Assunção Fernandes chegou a Portugal com o 9º ano de escolaridade, um filho pelas mãos e outro na barriga, para reencontrar o marido. Sua morada: Pedreira dos Húngaros, o maior bairro da lata de Lisboa dos anos 1990, tido como um antro de pobreza e miséria humana. Mas esta menina da Calabaceira (Praia) não se deixou vencer pela fatalidade, e, contra todas as expetativas, levou a sua equipa de andebol feminino, Assomada, às competições europeias.´

A sua história é parecida com a de José Mourinho, que foi treinador sem ter sido jogador, ou fez o percurso habitual: antes de ser treinadora foi atleta?

Fui praticante de andebol em Cabo Verde, no âmbito do desporto escolar, com 11/ 12 anos, na altura em que foi construído a escola de Ciclo Preparatório da Calabaceira, onde morava com a minha família. Até terminar o 9º ano dediquei-me sempre ao andebol. De outra forma não seria possível, porque os meus pais quase não me deixavam sair de casa.

Ir para a escola era então para si um momento de alegria e liberdade?

Sem dúvida. Gostava imenso de praticar andebol, futebol e atletismo também, talvez inspirada pelo meu irmão, Elias Fernandes.

Quando e como se deu a mudança para Portugal?

Aos 21 anos casei-me. Logo a seguir, o meu marido mudou-se para Portugal e mandou buscar a mim e ao nosso filho, ainda bebé.

Como viveu essa mudança?

Por um lado, foi relativamente fácil porque o meu marido já lá estava. Por outro, muito difícil. Chorava todos os dias com saudades da minha terra, da minha mãe. Felizmente, adaptei-me rapidamente, dei a volta por cima.

Em Portugal, já casada e mãe, conseguiu retomar a sua carreira de atleta de andebol?

Não, mas tornei-me treinadora da equipa de andebol que implementei no bairro da Pedreira dos Húngaros, formada apenas por filhas de emigrantes caboverdianos, ao mesmo tempo que fazia formações através da Federação Portuguesa da modalidade.

As meninas que convidou para fazer parte da sua equipa já jogavam andebol?

Não, nem tinha noção do que era o andebol. A única ocupação que tinham na altura era a escola e a catequese. Chamou a minha atenção haver no bairro tantas crianças na rua, sem fazer nada. Lembrei-me que, afinal, sabia jogar andebol e decidi ajudar, criando uma equipa. Não tínhamos campo, nem bolas, nada! Só aquelas meninas de 10/11 anos. Perguntei-lhe se gostariam de aprender andebol e, passados cinco minutos, já tinha 25 meninas ao pé de mim, prontinhas para ajudar-me a arrancar com o projeto.

Se não tinham nem campo, nem bolas, como conseguiam treinar?

Fui à Câmara Municipal de Oeiras procurar apoios e, então, fui informada de que iam iniciar naquele ano um programa de andebol feminino para crianças e que devia expor a minha ideia, através de uma carta. Uma semana depois recebemos um convite para participar em um encontro de andebol a nível nacional, que iria acontecer um mês depois.

Aceitou o convite?

Só tinhas as minhas meninas-atletas, mas aceitei. Por que não experimentar? Treinamos em um campo de futebol de terra batida, improvisamos bolas … Um mês depois lá estávamos nós em Paço d´Arcos. É um marco na nossa história, nunca o esqueceremos. Foi muito difícil convencer os pais a deixá-las dormir fora de casa. Igualmente marcante foi o golo solitário que marcaram nos três dias do torneio, no último jogo. É claro que ficamos em último lugar, mas elas saíram de lá felizes, com a bancada toda a aplaudi-las, o que as fez esquecer os momentos difíceis do torneio. Elas eram diferentes a vários níveis e, por causa disso, também excluídas. Eram excluídas por causa do bairro em que viviam, da cor da pele, das condições socioeconómicas! Ir ao torneio e marcar um golo foi, por isso, uma vitória.

Mas, mais tarde, começaram a conquistar muitas vitórias.

A primeira vitória foi a da tolerância, que conseguimos promover através da nossa equipa. Porque, estar dentro ou fora do campo e ouvir comentários discriminatórios, e vê-las a chorar … [lágrimas caem dos olhos de Assunção Fernandes e interrompem a sua resposta]. É a primeira vez que me emociono ao falar disso. Estranho!!

 Fique à vontade …

Não costumo chorar! Dêem-me licença! [sai e depois de alguns minutos regressa]. Desculpem-me. Podemos continuar.

Dizia que as suas atletas sofreram muita discriminação, dentro e fora de campo…

Sim, foi algo que conseguiram ultrapassar lenta e serenamente e com muito trabalho de desenvolvimento pessoal. O andebol contribuiu muito para serem o que são hoje, dizem-me elas.

O que é feito dessas meninas que formaram uma das melhores equipas de andebol de Portugal a certa altura?

Em 2014, no final do meu mestrado em Serviço Social, precisava de um tema para trabalhar a minha dissertação. Decidi então mostrar, passados 25 anos, como o andebol contribuiu para o desenvolvimento pessoal, social, profissional e familiar dessas meninas. As entrevistas, num total de 22, são extremamente ricas, vale a pena divulgá-las. A maioria concluiu o 12º ano e/ou fez um curso profissional, outras têm curso superior. Mais, são líderes a Associação Assomada: treinadoras, membros dos órgãos sociais, presidente. Algumas têm filhos que são atletas federados, sendo três muito bons jogadores na escolinha de futebol do Benfica, e com perspetivas de futuro.

O desporto é muitas vezes veículo de integração. O andebol provocou o mesmo efeito na vida das suas atletas?

Sim. Integração significa que quem vem de outro país, outra cultura tem que se adaptar a uma nova realidade sociocultural e territorial. Na Pedreira dos Húngaros não havia isso, pois era um lugar de segregação. Tivemos que encontrar formas de nos incluirmos, de fazermos parte, de sermos contabilizados, de termos vez e voz. Através do andebol conseguiram isso, transportando todas as competências adquiridas no desporto para o seu crescimento.

Assunção Fernandes
créditos: Adalberto Cardoso/Revista Sempre Viva

Triunfou no desporto e, por isso, é respeitada tanto pela comunidade cabo-verdiana como pelos portugueses, o que a maioria não consegue. Que sentimento isto lhe provoca?

Cheguei a Portugal com uma criança na mão, de 11 meses de idade, nos finais da década de 1980, grávida de uma segunda (depois veio nascer a terceira). Tinha apenas o 9º ano de escolaridade. A maioria das mulheres cabo-verdianas eram empregadas domésticas ou vendedeiras de peixe. Eu queria mais do que isso. E, assim, fui mãe e, mais tarde, pai e mãe, dona de casa, treinadora e dirigente desportivo, estudante! Fiz formações de andebol (nível 1, 2, 3), tirei a carta de condução! Não me lembro de ter parado!  Tenho sempre objetivos, não faço nada por acaso, porque não tenho tempo. Assim, fiz o secundário e, passados três anos, iniciei a licenciatura em Serviço Social na Universidade Católica de Lisboa.

E avançou para o mestrado?

Sim! Uma semana depois de concluir a licenciatura já dizia que não chegava, mas também estava consciente de que seria difícil, pois teria de gastar mais dinheiro. Felizmente, consegui uma bolsa de estudo internacional, através da Soroptimist Organization, que me permitiu pagar as propinas e concluir o mestrado em tempo real.

Como os seus filhos veem esta sua mamã dinâmica e non stop?

Eles sabem que se eu disser uma coisa eu cumpro, já nem estranham, confiam que consigo, nem se atrevem a duvidar, pois sabem que faço.

Como sustentam financeiramente a equipa?

Graças à Câmara Municipal de Oeiras, que desde o início acreditou e continua a apostar no nosso projeto. Continuamos a ter aquele pequeno subsídio, mas é isso que sustenta a equipa de Assomada, não temos nenhuma outra fonte de rendimento.

De onde surgiu esse nome “Assomada”? É uma homenagem à cidade cabo-verdiana?

Sim, é. A Associação Cultural e Desportiva da Pedreira dos Húngaros terminou com a extinção do bairro, em 1999/2000. Fomos à procura de uma associação que pudesse acolher a nossa equipa e fomos aceites pela Associação de Solidariedade Assomada, que funcionava no bairro vizinho de Alto de Santa Catarina, que era habitada sobretudo por naturais da cidade de Assomada, em Cabo Verde.

Como avalia a situação das mulheres cabo-verdianas em Portugal?

Há as mulheres que já nasceram em Portugal e há as mulheres emigrantes, mais velhas, o que pede duas análises diferentes. Do meu ponto de vista, tanto umas como outras poderiam estar melhor. A geração mais antiga não estudou mais do aquilo que já tinha quando chegou a Portugal, ou seja, a maioria não passou da quarta classe, outras nem sequer sabem ler ou escrever. A segunda geração poderia estar melhor, pois, pelos anos que já estamos em Portugal, deveria haver mais evolução e mais aposta na educação.

Assunção Fernandes
créditos: Adalberto Cardoso/Revista Sempre Viva

Não será devido a um certo conformismo, que as leva a aceitar a ideia de que se as mães são empregadas domésticas/peixeiras, elas também iam ser?

Sim, há esse conformismo. Faltou entretanto um trabalho de integração e de inclusão. E faltou a base cultural e educativa. Quem não encontrou isso em casa dos pais agora está a fazer isso em adulto, como é o caso de ex-atletas da Assomada. Muitas já têm formação superior. Se calhar, chegaram à conclusão de que, se não estudarem, vão ficar a vida toda a esfregar o chão como as mães ou avós. Espero que a terceira geração mude esta mentalidade, para que tenhamos mais quadros superiores na comunidade cabo-verdiana.

Que mensagem deixa às suas ex-atletas?

A equipa de Assomada foi criada por mim e pelas meninas-atletas que contribuíram imenso. Digo sempre que foi um projeto co construído, não fiz nada sozinha. Eu tive a ideia, mas elas deram a mão para que isso fosse possível. Fui presidente da Associação Assomada, cargo que acumulava com a função de treinadora, mas não fiz nada sozinha, tive sempre a ajuda de muita gente. Consegui fazer o meu mestrado graças à ajuda de muita gente. Não podemos esquecer nunca à custa de quem e do quê alcançamos sucesso.

A maioria das cabo-verdianas em Portugal, ou em outro país de emigração, não fizeram o mesmo percurso de sucesso que o seu. A elas e às cabo-verdianas em geral, que palavras de estímulo quer deixar?

Se nós não lutarmos por aquilo que queremos, não vai acontecer. É preciso ter vontade e uma motivação intrínseca. Isso é fundamental, é meio caminho andado para a nossa realização. Além disso, tem que querer sair da sua zona de conforto e ir mais além, enfim, arriscar..

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