Tem 48 anos e é natural da ilha do Maio. Mas, aos quatro anos de idade, quis o destino que o avô desta hoje “Mulher do pão com doce”, como é conhecida por alunos de diferentes gerações do LDR, a trouxesse para a capital para viver com ele.

Este avô que a trouxe da ilha do Porto Inglês, informa, era padeiro. Então, com 12 anos, começou a ajudá-lo vendendo pães nas redondezas da sua casa no bairro de Achadinha.

Falando à Inforpress, conta que quando atingiu a maioridade decidiu criar o seu próprio negócio, colocando em prática o que aprendeu com o avô. E foi, a partir desse momento que começou a fazer pão com doces e a vender a porta do Liceu Domingos Ramos.

“A primeira vez que vim vender aqui no Liceu Domingos Ramos foi em 1993. Depois, em 1999, me mudei para o Liceu de Regina Silva, em Achadinha, deixando a banca com o meu antigo companheiro.

Depois de alguns anos regressei”, lembra Celeste, referindo que durante muitos anos, de segunda a sexta-feira, acordava as quatro da manhã para preparar tudo de forma que às 08:00 estivesse na porta do liceu para mais um dia de trabalho e também de muita alegria num ambiente de amizade com os alunos, professores, funcionários do liceu e as colegas que vendem ao lado.

Conta Maria Celeste que em 93, um pão com doce custava cinco escudos. Com o tempo, prossegue, passou para 10 escudos e agora custa 15. A entrevistada dá ainda conta que faz doces de diferentes sabores, nomeadamente de leite, goiaba e chocolate, entre outros.

Com sorriso nos lábios, Maria Celeste que é mãe solteira de três filhos, residente no bairro de Achada Grande Trás afirma, que graças a essa profissão conseguiu proporcionar uma melhor educação aos seus filhos e garantir um sustento a sua família.

“Me sinto satisfeita com o meu trabalho, cada dia é diferente nunca os dias de venda são iguais foi isso que encontrei em casa, foi isso que aprendi a fazer e é com isso que quero reformar-me”, declarou, ressalvando que assim que chegar o momento irá deixar de ser vendedeira de pão com doces e aproveitar a vida e os anos que lhe restam.

Hoje, com uma rotina diferente e a possibilidade de comprar pães já feitos numa prestigiada padaria da cidade da Praia, realça que só tem que se preocupar em fazer os doces que, com os quais, ao longo dos anos tem conquistado corações de centenas de alunos das duas últimas gerações.

Os anos se passaram e, de vez enquanto, segundo esta vendedeira, recebe ainda visitas de antigos alunos da década de 90, por exemplo, que vão comprar pão com doces para matar a saudade. O momento, conforme afirma, sempre serve para recordar nostalgicamente os tempos em que estes (os antigos estudantes) frequentaram o LDR.

São essa e outras coisas, declarou, que a fazem sentir que no largo da praça do LDR não é uma simples vendedeira. Pois, diz, nesses 27 anos fez amigos que estão sempre querendo saber de si e que oferecem sempre um ombro amigo quando sentem que ela está triste e desanimada por algum motivo pessoal.

“Os meus fregueses são meus amigos, muitos, que já não são estudantes e que agora estão a trabalhar. Me oferecem presentes. Há quem que me havia dito que quando sair do liceu e começar a trabalhar me iria trazer um saco de farinha. Num belo dia parou aqui um carro me trazendo um saco de farinha”, conta animadamente.

Questionada qual a percepção que tem da forma como os alunos estão a comportarem-se, isto comparado aos anos 90 quando começou a vender pão com doces, observa que os tempos mudaram, sustentando que com essa nova geração “as coisas estão mais difíceis”, já que “há menos respeito para os mais velhos”.

Maria Celeste apela, neste sentido, aos pais e encarregados de educação a não mudarem a forma de educar seus filhos, defendendo que, apesar de os tempos terem mudado, a educação deve permanecer a mesma.

No mês que se celebra o Dia Internacional da Mulher e Dia da Mulher Cabo-verdiana, Celeste pede ainda a todas as mulheres cabo-verdianas que tenham cada vez mais garra, determinação, fé e que continuem a lutar pelos seus sonhos para conseguir ultrapassar todos os obstáculos.

“Não considero que as mulheres cabo-verdianas são mulheres sofridas. Para mim somos guerreiras. Penso que quem não luta não sofre e vejo isso em mim, que, apesar dos problemas, da vida, nunca desisti, sempre fui atrás, portanto, não tenho nada a reclamar”.

“Me sinto realizada. Só o facto de ter a oportunidade de acordar todas as manhãs e ir à luta já é uma vitória para mim. Gosto do meu trabalho”, concluiu.

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