose é simples, rápido, eficaz e indolor: aplica-se, com uma agulha muito fininha, pequenas quantidades de botox na derme, que resultam no fim da sudação e do odor corporal associado.

Os pelos encravados são outro grande problema na pele negra, e resultam sempre em hiperpigmentações localizadas. Por isso, qualquer pêlo encravado deve ser esfoliado, a pele deve ser hidratada com creme despigmentante e deve ser feita antibioterapia tópica.

Para o tratamento e controlo da oleosidade, a dermatologista Alexandra Osório teve oportunidade de, nas suas viagens aos EUA, contactar com a população afroamericana e iniciar um tratamento de limpeza de pele específico para peles negras, que permite o controlo da oleosidade, a prevenção das primeiras rugas e as lesões cutâneas. Primeiro a esta especialista faz uma avaliação ao envelhecimento e às imperfeições cutâneas, depois, este tratamento inovador tem uma fase de ataque no primeiro mês, seguindo-se o tratamento de manutenção. O tratamento é complementado com a aplicação de cremes faciais adaptados a peles negras.

A dermatose papulosa nigra é um problema dermatológico que requer sempre acompanhamento por um dermatologista. É importante não expor a pele à radiação solar e escolher criteriosamente os produtos a aplicar.

@Palmira Correia