Esquece-se de detalhes irrelevantes? Isso não é assim tão mau e mostra que é inteligente

Esquecer-se de coisas corriqueiras ou detalhes irrelevantes não só não é mau, como pode indicar que é mais inteligente, revela um estudo publicado em julho. André Carvalho, neuropsicólogo no Hospital Lusíadas Lisboa, explica porquê.
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De acordo com um grupo de investigadores da Universidade de Toronto, o objetivo da memória pode não ser transmitir informações precisas ao longo do tempo, mas, em vez disso, guardar apenas informações valiosas.

As descobertas, publicadas há dois meses na revista Neuron, indicam que esquecer-se de coisas irrelevantes é importante para armazenar novas memórias.

Os pequenos esquecimentos, ou transitoriedade, deixam-nos adaptar a novas situações, uma vez que largamos informação antiga. Além disso, ter memórias mais simples ajuda-nos a prever novas experiências.

"Este tema é complexo e vem reforçar algo importante que já se pensava: é que se o papel da memória é o de armazenar a informação, a sua importância é a de auxiliar nas escolhas e decisões que fazemos. Ou seja, podemos admitir que os indivíduos que tiverem melhor traço de memória são também aqueles que poderão estar mais aptos para fazer as melhores escolhas", explica o André Carvalho, especialista no estudo da memória.

"Mas a nossa memória funciona de forma dinâmica alternando entre estados de permanência e estados passageiros e depende fisiologicamente de estruturas e áreas cerebrais localizadas em lugares distintos no nosso encéfalo conectadas entre si através de redes de biliões neurónios. Nesta rede de neurónios por onde circulam dados existe também informação desnecessária (ruidosa) a circular e que pode interferir com a primeira fase de um processo de aprendizagem que se chama codificação, que é quando o próprio cérebro está a tentar responder à questão 'o que é isto?'", frisa o neuropsicólogo.

Essas áreas cerebrais responsáveis pela memória e aprendizem, especialmente os hipocampos, as amígdalas e zonas específicas do córtex frontal, tratam nesse momento de diminuir a força do sinal da informação desnecessárias que já lá se encontrava gravada para ganhar espaço para que novas memórias se imprimam no tecido nervoso.

"Este mecanismo competitivo no fluxo de informação cerebral que coordenam padrões de memórias antigas versus recentes e necessários versus desnecessários é chamado de regularização, que é exatamente o que faz um computador dotado de inteligência artificial. Só assim é possível fazermos generalizações com base em grandes quantidades de dados de informação", acrescenta o André Carvalho.

Memória moldável

Para o neuropsicólogo, devido ao facto da memória ser dinâmica e moldável, "é possível optarmos por comportamentos mais flexíveis, mais adaptados e logo mais inteligentes, num mundo cheio de surpresas, novidades ou situações inesperadas".

"Afinal é esse o papel fundamental da memória: ajudar-nos a optimizar o processo de tomada-de-decisão", salienta o especialista.

"Se tratarmos bem da saúde da nossa memória, dormindo bem, baixando níveis de stress, não nos expondo demasiado ao medo ou ao trauma psicológico, praticarmos desporto e atividades criativas e estimulantes, a nossa memória se encarregará a todo o momento de nos fazer esquecer o que não interessa dando sempre mais espaço e oportunidade ao que realmente importa", conclui o neuropsicólogo.

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artigo do parceiro: Nuno Noronha

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