Em conversa com: Patone Lobo, da mecânica à hotelaria

Sonhador, persistente, perseverante: três palavras que definem Manuel António de Sousa Lobo (Patone), um dos nomes mais conhecidos do Turismo em Cabo Verde. Confira a entrevista da Revista Sempre Viva.
créditos: Vlad Delgado

Este menino de Santa Maria, muito novo viu-se obrigado a driblar a dura vida de outrora e a desenhar o próprio caminho. Para fugir da guerra, voluntariou-se para a Força Aérea Portuguesa, formou-se em mecânica e construiu seu próprio hotel. Um caminho percorrido ao lado de mulheres de garra, sua mãe, sua mulher, suas filhas e colaboradoras. Se já chegou ao destino? Aos 66 anos, diz que a sua aventura ainda está longe de terminar.

Quem é Patone Lobo?

Sou uma pessoa que gosta muito de trabalhar e que não consegue estar parada. Sinto um prazer imenso em ajudar e felizmente estou casado com uma mulher que gosta muito de ajudar as pessoas, o que é muito bom, pelo que me sinto preenchido. Sou um empreendedor nato, estou sempre a buscar coisas novas e a inventar. Este é o Patone Lobo.

Patone Lobo
créditos: Vlademiro Delgado

É o mesmo Patone da infância?

Penso que há muita similitude. Eu era uma pessoa que dizia tudo o que pensava, mas hoje tenho mais calma, tento sempre “dormir” sobre o assunto e não tomar nenhuma decisão a quente. Porém, continuo a ser a mesma pessoa, com a mesma energia e com uma vida familiar boa.

Quando não está a trabalhar está com a família?

Sempre! Porém, os meus filhos dizem que estou sempre a pensar no trabalho ou em algo relacionado com Cabo Verde e o Sal. Mas tenho uma preocupação muito especial com a família, e não estou a falar só da mulher e filhos.

Tem uma família numerosa?

Tenho seis filhos, três rapazes e três meninas, frutos de dois casamentos, e 10 netos.

Como é ser pai e avô?

Uma vez li um post de um amigo no facebook que dizia: “se soubesse como é bom ser avô, tinha começado pelos netos”. Pois, é tão bom ser avô. Se bem que eu tive a minha última filha com 50 anos, precisamente no dia do meu aniversário, pelo que sempre tive uma criança em casa. Ela já está com 16 anos e vou começar agora a saborear verdadeiramente a companhia dos meus netos.

Fale um pouco de sua vida. Como chegou ao Patone de hoje?

Nasci em Santa Maria, numa altura em que éramos obrigados a separarmo-nos muito cedo da nossa família. Ainda hoje eu tenho a impressão de que não vivi a minha juventude como deveria viver.

Porquê?

Porque com nove anos vi-me obrigado a sair de perto dos meus pais para ir para São Vicente. Se pudesse voltaria atrás para viver mais tempo com os meus pais. Em São Vicente passei pelo Liceu Gil Eanes, depois fui para a cidade da Praia fazer o segundo ano e quando abriram o Externato no Sal regressei para terminar o liceu. Mais tarde entrei para a Força Aérea Portuguesa.

Por decisão própria?

Sim. Um irmão meu morreu na guerra e, por isso, antes que me chamassem para o exército, eu ingressei como voluntário na Força Aérea Portuguesa, onde tinha que prestar seis anos de serviço. Fui seleccionado, estive na Guiné-Bissau a fazer inspecções e de lá fui para Portugal, onde fiz o curso de Mecânica de Material Aéreo (MMA). Trabalhei na Força Aérea como mecânico de avião até 25 de Abril de 1974.

E no ano seguinte Cabo Verde tornou-se independente…

Sim, assisti à independência. Lembro-me que na altura deveria ir para a TACV trabalhar, mas eu não queria ir para a Praia viver. A TACV pagava 10 mil escudos aos mecânicos de avião, mas o Georges Vynckier, do hotel Morabeza, ofereceu-me 11 contos, por isso fiquei cá. Dei-me muito bem com a mãe dele, a Marguerite Vynckier, e aos poucos fui entrando no serviço, até que fui nomeado director-geral do hotel Morabeza. Feitas as contas, tenho mais tempo de trabalho no Morabeza do que no Odjo d’água.

Quantos anos para ser exacto?

Foram 27 anos no Morabeza. No Odjo d’água são já 20 anos, incluindo os dois anos de sua construção.

Acabou de contar uma história sobre si que pouca gente conhece, a sua passagem pela Força Aérea Portuguesa.

Convém realçar que eu entrei para a Força Aérea para fugir da guerra. Na altura, se uma família perdesse um filho na guerra, tratava de mandar o mais novo para a Força Aérea, por forma a evitar mais perdas.

Foi uma experiência e tanto…

Uma experiência que continuo a aplicar na minha vida actual. Tinha muito jeito para desenho. Comecei a trabalhar na empresa Infras Força Aérea como desenhador. Mais tarde, passei a desempenhar as funções de fiel de armazém e chefe de equipa de construção. Essa parte técnica deu-me algo que eu precisava para conseguir fazer o que fiz. Muito de que sei e que sou devo aos seis anos de serviço na Força Aérea.

Aplicou-os na sua vida pessoal e profissional?

É como digo sempre: todos os homens deviam fazer o serviço militar porque é uma grande escola. Por mim os meus filhos prestavam serviço militar e só depois iam estudar.

Uma escola que, aos poucos, facilitou a sua entrada para o setor do turismo… Quando comecei a trabalhar no Morabeza o hotel tinha pouco mais de 20 quartos. Portanto, eu cresci juntamente com o Morabeza, mas sentia necessidade de fazer algo meu. Lembro-me que saí um dia a procurar um sítio que desse para construir e cheguei aqui. Isto aqui era cheio de lixo, muito estreito, não atraia a atenção de ninguém. Dava a impressão de que era impossível construir neste terreno. Mas eu vi o meu hotel aqui, desenhei-o na minha cabeça, idealizei-o. Mas eu não tinha dinheiro e pedi então ao Vynckier que entrasse comigo como parceiro. Ele negou, porém deu-me muito apoio no início.

Odjo d'Água
créditos: Vlademiro Delgado

Como conseguiu dinheiro então? Quando começou a construir o hotel?

Comecei a construir em 1997. Levantava-me todos os dias às 6h00, vinha e ficava aqui nas obras até por volta das 9h00 ou 10h00, porque continuava a trabalhar no Morabeza. Até que conclui a primeira fase, com apenas 10 quartos. Depois tive que recorrer ao banco, para dar continuidade aos trabalhos. Foi quando cheguei à conclusão de que não conseguiria dar o meu melhor para nenhum dos dois hotéis. E decidi que era altura de deixar o Morabeza para assumir o meu hotel a tempo inteiro.

Comentários