A ideia de escrever um livro sobre a violência no namoro surgiu em finais de 2017 quando Miriam Medina, 40 anos, foi abordada por uma amiga de infância que estava a viver uma situação complicada no seu relacionamento e lhe pediu orientações.

A pessoa em causa sabia que Miriam Medina era socióloga de formação e que chegou a trabalhar com casos de violência no namoro no Brasil, país onde fez a sua formação.

“Quando cheguei a casa, pus-me a pensar que em Cabo Verde, falamos muito de Violência Baseada no Género (VBG), mas da violência no namoro, em específico, ainda não tinha ouvido falar (no país)”.

Começou a pesquisar sobre a violência no namoro e pediu dados ao INE, mas não havia. Surgia assim a ideia de fazer palestras nas escolas secundárias, já que tudo começa nessa fase da adolescência.

“Comecei as palestras aqui na Praia”, recorda. O interesse pelo tema foi crescendo até que foi convidada a dar palestras em escolas locais para mais tarde deslocar-se a outros concelhos e ilhas.

Um empurrão, o controle do telemóvel e do que elas vestiam, para elas era uma forma de preocupação e uma ‘prova de amor’ e não um abuso

A primeira palestra na capital era destinada só a meninas e a autora garante que das 30 jovens que assistiram à sua apresentação todas teriam vivenciado alguma experiência relacionada com a violência no namoro.

“Havia, por exemplo, meninas para as quais uma bofetada não era uma forma de violência. Um empurrão, o controle do telemóvel, o controlar do que elas vestiam, para elas era uma forma de preocupação e uma ‘prova de amor’ e não um abuso. Muitas sofrem de violência psicológica, que pode até ser pior, e só no fim das palestras é que chegavam à conclusão de que estavam em relações abusivas”.

Ao longo das suas palestras, a socióloga acabou por ter mais de três mil conversas com diferentes adolescentes.

“É um livro com um teor bastante forte”, diz Miriam Medina que resolveu publicar um livro com 10 testemunhos marcantes, contados na primeira pessoa, em que os nomes são fictícios e apenas um dos 10 testemunhos é de um rapaz, porque, explica, existe um estigma relacionado com os rapazes que sofrem violência por parte das namoradas.

Carência afetiva

Na sequência das suas apresentações, Miriam Medina, que recebeu em 2016 o prémio Mulher do Ano na gala Somos Cabo Verde, chama a atenção para a questão afetiva e deixa uma recomendação que coloca no livro: “Temos de olhar para as famílias”.

Enúmeros são os casos de jovens que confessaram que preferem estar em relações abusivas, por causa da atenção que recebem dos namorados e que não encontram no seio da família.

“Principalmente no Sal e na Boa Vista, há jovens que acabam por entrar na prostituição e na droga só para chamar a atenção dos pais, por exemplo”.

A autora defende que cabe à família ensinar o certo e o errado aos filhos, ensinar os limites, como deve ser um relacionamento saudável e o que é o amor-próprio.

A postura adotada por parte das meninas nem sempre reflecte o que se passa no interior. “Quem as vê, diz que são todas independentes e donas do seu nariz, mas não é assim”.

Crescem com o ciclo de violência dentro de casa e quando é reproduzido com elas, acabam por achar que é normal

Cita outro caso na Boa Vista em que uma jovem passou uma palestra a rir-se de algumas das situações expostas, algumas bastante dramáticas, por exemplo, de jovens que foram violadas com objetos pelos seus namorados. “No final, abordei-a e disse-lhe: “Tu estás a sofrer violência”. Ela desabou a chorar”.

A autora acredita que há  muitos jovens carentes,  com baixa-autoestima, desesperados para chamar a atenção dos pais e que sofrem na solidão porque não pedem ajuda a ninguém.

Outro aspeto levantado pela socióloga é o ciclo de violência que começa, por vezes, dentro de casa, que se vai perpetuando e que os jovens acabam por considerar como normal. “Crescem com o ciclo de violência dentro de casa e quando é reproduzido com elas, acabam por achar que é normal, que isso que é o modelo de uma relação”.

Violência nos rapazes é uma questão de saúde pública

Apesar de salientar de que há também violência de meninas para com os namorados, da sua experiência, os agressores na sua maioria são rapazes.

Mais à frente, a socióloga diz categoricamente: “A questão da violência nos rapazes é uma questão de saúde pública, porque não são apenas situações de violência física”.

Cita alguns exemplos de jovens que tiveram o cabelo rapado por parte de namorados, situações graves de violência psicológica, entre outras. “Estes namorados violentos fazem as meninas acreditar de que são os únicos capazes de as amar”.

Explica que a violência acaba por ser um processo cíclico: há um momento de violência, depois o pedido de desculpas e a fase de lua de mel, até que tudo acontece novamente.

A socióloga vai mais longe e diz que a violência no namoro acaba por assumir outros contornos quando envolve sexo.

Digo sempre: ‘Não sofram caladas

“Digo que é uma questão de saúde pública pelo requinte da crueldade da violência. Se os jovens estão com este pensamento agora, imagina quando amadurecerem?”

Confessa que os testemunhos que ouviu acabaram por a afectar enquanto mãe e mulher, mas sentiu-se mais confiante de que poderia ajudar perante a confiança que foi depositada nela pelas jovens.

Apesar de tentar orientar as meninas que a procuraram, Miriam Medina encaminha as mesmas para um psicólogo ou para uma pessoa em que confiem e aconselha a falar com a família, bem como a procurar entidades como o ICIEG que trabalha as questões de VBG. “Digo sempre: ‘Não sofram caladas’”.

Defende um trabalho em conjunto: da família e da escola com os professores. “Os professores têm um papel importante. Já fui professora e fazia questão de conhecer cada um dos meus alunos”. Se um aluno que era extrovertido, de repente fica introvertido, o professor tem de procurar saber porquê, argumenta.

Sempre questionava e até julgava como mulheres bem-sucedidas aguentavam este tipo de situações, mas aprendeu a não julgar e acabou por compreender que denunciar a violência nem sempre é fácil.

Existe, por exemplo, o medo de denunciar estas situações por causa do receio de represálias e da perseguição por parte do agressor e dos familiares, por exemplo.

“Espero ter dado um pontapé de saída para que todos em conjunto trabalhem esta questão ”.

Acredita que com tanta informação online os jovens podem ter acesso a muitos conteúdos interessantes e que podem ajuda-los a “ter um plano de vida”. “Peço-lhes para que pensem onde querem estar dentro de 10 anos”.

Acabar com a romantização da violência

A principal ideia do livro é dar às meninas ferramentas para ajudar a identificar uma relação abusiva e “acabar com a romantização da violência”, explica a autora e acrescenta ainda que outro propósito é chamar a atenção para a falta de afeto e de diálogo nas famílias.

Durante o mês de abril, vai estar em Cabo Verde e quer promover mais palestras sobre o tema.

As palestras sobre a violência no namoro levaram Miriam Medina ao Brasil e a Portugal e a autora diz que as situações são muito semelhantes a de Cabo Verde. “Tive a impressão de que estava a ouvir os mesmos testemunhos”.

O livro com a chancela da Livraria Pedro Cardoso deverá chegar a público antes de julho deste ano. Para além do formato físico, Miriam Medina gostaria de gravar um documentário com os 10 depoimentos do livro.