Podem a hiperatividade e o défice de atenção trazer vantagens?

É muito frequente que vários de um grupo de irmãos cumpram os critérios da perturbação, assim como é comum ouvir os pais (não diagnosticados) das crianças com PHDA dizerem “eu era tal e qual como ele é” ou “se eu tivesse tido nesta idade o tratamento que ele está a ter agora as coisas podiam correr muito melhor”.
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A existência de uma agregação familiar de indivíduos com o diagnóstico de perturbação de hiperatividade e défice de atenção não é uma novidade para aqueles que lidam com a perturbação, sejam pessoas afetadas ou técnicos a quem estas recorrem. É muito frequente que vários de um grupo de irmãos cumpram os critérios da perturbação, assim como é comum ouvir os pais (não diagnosticados) das crianças com PHDA dizerem “eu era tal e qual como ele é” ou “se eu tivesse tido nesta idade o tratamento que ele está a ter agora as coisas podiam correr muito melhor”. Estes achados da prática clínica das consultas de PHDA da infância e do adulto são plenamente justificados pelos estudos populacionais que revelam que esta perturbação tem uma elevada heritabilidade - ou seja, a forte componente genética - que faz com que 70 a 80% das crianças com PHDA tenham pais que cumprem, eles também, critérios de diagnóstico. Há, portanto, uma elevada manutenção dos genes associados à perturbação de geração em geração.

Estas taxas são as mais elevadas de entre todas as perturbações mentais, o que nos coloca uma importante questão do ponto de vista da evolução da espécie humana. Se a PHDA é tão hereditária, é porque ao longo das gerações os seus genes foram selecionados para permanecer na população. Mas se a PHDA é tão incapacitante e prejudicial, qual a vantagem de manter essas características numa percentagem significativa de seres humanos?

A resposta está provavelmente no facto dos seres humanos terem evoluído em grupo, ou seja, a existência de indivíduos com PHDA na população trouxe provavelmente mais vantagens para o grupo do que para o indivíduo em si. Várias teorias evolucionistas atribuem diferentes papéis aos humanos ancestrais com PHDA, sendo o mais popular o do “caçador” ou o “lutador”, que teria essa capacidade por ser fisicamente mais ativo, impulsivo e pelo facto de ter uma atenção dispersa através do ambiente para detetar caça ou ameaças. Evidentemente, o ancestral caçador, tal como o humano com PHDA atual, está exposto a muito mais riscos dos que os restantes indivíduos do seu grupo, mas a sua existência é necessária para o suprimento das necessidades ou para a defesa dos outros. O benefício evolutivo é principalmente do grupo.

A vantagem evolutiva da PHDA não se esgota aqui. Olhando para a população infantil (até porque é sempre na infância que os sintomas surgem, mesmo que não notados), qual poderia ser a vantagem de existirem uma ou duas crianças com PHDA entre as outras? A resposta parecer ser a aprendizagem do grupo. As crianças com PHDA fazem coisas que não devem, muito antes das sociedades terem as características que hoje conhecemos: queimam as mãos no fogo; correm mais riscos e magoam-se; não se concentram nas suas tarefas, quebram as regras, e sofrem as consequências. Todos estes erros físicos e sociais fornecem lições ao grupo de crianças – enquanto uns poucos se magoam ou sofrem insucesso, a maioria aprende pela experiência dos outros e permanece segura. Menos frequentemente, mas possivelmente, as crianças com PHDA descobrem algo vantajoso, que as outras crianças não descobririam.

A aprendizagem observacional é de uma importância tão grande para o ser humano que os genes responsáveis por um grupo de características associadas a um aumento da exploração do ambiente - hiperatividade, impulsividade e défice de atenção - foram selecionados pela natureza. Não por serem vantajosas para os indivíduos que têm essas características, mas para o benefício dos grupos sociais.

Gustavo Jesus
Médico Psiquiatra e Coordenador da Consulta do Adulto do PIN

gustavo.jesus@gmail.com

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