Artista plástica, Cay saiu da ilha de São Nicolau muito cedo e acabou por ir parar a Abu Dhabi. Encontramo-la numa das suas vindas a Cabo Verde, de férias para visitar a família, e contou-nos a sua experiência na diáspora.

Cay onde nasceste? Como foi a tua infância?

Nasci em Fajã, cresci no Tarrafal, em São Nicolau. Tive uma infância muito feliz rodeadobdos meus 6 irmãos. Sendo o número quatro, acho que fui uma privilegiada. Quando nasci, a minha irmã mais velha ficou muito contente por ter uma irmãzinha, pois dizia que agora tinha com quem brincar, pois antes de mim tinham sido dois rapazes.

O meu pai procurou embarcar numa altura, mas não conseguiu e continuou o seu trabalho de comerciante. Foi bom para nós os filhos pois pudemos, assim, aproveitar a sua presença, importante na nossa educação.

Quando emigraste e porquê?

Depois de terminar o Liceu, queria continuar os estudos, mas na época não pude obter uma bolsa, e como éramos muitos, o meu pai não podia enviar-me para os estudos no exterior e pagar todas as despesas. Tive a oportunidade de conhecer um casal italiano que quis levar-me para Itália come “fille au pair” (jovem menina solteira que viajava para um outro país para viver com uma família, cuidar das crianças e fazer algumas tarefas domésticas). Assim com 22 anos saí de Cabo Verde para aventurar-me por terra longe.

Em Itália estudei línguas e literaturas estrangeiras na universidade La Sapiência di Roma e em 1983 conheci aquele que viria a torna-se o meu marido, um engenheiro geólogo francês que trabalhava na companhia francesa de petróleo Total.

Em 89 casei-me e fui viver para França. Eu e o meu marido percorríamos muitos países por causa do trabalho dele, Venezuela, Angola, Dubai Canadá, entre outros, por um período de 3 – 4 anos cada.

Sabemos que agora vives em Abu Dhabi. Como é para uma cabo-verdiana de São Nicolau, viver num país árabe?

Como cabo-verdiana, integro-me facilmente, não fazendo diferença se o país é árabe ou não. Foi muito fácil adaptar-me.

No teu círculo de amizade em Abu Dhabi, convives com mulheres árabes? Como é essa relação?

Os estrangeiros dificilmente convivem com os “locais”. Apesar de ser a segunda vez que vivo aqui, tive muita pouca oportunidade de conviver com mulheres árabes.

Quais os cheiros, sons e cores de Cabo Verde que mais te fazem falta na emigração?

O cheiro da goiaba de Cabo Verde. Em cada país tropical onde vivi, comprava goiabas, mas o cheirinho e o gosto das frutas da nossa terra são únicos. Sinto falta do som dos nossos cavaquinhos e da cor “terra” que quase sempre aparece na minha arte.

Como foi que descobriste a tua veia artística?

Na nossa casa, à tarde bordava-se, desenhava-se, costurava-se (a minha mãe e a minha irmã eram grandes costureiras).

Depois surgiu a oportunidade de poder frequentar uma escola de pintura em Caracas, Venezuela.

A tua trajetória como artista?

Depois da escola em Venezuela, continuei os estudos em Dubai, onde fiz a minha primeira exposição. Continuei a expor em França, depois no Canadá. Neste momento, preparo duas exposições para Abu Dhabi e Dubai para o mês de Fevereiro e Março. O meu trabalho tem sido bem recebido até agora.

Quando é que Cabo Verde vai acolher uma exposição tua?

Espero que em breve. Talvez daqui a um ano ou dois.

A mulher e as artes plásticas em Cabo Verde. Tens acompanhado esta matéria?

Não tenho acompanhado e por isso não tenho muito conhecimento. De toda a maneira, temos poucas mulheres que se dedicam, infelizmente, às artes plásticas. Gostaria de conhecer artistas plásticas cabo-verdianas. A minha irmã Adelina começou bem. Espero que muitas outras seguirão.

Que conselhos deixas aqui para as mulheres cabo-verdianas?

Que cada uma siga o seu sonho, que sejam sempre combatentes, como sempre foram. A mulher cabo-verdiana é uma mulher forte…

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