Cabeleira farta, maquiagem forte que evidencia um rosto belo e exótico, vestido curto e colado ao corpo esbelto e cheio de curvas. Em cima de um salto agulha, ela dança, cheia de sensualidade num dos famosos pubs de Santa Maria. Melina (nome fictício) sabe que está a ser observada por um grupo de estrangeiros. É sexta-feira e, como é habitual, a noite promete muitos lucros. Aos 23 anos, a jovem natural de São Vicente, ganha a vida como “garota de programa”.

Assim como muitos outros jovens, Melina chegou no Sal logo depois de ter terminado o Liceu, com a ilusão de conseguir um excelente emprego e ter uma vida melhor. Afinal, Sal é uma ilha turística e tinha muito para lhe oferecer: além de conseguir trabalho nos hotéis e restaurantes seria mais fácil arranjar um namorado estrangeiro com quem poderia se casar e ir viver no exterior. Ou, quem sabe, montar um negócio próprio aqui mesmo em Cabo Verde. Sal seria também a sua oportunidade para ajudar a mãe desempregada e outros cinco irmãos menores.

“Terminei o liceu, a minha nota não dava para conseguir uma bolsa de estudo e não tinha condições financeiras para me inscrever numa universidade, nem mesmo em São Vicente. Por falta de emprego resolvi vir para o Sal. Morava com umas amigas e pouco tempo depois consegui um trabalho num bar, em Espargos. Quando abriu o hotel Dunas consegui um emprego lá, mas o salário mal dava para pagar as contas nesta ilha, onde tudo é caríssimo”, lembra Melina, cujo nome verdadeiro prefere manter no anonimato.

Foi então que Melina começou a ter contacto com a vida nocturna de Santa Maria: “eu saía à noite com as minhas amigas, mas poucas vezes íamos a Santa Maria. Quando comecei a trabalhar no hotel conheci umas meninas e resolvi mudar-me para Santa Maria porque ficava mais perto do trabalho. A partir daí, passei a sair quase todas as noites, sempre que estava de folga. Comecei a fazer outras amizades e cada vez mais conhecia novas pessoas, tanto nacionais como estrangeiros”.

Foi numa dessas noites que ela saiu com o primeiro “cliente”. Melina estava numa discoteca quando foi abordada por um irlandês. Ele queria sexo, e Melina amor. “Eu estava lá para me divertir, mas ele começou a falar comigo, a conversa foi desenrolando, pagou-me bebidas e começamos a nos beijar ali mesmo. Depois de algum tempo ele me propôs que saíssemos de lá e fossemos para um lugar mais reservado. Como ele não podia me levar para o hotel fomos para o meu apartamento”, conta.

Durante 10 dias, Melina e o irlandês encontravam-se todos os dias. Pareciam namorados. “Passávamos o dia na praia, almoçávamos e jantávamos juntos. Éramos um casal de namorados. Ele comprou coisas para mim, roupas e sapatos. Eram prendas, por isso aceitei”, recorda. Melina só aceitou dinheiro do irlandês, quando ele já estava de regresso ao seu país. Afinal, ele prometera-lhe manter contacto e voltar três meses depois. Melina acreditava que tinha arranjado um “namorod bronc”.

Sal, sol, sexo… e o sonho de uma vida de luxo
créditos: Vlad Delgado/ Revista Sempre Viva

Cerca de dois meses depois o irlandês informou-lhe que uns amigos seus vinham a Cabo Verde e que queriam conhecê-la. “Fiquei feliz porque ia conhecer os amigos dele. Mas no dia em que nos encontramos um deles convidou-me para fazer sexo com ele. Fiquei chocada. Quando contei ao meu ‘namorado’, ele respondeu que os meus serviços eram bons por isso tinha dito ao seu amigo que me procurasse. Foi então que entendi o que se estava a passar. Eu era para ele apenas uma “garota de programa”.

Quando desabafou com as amigas, elas disseram-lhe que “era normal”, que muitas garotas ficavam com turistas durante uma semana ou mais e que, em troca, tinham tudo do bom e do melhor.

Sal, sol, sexo… e o sonho de uma vida de luxo
créditos: Vlad Delgado/ Revista Sempre Viva

“Não era aquilo que queria para mim. Eu vim de São Vicente para trabalhar e talvez conseguir um marido bom, que pudesse me ajudar a ter uma vida melhor. Ficar com turistas por apenas alguns dias era para mim a mesma coisa que prostituir-me”.

E prostituição era uma palavra muito forte para Melina. Porém, pouco tempo depois Melina ficou desempregada e numa noite conheceu um turista francês com quem ficou por cerca de cinco dias. Na semana seguinte, ficou com outro turista inglês. E consciencializou-se que podia ganhar a vida dessa forma. “Se outras meninas faziam, porque não eu? Estava sem trabalho, não tinha nada a perder. São turistas estrangeiros e talvez nunca mais nos iríamos ver novamente.” Desde então, ganha vida como “dama de companhia” de turistas.

E a cada semana proporciona para si dias de “luxo” com almoços e jantares em restaurantes caros, roupas e sapatos novos, passeios turísticos, tardes na praia, noitadas nas discotecas e pubs com tudo pago. Tudo isto em troca de sexo, com turistas que vêm ao Sal não só por causa do sol, mar e da paisagem paradisíaca, mas também à procura de prazer, do exotismo, das crioulas. Algumas vezes, Melina também acompanha os “clientes” em viagens às outras ilhas e a alguns países africanos vizinhos.

Sal, sol, sexo… e o sonho de uma vida de luxo
créditos: Vlad Delgado/ Revista Sempre Viva

Assim como Melina, muitas outras raparigas, também se dedicam a este tipo de trabalho, como “acompanhantes” de turistas que vêm de toda a parte do mundo. São jovens de todas as ilhas de Cabo Verde, e até de outras nacionalidades. Umas, porque precisam desenrascar-se numa realidade, onde estudar ainda demanda muito dinheiro e o emprego é uma simples miragem para quem não tem curso superior. Outras fazem-no por puro prazer, pelo gozo de ter uma vida “mansa” e sem muitas complicações.

Perante tanta oferta e procura, cresce o turismo sexual numa ilha que tem muito para oferecer: paisagens exuberantes, sol, mar, música, desportos náuticos, gastronomia, artesanato. A cada semana que passa, o fenómeno torna-se cada vez mais comum: homens e mulheres, brancos europeus na sua maioria, desembarcam no Sal em busca de experiências sexuais com negros, mulatos… e até com brancos.

Cresce também a prostituição de rua, oferecida maioritariamente por mulheres imigrantes da Costa Africana, nigerianas sobretudo. Mulheres que vieram para Cabo Verde à procura de uma vida melhor, mas que descobriram na prostituição a melhor forma de ganhar dinheiro para viver e ajudar a família que deixaram para trás. Oferecem sexo aos turistas, e não só, ao preço de até cinco mil escudos por hora.

Há também relatos de que o turismo sexual chegou à pacata aldeia piscatória de Palmeira. No porto, iates de luxo atracam exclusivamente para “recrutar” meninas dispostas a vender o corpo por notas de euro, em alto mar e com estrangeiros de várias partes do mundo. O assunto é praticamente um tabu, e poucos se atrevem sequer a pronunciar o nome “prostituição”.

Crianças e adolescentes em risco

A maioria das meninas que se aventuram em alto mar com turistas são menores de idade, apurou a nossa reportagem. São meninas que, desde a infância assistiram à vida dura dos pias, de ida e regresso do mar. Mas a maior preocupação recai sobre os menores de Santa Maria, onde frequentemente se vê crianças e adolescentes na companhia de homens e mulheres estrangeiros. A inquietação aumenta ainda mais quando se trata de crianças de e na rua, meninas e meninos sem qualquer tipo de protecção.

De acordo com um agente turístico, a vulnerabilidade e a falta de fiscalização põem em risco ainda mais os menores: “neste cenário de sol e mar cruzam-se dois personagens, numa relação desigual entre quem tem poder económico e quem busca a sobrevivência. De um lado, o turista à procura de aventuras eróticas e, do outro, crianças e adolescentes saídos de um cenário social caótico”.

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