Após o casal ter sido submetido a exames de avaliação, e depois de definido o melhor protocolo para a estimulação ovárica, dá-se então início a todo o processo, por via da indução da ovulação. Ou seja, os óvulos da mulher, uma vez maduros, são recolhidos, sendo depois fertilizados com espermatozoides que foram devidamente selecionados em ambiente de laboratório. Este dia é conhecido, a nível clínico, como o “dia zero”, ou “D0”, o ponto de partida do processo de formação dos embriões.

No dia seguinte à colecta dos óvulos e à fertilização, o “dia 1”, o casal é informado sobre o número de embriões que se formaram. Esta informação é obtida através da visualização, por microscópio, da célula inicial do organismo: o zigoto.

E como é que se sabe que o zigoto já está formado? É fácil. Nesta fase, os pronúcleos derivados do material genético do óvulo e do espermatozoide – ou, dito de forma mais simples, os núcleos do óvulo e do espermatozoide durante o processo de fecundação – encontram-se nessa célula inicial. O outro sinal é o surgimento de um segundo corpúsculo polar oocitário: o ovócito I (o óvulo que está na fase inicial da divisão celular) começa a maturar através de um tipo de divisão celular conhecido por meiose, sendo que no final dessa divisão são criadas duas células com funções muitos específicas – os referidos corpúsculos polares.

O zigoto e o “milagre da multiplicação”

Tal como se referiu, o zigoto é a célula inicial do corpo humano, a célula a partir do qual tudo tem início e se forma. Basicamente, trata-se de uma célula totipotente, assim batizada pelos cientistas porque é a partir dela que se irão formar todas as células, tecidos, órgãos e os diversos sistemas do corpo humano.

Segue-se um milagre da multiplicação. O zigoto, uma vez formado, começa a dividir-se noutras células (os blastómeros), através de um processo a que se deu o nome de ‘clivagem’. Inicialmente divide-se em dois blastómeros, sendo que cada um vai depois dividir-se em outros dois, e assim por diante, em sucessivas divisões simétricas que resultam num rápido aumento das células.

O acompanhamento laboratorial dos embriões passa, precisamente, por ver e avaliar este processo de fertilização e a posterior clivagem. É desta forma que se consegue estimar a viabilidade do embrião, a sua qualidade e o potencial de conseguir ser implantado no útero com sucesso. Por norma, no “dia 2” após a fertilização o embrião deverá ter entre duas a quatro células (ou blastómeros). No “dia 3”, os embriões de boa qualidade têm à volta de oito células.

Para avaliação de um embrião, e de modo a serem escolhidos os melhores, são tidos em conta estes fatores: a clivagem embrionária teve de demorar o tempo certo (houve um número de células adequado para cada dia de desenvolvimento); houve uma divisão celular equilibrada e exemplar (gerando blastómeros simétricos); ausência de fragmentação embrionária (de pequenos pedaços de citoplasma das células, provocadas por divisões celulares não-equilibradas).

Após se ter entre oito a dez células, o que acontece por volta do “dia 3”, as divisões celulares ficam cada vez mais rápidas, pelo que depressa se esbatem os limites entre as células. Significa isto que vamos passar a ver um aglomerado de células, altura em que dizemos que o embrião está a compactar-se. Em suma: tudo está a correr bem.

À medida que se desenvolve este processo de compactação e o número de células aumenta, o embrião atinge o estágio de ‘mórula’, adotando a forma de uma bola sólida e compacta, muito parecida com uma amora-silvestre: normalmente, isto acontece no “dia 4”.

‘Chocar o ovo’ e ‘furar’ o blastocisto

No “dia 5” do desenvolvimento embrionário, eis que o embrião atinge a fase de blastocisto, altura em que a bola de blastómeros adota a aparência de uma esfera oca.

Neste momento, começam a diferenciar-se dois grandes grupos de células no embrião: o trofoblasto (as células externas do blastocisto) e o embrioblasto (a massa celular interna). Ao mesmo tempo, forma-se a cavidade interna do blastocisto (a cavidade blastocística), que está cheia de fluídos. O trofoblasto vai depois dar origem aos tecidos da placenta.

A massa celular interna do blastocisto vai, em seguida, diferenciar-se (especializar-se), levando à formação de todos os tecidos do embrião. O conjunto de células totipotentes que encontramos nesta fase representa uma fonte riquíssima, pois é a partir delas que se obtêm as famosas células-tronco embrionárias, as quais vêm sendo intensamente investigadas por cientistas de todo o mundo, como material biológico de alto valor para a formação dos mais diversos tecidos do corpo humano, e para o desenvolvimento de curas para inúmeras doenças.

Quando a cavidade blastocística está preenchida, dizemos que o embrião está expandido. Nesta fase, que ocorre no “dia 5” ou no “dia 6”, o embrião começa a fazer o processo de rutura da zona pelúcida – a camada grossa que envolve o ovócito – um fenómeno a que se dá o nome de hatching (‘chocar o ovo’, traduzido de forma livre para português).

A zona pelúcida é uma membrana rígida que protege os estágios iniciais da vida, da fase de óvulo até à fase de blastocisto do embrião. Todas as divisões celulares iniciais que ocorreram, até este momento, tiveram lugar dentro desta cápsula protetora.

No entanto, para que o embrião se implante no útero ele tem de sair deste invólucro, fazendo, literalmente, um furo nessa camada para que consiga esgueirar-se para fora dela. Após esta ‘fuga para a liberdade’, o embrião vai posicionar-se sobre o endométrio (o tecido que reveste toda a parede interna do útero) e dá-se início ao processo de implantação.

Em condições normais e naturais – uma gravidez espontânea – o hatching ocorre quando o embrião, após percorrer toda a trompa, chega ao útero, o que acontece ao quinto ou sexto dia pós-fertilização. Contudo, e em ambiente de laboratório, é possível seguir o início deste processo e transferir imediatamente o embrião para o útero logo que o hatching espontâneo é observado. Quando o embrião é transferido no “dia 2” ou no “dia 3”, faz-se, muitas vezes, o chamado hatching assistido: um pequeno orifício é cirurgicamente feito na zona pelúcida através de um laser, imediatamente antes da transferência.

Qual o momento certo para fazer a transferência do embrião?

A transferência embrionária na fertilização in vitro é realizada, na maioria das vezes, no “dia 3”, quando o embrião, em condições ideais, tem oito células. Pode ser realizado no “dia 2” nos casos em que há um pequeno número de embriões, ou nos casos em que as hipóteses de gravidez são mais pequenas: especialmente quando a mãe tem uma idade avançada ou quando tem uma baixa reserva de ovários.

Nos casos em que existe um número grande de embriões de boa qualidade, no “dia 3”, pode-se estender a cultura (produção) dos mesmos até à fase de blastocisto (“dia 5”). Isto permite uma melhor seleção embrionária para a transferência, assim como a diminuição do número de embriões transferidos, sem que a probabilidade de engravidar diminua: ao mesmo tempo, é reduzida a possibilidade de ocorrer uma gravidez múltipla.

Alguns estudos científicos afirmam que a fase de blastocisto é a ideal para a transferência embrionária, pois está em sintonia com o que ocorre naturalmente, sem intervenção artificial: o embrião vai para a cavidade uterina no “dia 5” ou no “dia 6”, proporcionando maiores probabilidades de engravidar.

Visto de fora, parece um autêntico puzzle que tem de ser devidamente montado, sempre no momento certo e nas condições ideias, mas o conhecimento atualmente existente permite que tudo seja feito com o maior rigor, segurança e com uma elevada taxa de sucesso… que é como quem diz, uma elevada probabilidade de a mulher ficar grávida.