D. Lilica, é de uma família numerosa?

Sou filha única, mas a minha mãe é a última filha de um casal que teve 16 filhos.

Fale-nos um pouco do seu tempo de estudante.

Fiz a escola primária no Tarrafal de Santiago. Na altura não havia liceu em Santiago e fui das poucas alunas que foram para o Liceu Gil Eanes em São Vicente onde estive seis anos – do exame de admissão ao 5º ano. Depois do 5º ano fui para Portugal continuar os estudos. Fiz o 6º e o 7º ano em Braga, por preferência dos meus pais, num lar de irmãs católicas. Depois fui para Coimbra onde me inscrevi na Faculdade de Letras Histórico-Filosóficas e foi aqui que conheci o meu marido, angolano, estudante de medicina. Dois anos depois fui para a Faculdade de Letras em Lisboa continuar  os estudos. Já no final do meu curso, frequentávamos a Casa dos Estudantes do Império (CEI). Convivia com outros estudantes das ex-colónias, discutindo a situação política que se vivia na altura e reflectindo também sobre a minha infância no Tarrafal, com a instalação da Colónia Penal em Chão Bom. Começam a aparecer novas ideias, novos projectos num ambiente de informação e formação. Foi um momento realmente rico de aprendizagem sobre a realidade do continente africano. A minha relação em Portugal com os familiares dos presos políticos na Colónia Penal do Tarrafal, pesou muito na grande decisão de integrar o grupo dos estudantes das ex-colónias na fuga rumo à luta para a libertação dos respectivos países.

Que idade tinha quando decidiu integrar o movimento da luta de libertação e porquê tomou essa decisão?

Tinha 27 anos e uma filha de 17 meses, que eu deixei aos cuidados da minha mãe. Desenvolvi uma sensibilidade especial por aquilo que eu considerava uma grande injustiça em relação aos jovens. Depois, em Portugal, comecei a frequentar a Casa dos Estudantes do Império. Não tinha nenhuma função de responsabilidade e nem participava nas reuniões, mas o convívio com os outros camaradas acabou por trazer conversas, discussões e reflexões. Em 1961 organizou-se uma fuga para a luta. Eu e o meu marido (Manuel Boal) fomos contactados e decidimos integrar o grupo.Fizemos Lisboa – Porto – Espanha, onde fomos detidos. Depois de várias intervenções a nível internacional, o grupo foi solto.

Partimos para França de onde tivemos que sair outra vez clandestinamente para a Alemanha. Kuame N’Krumah, presidente do Gana tinha enviado um avião para ir buscar o grupo de estudantes na Alemanha e daqui seguimos para Gana. Neste país, fomos contactados por dirigentes do PAIGC e do MPLA, tais como Amílcar Cabral, Mário de Andrade, Lúcio Lara, Viriato da Cruz, que estavam interessados em ter os jovens estudantes do seu lado.

Não sentiu medo quando tomou a decisão de ir para um lugar desconhecido e enfrentar uma luta?

Medo não mas uma grande preocupação que era menor do que a preocupação decorrente da situação política em que vivíamos na altura.

Quantas mulheres eram na altura?

Na altura havia as cabo-verdianas Amélia Araújo, Elisa Andrade, Virgínia Carvalho, esta já falecida, que se casou com um angolano e foi para Angola. Havia também mulheres de outros países como Angola e São Tomé.

Sendo mulher, como foi viver num grupo em fuga?

É extraordinário e é uma questão que sempre me colocam, mas eu sempre me senti bem pois era um ambiente de respeito mútuo que acabou por criar uma amizade sólida e realmente muito especial com os camaradas, com quem nunca tive problemas.

Como foi viver na adolescência e juventude com o peso de ter um Campo de Concentração perto? O que é que faziam?

O Campo situava-se a dois quilómetros da Vila e havia um silêncio total sobre o mesmo, ninguém via os presos, não se sabia o que eles passavam lá, eram quase que ignorados, e havia um guarda que assegurava o abastecimento, imagino eu. Naturalmente que não havia contacto directo com os presos no Tarrafal. Esse contacto era feito somente através dos pais e dos familiares que viviam em Portugal. Fazíamos a nossa vida normalmente como se não existisse o Campo de Concentração.

Como é que era a relação com a sua mãe? Chegou a dizer-lhe que ia fugir?

Havia um sigilo total sobre a fuga. Não podíamos dizer a ninguém. Após o nascimento da minha filha, a minha mãe quis ir conhecer a neta. Naturalmente que ficou encantada e fez questão que deixássemos a neta vir com ela. Tive que aceitar. Não foi fácil e para mim foi o momento mais difícil desta caminhada.

Como reagiu a sua mãe à sua ingressão nas fileiras da luta?

Foi um sofrimento para ela. Tive que partir sem dizer nada pois tínhamos receio que a polícia portuguesa -“PIDE” tentasse utilizar a nossa filha para saber do nosso paradeiro.

Que leitura faz do papel da mulher cabo-verdiana nessa altura e agora?

Eu penso que o que se vê hoje em Cabo Verde é a continuação do que se fez na luta. O programa maior do PAIGC era a conquista da independência, o desenvolvimento, a igualdade de direitos entre o homem e a mulher. Acreditava-se que essa era a única via e foi isso que nos orientou. O PAIGC sempre teve a preocupação de defender que a mulher e o homem tinham os mesmos direitos e as mesmas oportunidades de participar. Em todas as frentes de luta encontrávamos a mulher a fazer o que sabia: na saúde, na educação, na informação, nas relações internacionais, em todas as frentes. Aliás Amílcar Cabral dizia sempre “não sou eu que vou lutar por vocês, cada uma luta por si”. Era a luta da mulher para conquistar o seu lugar, o seu espaço e os seus direitos e esta foi a nossa linha de orientação.

Lilica Boal
Da esquerda para a direita - Lilica Boal - O filho aos 10 anos de idade - A mãe Dona Beba créditos: Revista Sempre Viva

Apesar de se estar na luta, existem as tarefas habituais que não podem ser deixadas para trás: mãe, dona de casa, esposa, mulher. Como conseguiu conciliar tudo isso?

Naquele contexto este problema não se punha, porque nós estávamos enquadradas e totalmente engajadas a 100%. Eu trabalhei na área da educação no internato que foi criado para apoiar os filhos dos combatentes e os órfãos de guerra, e éramos todos internos: professores e alunos. Portanto, não havia a preocupação de dizer que se tinha de ir para a casa para tratar dos filhos porque eles estavam lá connosco.

Quanto tempo esteve na luta na Guiné – Bissau?

Fui em 1961 quando abandonámos Portugal. Durante 6 anos estive no Senegal no “Bureau” do PAIGC, e em 1969 – 1970 já trabalhava na educação. No período de férias eu ia para a Conacri onde trabalhávamos com os professores na formação, reciclagem, elaboração de Manuais Escolares. Entre 1969 – 1970 assumi a Direção da Escola Piloto do PAIGC em Conacri.

Quantos alunos tinha a escola?

A escola tinha por volta de 110 alunos.

Como eram as condições de ensino naquela altura?

Nós é que tínhamos de criar as condições. Não éramos pedagogos, mas fomos obrigados a elaborar manuais escolares, consultando manuais de outros países e tentando adaptá-los à nossa realidade. Nas férias os estudantes da Guiné e de Cabo Verde que estavam na Europa, vinham passar as férias connosco em Conacri, e aí todos debruçávamos sobre a elaboração dos manuais escolares, livros de leitura. Insistíamos, sobretudo, na questão da geografia e história, pois era grave estar a estudar pelos livros de história e geografia de Portugal. Foi nessa base que um grupo de professores se dedicou a esse trabalho, apesar de não ter uma formação nessa área.
Onde estava quando soube da morte do Amílcar Cabral? Como se sentiu?

Estava na Escola Piloto e foi marcante, porque precisamente nesse dia tínhamos a visita de uma delegação de Moçambique dirigida por Joaquim Chissano. Era muita a preocupação da escola em organizar os miúdos para essa recepção. Amílcar Cabral não pôde estar presente na visita porque iria para uma outra recepção. Quando a delegação regressou ao hotel, fomos todos dormir. Mal me meti na cama, o condutor veio à porta e disse-me: “Lilica, tiro na Minier. Eu exclamei “Tiro na Minier!” e ele confirmou. Levantei-me e chamei os professores para se armarem. Cada um pegou na sua arma, pouco tempo depois parou um camião em frente à escola com homens armados.

Mandaram-nos desarmar os professores. Não sabíamos o que tinha acontecido e não tínhamos nenhuma informação. Tudo estava calmo em Conacri. Por volta das 07:00 da manhã foram-nos buscar. Tínhamos um sino no quintal que costumávamos tocar para chamar os alunos. Levaram-nos todos para um camião e eu disse comigo mesma “agora vão nos fuzilar em frente os alunos e eles vão ficar traumatizados para toda a vida”. Lá fomos sem saber para onde. Os alunos estavam intrigados. Passámos por “Minier” e tudo tranquilo. Levaram-nos para um sítio onde estavam os outros camaradas, não nos informando de nada. Quando chego, vejo a Carlina Pereira e perguntei-lhe o que aconteceu. Ela respondeu que tinham morto Cabral. Não acreditei. Perguntei pelo Aristides e ela disse-me que o tinham levado amarrado. Estávamos todos assustados e sem saber o que seria de nós.

Lilica Boal
Estudantes em Lisboa - Lilica (a primeira da esqueda para a direita) créditos: Revista Sempre Viva

E onde se encontrava no dia 5 de Julho 1975?

Lilica Boal
créditos: Revista Sempre Viva

Encontrava-me na Guiné-Bissau, porque entretanto a independência da Guiné foi um ano antes, em 1974. Com o assassinato do Amílcar Cabral e com a independência da Guiné ficámos na Guiné. Integrei o primeiro grupo de quadros que foi discutir com o governo colonial que estava na Guiné. O professor Domingos Brito e eu pelo departamento da educação, outros camaradas pela saúde, segurança, informação, etc.

No pensamento de Amílcar Cabral a educação é um factor muito forte e ele apostou seriamente nisso, sendo a Escola Piloto um exemplo dessa aposta.Os ganhos que Cabo Verde teve a nível da educação são hoje visíveis: temos uma população altamente escolarizada, temos liceus em todas as ilhas e cinco universidades. Considera que esses ganhos levaram a um povo mais interventivo, mais aberto ou não?

Claro que sim. Este Cabo Verde não tem nada a ver com aquilo que encontrámos e o factor educação é a base de tudo. Amílcar Cabral dizia “todo o mundo tem de aprender, temos de aprender sempre, nos livros, com a experiência dos outros, com os nossos erros e todo aquele que sabe deve ensinar aquele que não sabe, porque o mais ignorante é aquele que pensa que sabe sem nunca ter aprendido. Mais ele dizia “se eu pudesse, fazia uma luta só com livros e não com armas, porque o que é que interessa termos um país sem colonialistas, se não temos homens para construírem e desenvolverem este país?” A partir daqui vemos a importância que a educação tinha para o PAIGC. Logo após a independência, a taxa de analfabetismo em Cabo Verde era enorme, quase 90%, e o ensino tinha as suas limitações. Os nossos jovens não tinham o acesso à escola porque eram utilizadas para os trabalhos domésticos e era a própria situação económica que ditava isso. O número de escolas e professores era muito reduzido. Com a dinâmica e filosofia do PAIGC de que todos deveriam ir para a escola, houve a massificação e a democratização do ensino, criando-se escolas lá onde era possível e necessário. Na luta, tivemos escolas criadas debaixo de uma mangueira, sendo a carteira uma folha de “tarafa” ou qualquer coisa e essas escolas constituíam um alvo na guerra. O colonialista quando sabia onde o PAIGC tinha aberto uma escola é lá que ele ia atacar.

Lilica Boal
créditos: Revista Sempre Viva

Quando fala da massificação, da democratização da escola que, efectivamente foram ganhos alcançados, acha que acompanhamos com a qualidade?

Eu penso que realmente houve uma diminuição na qualidade do ensino isto por se ter priorizado a massificação, o direito que nós todos tínhamos de ir a escola. Penso que, pouco a pouco, estamos a melhorar, está-se a fazer um esforço para tal.

Como foi ser quadro da educação, logo após a independência?

Fui para a educação como inspetora-geral em 1981. Não foi fácil para mim, porque as condições eram muito difíceis. Visitar as escolas era uma tarefa difícil. Por exemplo, quando íamos visitar uma escola lá no interior de uma ilha, íamos numa carrinha de caixa aberta, levando garrafa de combustível em caminhos de difícil acesso, máquinas de projectar filmes, etc. etc.

O relacionamento professor / aluno é hoje melhor do que foi no passado?

Acho que o segredo está em se estar próximo dos alunos, habituar-se a ouvi-los, porque muitas vezes eles também têm problemas, e precisam de ser ouvidos. É preciso evitar-se a agressividade que se vê hoje no relacionamento professor aluno porque isso não leva a lado nenhum.

Uma das temáticas muito em voga nos dias de hoje é a homossexualidade. Há muitos movimentos pro- homossexuais e muitos países estão a consentir o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Que leitura faz da homossexualidade?

Isso é uma das tais coisas em que digo estar ultrapassada, não consigo entender. Já em 1980 participei numa reunião internacional de mulheres onde havia também um grupo de homossexuais, mas havia um certo sigilo à volta disso. Dizia-se que esse grupo estava reunido  numa determinada sala e íamos a essa sala e não víamos ninguém.
Sinceramente é um tema que eu não posso abordar. Não consigo entender e prefiro não falar sobre isso.

A senhora é católica ou professa uma outra religião?

Sim sou católica, mas não pratico muito. Fui criada pelos meus pais que são extremamente católicos.

Baptizou os seus filhos?

Sim, foram todos baptizados

Que mensagem quer deixar às mulheres cabo–verdiana?

Para continuar  com a mesma coragem, a mesma decisão, porque já ganharam e conquistaram muito. Com a independência, ela ficou mais informada, formada e consciente do seu valor e do lugar que tem nesta sociedade, portanto a luta continua e enquanto estivermos vivas temos de lutar para alcançar o objectivo inicial – o bemestar de todos..