Antes de ir para os EUA esteve por dois anos na ilha do Sal, com a irmã. Apesar da resistência da mãe em a deixar partir, a viagem para os Estados Unidos viria a tornar-se inevitável.

Sempre ViVa foi encontrá-la na ilha Brava, por altura das festas do município, para onde veio implementar um novo projeto empresarial: a recuperação da Pousada Municipal e sua exploração.

Como se sentiu aquando da partida pela primeira vez para os EUA?

Eu era muito jovem mas sentia que aqui não tinha futuro e estava esperançosa que seria melhor nos Estados Unidos.

Fale-nos um pouco da sua integração neste país?

Foi difícil porque saímos de um ambiente tão pequeno e não vamos preparados para enfrentar um mundo tão grande como é os EUA. Mas sempre tive o apoio dos meus irmãos mais velhos que aí viviam. Cheguei e fui para a escola e quando terminei o liceu fui trabalhar. Depois, fiz também uma licenciatura em Viagens e Turismo. Costumo dizer que nos Estados Unidos temos só duas soluções: ou falhamos ou continuamos em frente. Tive que me adaptar.

E os laços com Cabo Verde, sempre os preservou?

Naquele tempo a comunicação não era tão fácil como é hoje, mas consegui manter sempre contactos com a minha mãe e meus familiares através de cartas. Sempre senti saudades do cheiro da minha mãe, da minha avó. A minha mãe acabou por ir viver nos EUA e um tempo depois a minha avó veio a falecer. Foi um trauma para mim. Era muito próxima da minha avó e nunca aceitei a morte dela. Assim acabei por me afastar de Cabo Verde e durante algum tempo recusei vir cá. Não sabia o que viria cá fazer. Levei 10 anos a preparar-me para vir a Cabo Verde.

O que a motivou, ao fim de 10 anos de “separação”, a regressar à terra?

Foi algo instantâneo que surgiu de um convite feito pelo meu marido, Andy de Andrade, também ele da Brava. Andy sempre esteve mais ligado à terra do que eu. Foi sempre muito orgulhoso da terra que tem e por isso manteve-se sempre ligado.

E agora, porque regressa com este empreendimento turístico que é a exploração da Pousada Municipal?

Esta ideia surgiu de uma necessidade, assim como nasceu a Fast Ferry. Brava não tem muitas infraestruturas hoteleiras e isso tornou-se um desafio para mim e para o Andy. Houve um concurso e entrámos na corrida. Se ganhássemos tudo bem, se não paciência. Ganhámos e estamos a complementar a exploração da Pousada com casas para turismo rural. Temos casas na Furna, Cova Rodela e temos planos para irmos para outros locais. Consideramos isto uma oportunidade de negócio mas também uma forma de ajudar a preservar a beleza das casas da Brava, porque esta ilha tem casas muito bonitas. Afligia-me vê-las a degradarem-se porque os donos que são emigrantes, não vivem cá. Também, criamos alguns postos de trabalho, o que é muito bom para os bravenses.

E como pensa fazer a promoção deste projecto?

Trabalhamos com a Cabo Vídeo que está integrado no Caboverdeonline, para atingir a comunidade emigrada nos Estados Unidos e os norte-americanos. Fazemos muita publicidade na televisão, na rádio, distribuímos muitos panfletos e com isto temos tido muita procura. Há muita gente interessada em colocar as suas casas no sistema. Temos também muitas pessoas do Fogo que nos procuram nesse sentido. O preço é acessível.

Pelo facto de ter estado muto tempo fechada, a Pousada estava muito degradada. Em quanto tempo conseguiu fazer a sua recuperação?

Recuperamo-la em menos de 3 meses. Recebemos a Pousada em Março e hoje, pelas festas do Município, estamos a inaugurá-la. Foi completamente remodelada, desde a canalização, parte elétrica, carpintaria, tudo.

Que apreciação faz do nosso turismo e de Cabo Verde no geral?

Penso que estamos no bom caminho, apesar de haver muito para aprendermos. Não podemos aceitar a mediocridade. Somos nós que temos que elevar a qualidade do serviço e se quisermos  atrair turistas estrangeiros, temos que mudar muitas coisas. Muitos reclamam da qualidade que recebem em Cabo Verde, a nível dos transportes e do serviço público. Às vezes até são coisas que se resolvem rapidamente.  Se for necessário gastar um dólar a mais para obtermos a satisfação do nosso cliente, temos que o fazer. Temos que elevar a qualidade dos serviços em Cabo Verde.

Como concilia a vida profissional com a vida familiar?

Tenho 4 filhos e aquando da sua criação, tive que parar de trabalhar para cuidar deles. Ser mãe foi sempre a minha prioridade. Não me arrependo em nada. Consegui fazer um bom acompanhamento dos meus filhos e todos eles concluíram estudos universitários. Às vezes penso que não fiz o suficiente para a minha pessoa mas dediquei-me muito a meus filhos. Se conseguirmos dar uma boa educação aos nossos filhos então estaremos a fazer bem a nossa parte.

Madalena de Andrade
créditos: Redacção Sempre Viva

Como introduziu Cabo Verde nos seus filhos?

Cabo Verde esteve sempre presente na vida dos meus filhos. Temos muita família cá e somos muito unidos, quer a do meu marido, quer a minha. A família é fundamental nas nossas vidas. Os meus filhos trazem Cabo Verde no coração e adoram Cabo Verde. Tenho os trazido sempre e feito de tudo para que tenham uma imagem positiva de Cabo Verde.

Que percepção faz da mulher cabo-verdiana na nossa sociedade?

Acho que devemos lutar um pouco mais para encontrarmos o nosso lugar. Tive muita sorte em ter encontrado um marido extraordinário que faz tudo pela sua família, mas muitas não têm. Penso que a mulher cabo-verdiana deve se capacitar cada vez mais e perseguir os seus sonhos, não importando a idade que tem. Temos que nos respeitar e criar bem os nossos filhos. Devemos viver cada dia intensamente. Aquilo que pudermos fazer pela nossa vida, façamo-lo hoje. Acredito no sonho. Se não temos sonhos, parámos de viver.

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