“Quando se fala de violência doméstica, por norma, centra-se apenas no papel das vítimas e dos agressores e esquece-se outro tipo de vítimas, tais como, as famílias dos envolvidos e principalmente os filhos, vítimas silenciadas, e de quem raramente se fala”, disse Nilson Mendes, para quem este “é um problema invisível”.

De acordo com este psicólogo, cada vítima de feminicídio deixa, em média, três órfãos, cuja maioria presenciou e sofreu violência juntamente com as mães. Isto, prossegue aquele psicólogo, pode trazer consequências de imediato e também tardios nas crianças.

“Ao contrário dos adultos, as crianças, de imediato, costumam manifestar o sofrimento por meio de comportamentos retrocedido, como ficar mais agressiva, medo, perda de apetite, não dormir, perder o controlo dos esfíncteres, pesadelos repetitivos, vergonha, quadros fóbico-ansiosos e depressivos agudos, isolamento social, queda no rendimento escolar sendo que muitas vezes são avaliados com o desinteresse e, ao fim ao cabo, não percebem que é sofrimento”, acrescentou.

Por outro lado, Nilson Mendes fala em danos tardios, que podem centrar-se na incidência de perturbações psiquiátricos, abuso de substância, comportamento antissocial, hostilidade, culpa, imagens distorcidas da sociedade, dificuldades de perceber a realidade, redução na compreensão de papéis complexos e dificuldade para resolver problemas interpessoais.

Para Nilson Mendes está-se perante um problema que passa de geração para geração.

“A forma como as pessoas se relacionam é aprendida. A criança que vê a agressão como parte do relacionamento dos pais e entende que é assim que as trocas afetivas acontecem e pode repetir o modelo quando viver um relacionamento”, diz.

“O menino entende que a violência é a forma de expressão das emoções e que o seu papel na relação deve ser dominação. A menina passa a ver a violência como uma das formas de amor e entende que o seu papel na relação é de submissão”, completa.

Para aquele psicólogo, é preciso mudar representações sociais desde tenra idade para que se possam transformar práticas e perceções pessoais. “Qualquer mudança social depende de mudanças pessoais, a relação dialética que se estabelece na formação do pensamento”, acrescentou.

Prosseguindo, Nilson Mendes diz que urge capacitar profissionais que se envolvam com o tema para uma melhor compreensão e o conhecimento da magnitude do problema.