Paulo Jorge Felipe Sousa, mais conhecido como Tutu Sousa, nasceu há 43 anos na cidade de Mindelo mas foi na capital, cidade da Praia, que descobriu a sua vocação para a arte. Recorda que começou a se interessar pelas artes ainda em criança e aos 18 anos começou a sua carreira artística. Longe estava de imaginar que um dia seria escolhido como ‘Homem do Ano’ com um projeto artístico.

Tutu Sousa é um artista autodidático. “Desde criança que estou ligado a desenhos, caricaturas, (…). Com 17 anos comecei a fazer o meu próprio estúdio de arte num país em que não tinha galerias de arte e nem grandes referências a nível de escola. Como sempre fui curioso, na tentativa de copiar obras de artistas plásticos como Kiki Lima, Pedro Gregório e de Luís de Melo, comecei a criar os meus próprios trabalhos”, lembra o artista formado em Design Gráfico.

A música é a sua fonte de inspiração. “A minha família tem uma veia artística. Descobri um laço familiar com a artista Maria Alice e com a família Lobo. Isso explica porque que a música sempre foi a minha fonte de inspiração. Eu, provavelmente, poderia ser um músico, mas o meu interesse foi mais direcionado para as artes plásticas”, salienta.

Rua d’Arte, uma galeria a céu aberto

Criado em outubro de 2016, no Bairro Terra Branca, pelo artista, a Rua d’ Arte é hoje uma rua pedonal com fachadas coloridas que tem chamado a atenção de visitantes que passam para tirar fotografias. Desde o início deste projeto, a Rua d’Arte já serviu de cenário para videoclipes e programas televisivos, bem como para eventos culturais.

Segundo o mentor do projeto, inicialmente, a ideia era apenas fazer uma pintura decorativa na fachada da sua residência, mas depois resolveu alargar o projeto. Para assinalar os 25 anos de carreira, Tutu Sousa convidou vários colegas para fazer uma pintura no interior da sua residência e a partir daí surgiu a ideia de criar a Rua d’Arte.

“Numa conversa com a minha esposa, decidimos, em vez de pintar o interior da nossa casa, pintar as fachadas da nossa rua, visto que teria mais impacto. Cada artista pintou uma fachada de uma residência e assim começou o projeto Rua d’Arte”. Afirma que hoje a Rua d’ Arte é uma galeria a céu aberto e passou a ser mais valorizada.

Segundo Tutu Sousa, cerca de 43 artistas plásticos de diferentes gerações, entre os quais o guineense Sidney Sequeira, Helder Cardoso, Nela Barbosa, Leontina Ribeiro, Tchalé Figueira e Kiki Lima, deram o seu contributo na idealização do projeto. Mas enaltece que a união dos moradores da rua foi fundamental para a concretização da Rua d’ Arte. “Sempre comemoramos datas importantes como 5 de julho, Natal, etc”.

Tutu Sousa tem igualmente uma galeria de arte na Rua d’Arte e revelou ao SAPO que todos os artistas que forem expor os seus trabalhos na galeria têm o compromisso de deixar um mural no Bairro de Terra Branca.

“Acredito que daqui a alguns anos vamos ter um bairro de arte e não só uma rua. Sempre disse que, um dia, tinha que colorir o meu país e deixa-lo mais bonito. E hoje, pouco a pouco, estou a conseguir”

Ultimamente, outros artistas plásticos cabo-verdianos têm-se rendido à arte urbana, um projeto que foi iniciado por Tutu Sousa no seu bairro. Questionado sobre como se sente ao ver o seu projeto a ser replicado por outros artistas, Tutu Sousa diz que sente feliz, uma vez que o seu trabalho está a ser valorizado.

“Mostra que fiz um trabalho que valeu a pena. Houve um dia em que uma pessoa disse-me que outros artistas estavam a copiar a minha ideia, mas eu não considero cópia e, sim, uma continuidade de um projeto. Acho que sozinho não consigo pintar Cabo Verde, mas se juntarmos as mãos vamos conseguir” diz com orgulho.

Artes plásticas mais valorizadas

Questionado sobre como vê as artes plásticas no país, Tutu Sousa não hesita e diz que estão a ser mais valorizadas e têm ganho terreno ao nível nacional.

“Já houve um período em que as artes plásticas eram praticamente esquecidas. Sempre que falamos da arte ou da cultura de Cabo Verde a referência é a música. Sabemos que a música é a nossa maior riqueza, mas hoje vemos que as artes plásticas estão a ganhar força. Desde a realização do projeto “Talentos Escondidos”, têm estado a revelar-se vários artistas plásticos com qualidade”.

Afirma que nunca imaginou que através das artes plásticas podia ser eleito “Homem do Ano” na IV gala Somos Cabo Verde - Os Melhores do Ano, evento que aconteceu a 6 de julho na cidade da Praia.

Para o artista plástico, o galardão é um sinal do reconhecimento do trabalho que tem feito ao longo desses anos em prol de um Cabo Verde melhor. “É mais um desafio que aceitei com agrado e acredito que com este título vou conseguir chegar aos parceiros mais rápido. Daqui para frente, podem esperar surpresas agradáveis”, conclui.