Leila Gonçalves, uma jovem que descobriu a paixão na sapataria, afirma que quer ser uma mulher de “referência nacional” numa profissão desempenhada maioritariamente por homens e alargar futuramente o projeto “Sapataria Socorrinho” para outras ilhas de Cabo Verde.

As mulheres têm conquistado lugares de destaque em todo o mundo “de forma ampla e reconhecida”, seja na política, economia ou em áreas que antigamente eram dominadas pelos homens. O empreendedorismo feminino já dominou o seu espaço de independência e afirmação, e cada vez mais tem aumentado o número de mulheres independentes.

É assim que Leila Gonçalves, mais conhecida por Nila, que começou a dar os primeiros passos na sapataria do seu pai, se assume como “uma jovem empreendedora e independente”. Hoje, todos lhe chamam “Socorrinho”, nome do pai já falecido e da oficina conhecida por muitas pessoas na cidade da Praia.

Numa conversa com a Inforpress, conta que concluiu o 12º ano de escolaridade, tendo depois ingressado no curso de Direito que abandonou no 2° ano por falta de condições financeiras devido à morte do pai que era o sustento da família.

Socorrinho conta que viu na sapataria uma profissão que mudou a sua vida e um presente deixado pelo pai que, na sua opinião, deixou um legado com anos de serviço como sapateiro. Aliás, para ela, tudo o que faz hoje deve-o ao  pai, embora lamente não ter tido oportunidade de aprender mais com ele.

“Quando penso que poderia ter aproveitado o tempo quando o meu pai era vivo para dedicar-me a esta profissão, sinto uma grande mágoa, pois sei que perdi uma grande oportunidade. Porque, tirando o facto de ele ter sido meu pai, ele era tido como um dos melhores sapateiros da cidade da Praia”, enfatiza.

Com sorriso nos lábios, diz que há “males que vêm por bem” porque com o abandono escolar acabou por descobrir uma paixão na confeção de calçados. “O meu pai trabalhou a vida inteira como sapateiro, mas nunca tive curiosidade para aprender com ele e nem ele deixava que frequentássemos a oficina, argumentando que tínhamos que estudar e ter uma profissão melhor que a dele”, contou.

Quem não conhece Socorrinho, a jovem que descobriu a paixão pelos sapatos, acredita, ao ver os seus trabalhos, que ela tem larga experiência no ramo, mas por incrível que pareça, só começou a confecionar e consertar calçados em finais de 2017. Conta que antes disso já frequentava a oficina que estava sob a gestão do primo, cabendo-lhe cuidar da parte financeira do negócio.

“Certo dia, o meu primo saiu da oficina e fiquei sozinha, e aconteceu que nessa altura tínhamos muitas encomendas que deviam ser entregues no prazo de uma semana. Então, um pouco aflita e com medo de perder os clientes e de não poder ajudar a minha família, enchi-me de coragem, sentei-me à mesa e comecei a fazer as sandálias”, diz, acrescentando que, devido à pouca prática, levou muito tempo a confecionar a sua primeira sandália, mas que depois de muitas tentativas e esforço conseguiu concluir o trabalho e entregar dentro de prazo.

Questionada como conseguiu confecionar as sandálias sem nem mesmo saber como é que a máquina funcionava, respondeu meio a brincar que foi obra do Espírito Santo.

“Acredito que foi uma mensagem divina que despertou o meu interesse em dar continuidade ao projeto do meu pai. Quando assumi os destinos da “Sapataria Socorrinho”, decidi que a oficina continuaria a refletir a forma de trabalhar do meu pai que passa pela qualidade, compromisso e respeito pelo prazo de entrega dos trabalhos aos clientes”, observa.

A quantidade de sapatos que confeciona depende das encomendas que são feitas, porque tem encomendas para clientes que vão revender, encomendas de pessoas que vivem no estrangeiro e afirma que o que ganha com o trabalho dá para sustentar a sua família.

“Estou a aprender sozinha, recriando, e acredito que o meu pai está sempre a inspirar-me”, realça a jovem, salientado que gostaria de futuramente confecionar sapatos adaptados às pessoas com deficiência física, assim como o seu pai fazia.

A oficina, situada atrás da Shell de Terra Branca, funciona de segunda a sábado, das 10:00 às 18:00 e tem sandálias para homens, mulheres e crianças. Para além da confeção de calçado, faz ainda conserto de sandálias, confeciona bolsas, cintos, bijuterias e participa em exposições. Os preços dos sapatos variam entre mil e 3.500 escudos.

“Acho que o maior constrangimento na minha área tem sido a falta de material para inovar e criar, e o maior desafio pessoal que já venci foi ter decidido que queria aprender e não deixar o legado do meu pai morrer. Sinto-me feliz porque estou a fazer o que eu amo e o mais importante para mim é saber que a paixão do meu pai continua viva dentro de mim e sei que ele está feliz e em paz aonde estiver”, conta.

Além da força de vontade e paixão pela profissão, Socorrinho considera ser uma pessoa “sortuda”, porque recebe apoio incondicional da sua mãe, dos seus amigos e até mesmo de pessoas desconhecidas que continuam a motivá-la para continuar o projeto.

“Quando veem os meus trabalhos e vibram com os resultados, é uma grande motivação para mim porque quando fazemos algo que amamos e temos pessoas que acreditam em nós e nos incentivam a nunca desistir dos nossos sonhos… é simplesmente mágico”, exterioriza.

Para a jovem, o segredo para concretizar os objetivos é ter sonhos e alimentá-los. “Não importa o que este sonho pode representar para os outros, mas sim o que significa para a própria pessoa”.

“Temos de perseguir os nossos sonhos. Eu confesso que para mim foi menos difícil porque achei um projeto com anos de existência e o que tinha de fazer era arregaçar as mangas e trabalhar. Sei que quem quiser realizar um sonho e não tiver meios para fazê-lo tem pela frente uma situação difícil, mas não impossível porque não devemos esperar que as coisas caiam do céu. Devemos correr atrás, porque se não o fizermos, ninguém o fará por nós”, defende.

Por isso, desafia todos os jovens que sejam sonhadores, mas “sonhadores ousados”, porque, sustenta, “quando uma pessoa tem força de vontade e acredita que é capaz de vencer e realizar os seus sonhos, não obstante os obstáculos, tudo se torna possível e só o céu é o limite”.

“Futuramente, quero alargar este projeto e ter filiais da “Sapataria Socorrinho” nas outras ilhas, mas sempre seguindo a linha do meu pai, a minha eterna fonte de inspiração”, concluiu.