Dizer “não” aos outros para dizer “sim” a si próprio

Como é, dentro de si, quando perante uma solicitação do seu dia (pessoal, familiar, laboral), a sua vontade é dizer “não” mas a sua resposta e/ou acções dizem “sim”? Quais são as suas necessidades que não está a respeitar cada vez que responde “sim” sem ser essa a sua vontade?

Hoje em dia sentimos, muitas vezes, que temos de nos multiplicar, respondendo a diferentes solicitações nas diferentes áreas de vida. Muitas vezes gostávamos ou precisávamos de dizer “não” mas não o conseguimos fazer, tanto por nos sentirmos obrigados a responder afirmativamente como por vontade de estar em diversos lugares e/ou perto de determinadas pessoas simultaneamente. Esta vontade parece paradoxal: queremos fazer tudo e, ao mesmo tempo, não nos conseguimos dedicar verdadeiramente a nada.

A incapacidade de irmos dizendo “não”, definindo as nossas prioridades, leva a que neguemos aquilo a que realmente queríamos e deveríamos dizer “sim”: as nossas necessidades. As nossas obrigações e responsabilidades sobrepõem-se à nossa capacidade de relaxarmos sem culpa associada e de reconhecer que a nossa produtividade é tão importante, para o nosso bem-estar, como os momentos de lazer.

O que nos leva a dizer que “sim” quando queremos dizer “não”?

Podemos responder “sim” com receio de magoar ou ofender alguém; com receio do julgamento ou rejeição, posterior, do outro; com receio de perder uma boa oportunidade ou com receio de ficar com uma avaliação negativa no emprego. A antecipação de uma reação desagradável por parte do outro faz-nos dizer “não” a nós próprios mais vezes do que desejávamos, criando mal-estar psicológico e conflitos dentro de nós.

Respondemos tantas vezes afirmativamente aos pedidos do outro, que pode parecer que dizer “sim” faz parte da nossa identidade como se dizer mais vezes “não” (quando realmente é essa a nossa vontade) fosse mudar quem somos e a forma como o outro nos vê. Dizer “não” ao outro pode ser tão incómodo que nos leva a ter comportamentos de evitamento. Ou seja, preferimos evitar determinada pessoa ou situação, em que sabemos que nos vai ser solicitada algum tipo de participação que não queremos, para evitar ter de dizer que não e, eventualmente, ir contra o que seriam as expectativas do outro. Mas tudo isto se passa dentro de nós e cria conflitos internos.

Estes comportamentos de evitamento também impedem a nossa aprendizagem. Dizer “não” é um processo que vai acontecendo ao longo do nosso desenvolvimento e à medida que que vamos experimentando situações agradáveis e desagradáveis.

Quanto melhor nos relacionamos connosco próprios (quanto mais respeitamos as nossas necessidades), melhor nos relacionamos com os outros. Estabelecer uma relação com outro não significa anulação da nossa individualidade mas sim, adaptação, diálogo e respeito pelas vontades de cada um. Por isso, quando afirmamos a nossa vontade e colocamos limites, dizendo “não”, estimulamos que os outros nos respeitem mais uma vez que percebem o que estamos dispostos a permitir. Assim, somos capazes de influenciar a forma como os outros nos tratam.

Dizer “não” no momento certo, que será o momento em que é a resposta mais respeitadora das nossas necessidades, é possibilitar dizer “sim” a muitos outros momentos na relação connosco próprios e com os outros.

Maria Inês Galvão

Estagiária de Psicologia Clínica

artigo do parceiro:

Comentários