Acredito que, todos nós temos dentro de nós a chamada "criança interior", a memória que reside no nosso inconsciente desse tempo da infância. Saiba que as suas escolhas amorosas - mesmo aquelas que parecem ser fruto do acaso - são amplamente condicionadas por ela.

O amor é essencial à vida de todos os seres humanos e, ainda que possa haver exceções, é geral a necessidade de sentirmos que somos alvo de um apreço especial por outro ser, de nos sentirmos únicos e especiais, apreciados e amados como somos. Mas essa necessidade leva a que, na busca por um amor que idealizamos, possamos ver-nos envolvidos em relações que não são saudáveis ou que estão muito longe daquilo que procuramos. Porque à nossa volta somos apresentados a definições do que o amor deve ser, acabamos, muitas vezes, por deixar de saber aquilo que o amor é, realmente.

A dificuldade em saber distinguir relacionamentos saudáveis daqueles que não o são faz com que vivamos dificuldades e problemas na nossa vida amorosa, repetindo os mesmos padrões, mesmo que com pessoas diferentes. A dificuldade em lidar com um compromisso, a fuga aos sentimentos ou a necessidade constante de emoção são alguns dos reflexos de uma imagem deturpada do amor e das relações.

No seu âmago, o amor traduz-se num sentimento de segurança nos braços ou na presença de outra pessoa. Ele existe quando confiamos de alma e coração em alguém e sabemos que essa pessoa tudo fará para nos fazer sentir bem, para nos dar estabilidade e segurança, respeitando e valorizando quem somos.

O amor não é a foto perfeita publicada nas redes sociais. Não é a viagem inesquecível a um lugar paradisíaco. Também pode ser isso, mas não se define por isso. No entanto, estamos tão rodeados por falsos conceitos a respeito do amor que muitas vezes sentimos que falhámos quando não temos, na nossa vida amorosa, esse aparato cénico que nos convencemos que é preciso ter para sermos amados.

O amor é um sentimento de aconchego, de conforto, que alguém nos transmite de uma forma que não é igualada por mais ninguém. Mesmo nas relações não monogâmicas, cada amor vivido é único e insubstituível.

Quando, pelas desilusões que experienciámos, fechámos o nosso coração e acreditamos que o amor já não é possível, na verdade nada terminou. O amor é um dos nossos instintos naturais e, por mais escondida que esteja a nossa capacidade de amar, sufocada sob condicionamentos a que nos obrigamos, estamos sempre disponíveis para amar novamente, mesmo que não tenhamos consciência disso.

Os primeiros afetos

O primeiro laço que é criado e que molda a nossa maneira de viver o amor é aquele que, ainda bebés, criamos com a nossa mãe, logo que chegamos ao Mundo e durante o tempo em que ainda não somos capazes de assegurar a nossa sobrevivência. O amor que recebemos da nossa mãe, primeiro, e do nosso pai e do núcleo familiar mais chegado, depois, determina e molda a forma como aprendemos o que é o amor. Quando esse laço não é criado, por ausência física da mãe, ou é deficitário, porque a nossa mãe não criou connosco um laço de amor ou não soube fazê-lo de forma saudável, essa marca fica registada dentro de nós e manifesta-se na maneira como vamos mais tarde lidar com os nossos afetos.

Atenção! A sua mãe, o seu pai, ou as pessoas que lhe foram mais próximas fizeram o melhor que souberam naquele momento e perante as circunstâncias com que se viram confrontados. Nem todas as pessoas são capazes de lidar com a responsabilidade de um filho e isso não significa que sejam más. A capacidade de perdoar aqueles que não o souberam amar é, sem dúvida alguma, o primeiro e mais importante passo que pode dar no sentido de curar um coração que foi magoado.

Ambientes tóxicos

Se crescemos num ambiente em que as nossas necessidades não eram satisfeitas, no qual não nos sentíamos seguros ou não recebíamos a atenção de que precisávamos, essas carências tendem a manter-se sempre presentes na nossa vida adulta, até sermos capazes de as aceitar como algo que fez parte do nosso passado mas que não tem de existir no presente.

Da mesma forma, o amor que vimos entre os nossos pais condiciona a imagem que criámos a respeito do que é o amor. Mesmo que ambos tenham sido carinhosos, atenciosos e responsáveis connosco, se não tinham uma relação de respeito e afeto um pelo outro, as cenas que inconscientemente presenciámos e que a nossa mente ainda em formação processou, foram criando um filme mental daquilo que para nós é o amor entre duas pessoas. Essa pode ser uma das razões pelas quais tantas pessoas adultas dizem não acreditar no amor, na lealdade, na honestidade, na fidelidade, na confiança.

Ainda que os nossos pais queiram (ou devam querer) sempre o melhor para nós, as suas próprias inseguranças acabam por determinar aquilo que nós recebemos como informação válida. Quando somos pequeninos, confiamos cegamente nos adultos que nos são mais próximos, e sempre que eles falham, como é humanamente normal que aconteça, apreendemos essas falhas como algo que é normal.

Situações de abuso, abandono, negligência ou violência, entre outros casos, são profundamente marcantes para uma criança e geram padrões de comportamento dos quais nem sempre é fácil escapar. A situação inversa, na qual uma mãe ou o núcleo familiar próximo cria na criança uma dependência extrema, é igualmente perniciosa, originando adultos que têm dificuldade em tomar decisões e fazer escolhas, procurando sempre parceiros que assumam o controlo das suas vidas, mesmo que isso os mantenha presos a relacionamentos tóxicos, nos quais a sua identidade é anulada ou posta em causa.

Tomar consciência dos seus mecanismos mentais, das ideias e conceitos que tem em relação ao amor e que estão a condicionar a sua vida atual ajuda-o a libertar-se desses padrões, permitindo-lhe viver o amor de uma forma mais leve, mais feliz e, acima de tudo, mais sua.

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