Jacy Melicio, 38 anos, mãe de trigémeos com 4 anos de idade: Daniel, Davi e Taís. Isabel Mendes, 40 anos, também mãe de trigémeos com 3 anos de idade: Marilene, Josiane e Nélio.

Uma mais comunicativa e outra mais reservada, características que evidenciaram mesmo na autorização expressa que nos deram para utilizar fotos para ilustrar a Conversa Viva muito amigável e agradável que tivemos com as duas, nesta edição de Maio, mês das mães.

Jacy, durante a gravidez soubeste que eram trigémeos?

Filhos de Jacy Melício
créditos: Revista Sempre Viva

Sim, estava consciente e desde o momento que soube que eram trigémeos, tripliquei os cuidados com a minha pessoa, quer fisica quer psicologicamente, porque quando recebemos uma notícia dessas pode ser um susto, pode nos dar muita alegria, como pode nos causar alguma confusão. A partir daí tudo decorreu lindamente. Nunca pensei que algo pudesse correr mal até eles nascerem.

Como planeaste a gravidez?

Fui vivendo as minhas sensações, curtindo a minha gravidez aos poucos. Tive muito cuidado com a alimentação, fui regularmente ao médico pois queria saber que estavam bem, que estavam a desenvolver normalmente. É fundamental as mães que estão grávidas deixarem de pensar que tudo é normal. Face a algum sinal estranho devem ir ao médico, pedir esclarecimentos e compreender bem as explicações dadas. Psicologicamente também temos que planear porque trata-se de 3 bebés e não de um. Tive também que pensar em termos financeiros, no meu relacionamento, na empregada, no meu trabalho, como seria a minha rotina, o quarto deles, etc.

De forma geral, a tua gravidez correu bem?

A minha gravidez correu da melhor forma possível. No início tive um pequeno susto mas a partir daí foi tudo bem. A minha gravidez foi até aos 7 meses porque já não tinham muito espaço. Os dois rapazes (Daniel e David) já não estavam a deixar a Taís crescer, não deixavam a comida chegar até ela. Mas, de uma forma geral, a minha gravidez foi feliz. Infelizmente ou felizmente tinha que acabar (risos).

Onde e como foi o parto?

O parto foi nos Estados Unidos, foi cesariana e foi um dos momentos mais felizes da minha vida. Fui bem assistida. Estavam 20 profissionais na sala do parto e deixaram a minha irmã assistir, filmar e transmitir o parto via Skype. Foi um momento mágico, ver esses três seres a saírem e a ouvir a minha família aqui em S. Vicente a gritar de alegria quando cada um deles saia. Eles têm uma diferença de um minuto. Um momento que nunca esquecerei.

A Jacy tem 3 crianças com 3 temperamentos diferentes e 3 necessidades diferentes. Como é lidar com estes três seres tão diferentes?

Procuro primeiro identificar as necessidades de cada um e tento resolver os problemas de forma individual. Têm personalidade completamente diferente. Desde muito bebé que tenho estado a estudá-los e vejo que um é mais calminho, outro nem por isso, outro é mais chorão e a partir daí tento entendê-los e assim aprendi a lidar com eles. Tracei também,  desde muito cedo, uma rotina, pois caso contrário não teria vida. Assim têm hora para dormir, para comer, para tomar o remédio, para o passeio, hora para eu descansar, a minha hora também porque é fundamental que eles saibam qual o meu espaço e eu também respeito o espaço deles. Sabem que tenho horas para ir fazer a minha ginástica, estar com os meus amigos, dar as minhas aulas e estar com eles. Assim, se desde cedo, lhes mostrarmos  que cada coisa tem o seu lugar, torna-se fácil lidar com as necessidades e desejos de cada um.

Filhos de Jacy Melicio
créditos: Revista Sempre Viva

Como estás a preparar o futuro deles?

Quero primeiro dar-lhes o meu exemplo. Eu trabalho muito. Quero que saibam que tudo o que conseguimos na vida é pelo trabalho, com esforço e sacrifício. Nada na vida é conseguido com facilidades. Sempre lutei e esforcei-me por aquilo que eu tenho e quero que eles sigam o meu exemplo. A vida não está fácil para ninguém. Foi assim que aprendi com os meus pais e quero que aprendam isto comigo. Quero também que sejam independentes, que não dependam de mim. Estou a acompanhá-los de perto. Neste momento, estou a ensinar-lhes grafismo para que quando forem para a primeira classe estejam mais bem preparados.

Fala-nos do envolvimento do teu marido em todo este processo.

Desde o início que ele se envolveu. Assistiu ao parto, mesmo sendo via Skype. Foi buscá-los nos EUA quando tinham 1 mês. Deu-lhes banho, trocou-lhes a fralda, passou noites sem dormir, como eu. Costumo dizer que hoje em dia lá em casa somos uma equipa. O meu marido colabora, com apoio moral, financeiramente, com a sua presença, a sua autoridade, é um pai brincalhão mas que também impõe limites.

Achas que Cabo Verde tem condições para um casal jovem criar filhos trigémeos?

Não. Não temos. É muita despesa. Não quero muito falar de números porque ficará difícil acreditar, mas só para dar um exemplo, quando tinham 3 meses, eram 24 biberões de leite por dia e 125 fraldas por semana. Se não temos um trabalho para sustentar tudo isso, fica muito difícil. Só tenho o seguro, mais nada. Sequer subsídio do INPS.

A nível profissional, facilitaram-te a vida?

Com certeza. Sou professora e durante dois anos seguidos não me colocaram a dar aulas às 07:30, mas somente a partir das 08:30. Fiquei com os sábados livres. Pude organizar a minha vida profissional. A chefia, os meus colegas e até mesmo a minha família ajudaram muito nesse processo.

Que conselhos/sugestões deixas às mães neste mês que é delas?

Acho que as mães cabo-verdianas são supermães. Desde sempre a nossa história tem evidenciado isso: as mães que educaram sozinhas 9 - 10 filhos sendo o pai embarcadiço,  as mães que cuidam dos filhos portadores de deficiência ou com necessidades especiais. Acho que essas é que são supermães. Quando me rotulam de supermãe digo-lhes que não sou nada disso. O meu caso comparado com uma mulher que cuida de um filho com paralisia cerebral não é nada. As mães cabo-verdianas  são guerreiras. Tantas são as mulheres que são abandonadas só porque ficam grávidas e elas têm o seu filho e educam-nos sozinhas. Elas estão de parabéns porque são fortes.

Isabel Mendes, mãe de trigémeos

Isabel, a tua gravidez foi planeada?

Isabel Mendes (Ilustração)
créditos: Revista Sempre Viva

Foi. Quis ter filhos. Fui ao Brasil e fiz uma inseminação. Produção independente. Pedi quadrigémeos tanta era a minha vontade de ser mãe, mas vieram trigémeos. Hoje, na prática, vejo que fui egoísta. Exigem muito de mim e sinto-me insuficiente. Não tenho mãe, pai nem nenhum familiar que me ajude.

Fale-nos um pouco como correu a tua gravidez e o teu parto?

A minha gravidez  foi stressante e, ao mesmo tempo, com uma sensação de vazio. Estressante porque eram muitas as recomendações e muito peso. Com 6 meses já tinha uma barriga de 9 meses. Dependia de alguém para me levantar do sofá e para andar. Vazio, por medo de perdê-los a qualquer hora. Assim, nos Estados Unidos, com 32 semanas disse ao médico que não queria estar mais grávida. O médico preguntou-me porquê e eu disse que estava com medo de perdê-los se tivesse que esperar pelas 39 semanas. Estava muito stressada e cansada. Assim, fizeram-me o parto quando estava com 32 semanas. O parto foi cesariana. Um nasceu com 2.520 gr, outro com 2.580 gr e o terceiro com 1.800 gr.

Como concilias a tua profissão, com a de mãe, dona de casa, educadora, mulher?

Indo cada dia. Faço uma boa gestão do tempo e temos regras: para levantar, para tomar banho, para comer, para brincar e dormir. Coloco-os a dormir por volta das 20 horas. Eu vou para a cama por volta das 10 e às 06 horas estou de pé.

A nível profissional, facilitaram-te a vida?

Nada. Quando regressei dos Estados Unidos, pensei que poderia encontrar um ambiente de mais apoio mas não ajudaram em nada. Não levaram em nada a minha condição de mãe sozinha e com trigémeos. Colocam-me a fazer turnos e sou obrigada a ir deixá-los em casa da babá porque ela não tem disponibilidade para dormir em minha casa. As condições  em casa dela são precárias e são obrigados a dormir num colchão no chão.

Recebes algum subsídio por parte do Estado?

Não recebo nada. Só disponho do meu salário. O INPS (Instituto Nacional de Previdência Social) não me deu nada, nem o subsídio de aleitamento e justifica o facto de, por estar a exercer a minha profissão há muito tempo, não estar abrangida por esses subsídios. Só benefício de assistência médica e medicamentosa.

Então é muita ginástica financeira?

Pago oito mil escudos à babá para tomar conta deles, mas tudo o resto faço eu: comida, roupa, etc. Não chego nem a fazer contas para não me assustar. Nos Estados Unidos tive muita assistência.

Achas que Cabo Verde tem condições para uma mãe sozinha criar filhos trigémeos?

Cabo Verde é o pior lugar para se ser mãe.

Que conselhos/sugestões deixarias às mães neste mês que é delas?

Que não deixem que nenhum obstáculo lhes impeça de realizarem o sonho de serem mães. Hoje sou muito feliz como nunca antes tinha sido. Antes eu ria mas eu não tinha nenhuma felicidade. Sentia um vazio muito grande..

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