Toda a sua família é de Santo Antão e aqui também nasceu ele, mas levaram-no em tão tenra idade para os Estados Unidos que não tem memória de quando foi. Joaquim “Jackie” Santos descobriu o talento para a bateria aos dez anos e desde então não parou. Tocou nos melhores palcos dos Estados Unidos e do mundo. The Jacksons, Gladys Knight, Aretha Franklin, Ray Charles e Marvin Gaye são alguns dos músicos que acompanhou durante a carreira. Hoje orgulha-se de ser o primeiro e único cabo-verdiano que ensina na Berklee College of Music, já lá vão 23 anos.

Jackie, conta-nos um pouco da tua infância.

Passei toda a minha vida em Massachusetts, New Bedford. Eu queria ter aulas de Karaté, mas um dia vi um grupo a tocar na televisão e fiquei tão fascinado pelo baterista que disse ao meu pai de criação que eu queria tocar bateria. Ele disse-me que eu deveria escolher uma coisa e focar-me nela. Então escolhi a bateria.

Quando tiveste as baquetas na mão, pela primeira vez?

Tinha 10 anos. No momento em que pus as mãos nas baquetas soube que Deus tinha-me dado um talento.

Sabia que tinha muita habilidade natural mas que tinha de levar esta habilidade a um outro patamar. Então, estudei com os melhores professores que pude encontrar na minha cidade natal. Quando ultrapassei os meus professores, tive de encontrar alguém que não podia ultrapassar e então estudei com um baterista de Boston que se chamava Alan Dawson. Passei muitos anos praticando 7 a 8 horas por dia, todos os dias.

Quando começaste a tocar para o público?

Desde os 13 anos venho tocando em clubes. Toquei com músicos que eram muito mais velhos do que eu, que me inspiraram e me ensinaram a forma correta de tocar. Quando terminei o ensino secundário, fiz uma digressão com um grupo chamado The Bedfords. Esta banda incluía os melhores músicos de New Bedford.

Eram cabo-verdianos ou americanos?

Havia apenas um cabo-verdiano. Os restantes eram americanos. Depois disso, fui em digressão com um grupo da Austrália e estive com eles durante uns 8 meses. Depois voltei para casa, estudei mais uma vez com Alan Dawson e, nos finais de 1977, Os Tavares* chamaram-me. Fui então tocar em Providence – Rhode Island, num pub onde cabiam 100 pessoas.

Toquei em Houston para 55 mil pessoas, fazendo uma abertura para o show dos Jacksons, com Michael Jackson. Toquei em todos os estádios de basebol por três anos consecutivos. Estive em digressão com os The Jacksons, Gladys Knight, Aretha Franklin, Ray Charles, Marvin Gaye, The Temptations, The Four Tops... viajei com todos eles.

Toquei nos sítios mais famosos do mundo: London Palladium, Royal Albert Hall, Hammersmith Odeon com uma orquestra de 55 instrumentos (50-piece Orchestra). Toquei num concerto requisitado pela realeza para o Rei da Espanha e outro para a presidente da Viña del Mar- Chile. Toquei em todas as melhores discotecas dos Estados Unidos sendo uma delas o Copacabana em Nova Iorque.

Toquei também na América do Sul, Japão, Londres, enfim já toquei em praticamente todo o mundo. Eu era muito jovem quando toquei com Os Tavares. Eu amo esses rapazes, somos como irmãos, eles chamavam-me o sétimo irmão.

*Os Tavares - *Grupo de R&B, funk, disco e soul, fundado em 1969 por seis irmãos americanos de origem cabo-verdiana. Conhecendo um grande sucesso nos anos 70, o grupo assinou temas conhecidos como More than a Woman ou Heaven Must Be Missing An Angel. O grupo continua no activo, tendo sido reconhecido no Music Hall of Fame de Road Island em 2014.

Joaquim “Jackie” Santos
O primeiro e único cabo-verdiano que ensina na Berklee College of Music créditos: Revista Sempre Viva

Os Tavares era um grupo cabo-verdiano?

Sim, era um grupo cabo-verdiano. Na verdade, eles colocaram Cabo Verde no mapa porque quando estivemos em digressão nos anos 70, quase ninguém, principalmente os americanos, sabia de Cabo Verde. Geralmente pensavam que eu era hispânico, nomeadamente dominicano ou Porto-riquenho, e eu dizia que era cabo-verdiano. Respondiam:

“Cabo Verde? Onde é isso”. E quando o grupo Os Tavares se tornou mais famoso, começaram a reconhecer quem eram os cabo-verdianos e onde ficava Cabo Verde.

Como conheceste os Tavares?

Crescemos todos na mesma cidade. Eles começaram em Fox Point, Rhode Island, este de Providence e depois foram para New Bedford. Quanto ao irmão mais novo dos Tavares, o Tiny Tavares (Pequeno Tavares) mas também conhecido por Chubby (Gordinho), já o conhecia de quando o Grupo era chamado Chubby & The Turnpikes, isto antes do nome Os Tavares. Eles ficaram famosos, acredito que foi em 1974-75. O primeiro grande sucesso deles foi a música Check It Out, e depois tiveram outros sucessos como More Than A Woman, Heaven Must Be Missing An Angel, e foi aí que eu entrei. Quando eles já eram muito famosos, estavam no auge da carreira. Quando entrei já estávamos a tocar em estádios de basebol, por todo mundo. Fiz todos os programas de televisão: The Midnight Special, The Mike Douglas Show... enfim, fiz todos os shows que eram famosos na altura.

E tocavam somente nos Estados Unidos?

Tocámos por todo o mundo.

Em Cabo Verde também?

Não. Na verdade, eu estive com o grupo de 1977 até 1992, isso foi a época em que eles eram muito famosos. Em 1992, recebi uma chamada de John Cafferty and the Beaver Brown Band que era um grupo de rock muito famoso que fez a banda sonora de vários filmes: Eddie & The Cruisers I & II, Rocky IV com Sylvester Stallone, Something About Mary e Jersey Girl. Em 1992 quando juntei-me a esta banda, recebi uma chamada do Benjamin Wright, arranjador de cordas do Quincy Jones, director musical de Gladys Knight, que fez os arranjos para cordas dos álbuns Off the Wall e Thriller de Michael Jackson e que também era Produtor dos Tavares. Ele chamou-me de Londres e queria que eu tocasse com Gladys Knight. Ele disse que não era necessário nenhuma audição, o concerto era meu se eu quisesse. Eu disse que precisava de um par de dias para pensar sobre o assunto. Estava com Os Tavares todos esses anos, fiz grandes coisas com esses grandes artistas que já mencionei, e era: ou voltava a tocar com artistas R&B ou com uma banda muito famosa de Rock N’ Roll. E disse: sabes o que mais? É tempo para uma mudança. Assim, quando deixei Os Tavares, estive com John Cafferty por 22 anos.

Joaquim “Jackie” Santos
O primeiro e único cabo-verdiano que ensina na Berklee College of Music créditos: Revista Sempre Viva

Porque é que nunca chegaram a vir a Cabo Verde?

Não sei. Eu acho que eles quiseram vir muitas vezes, na verdade queriam que eu viesse tocar com a minha banda. Naquela altura eu estava em digressão, fazendo muito dinheiro, e eles queriam que eu viesse por duas semanas mas sem pagar e eu não podia perder a oportunidade de fazer muito dinheiro. Mas agora que estou na Berklee College of Music e a minha vida está bem, quero voltar quantas vezes puder.

Como é que a Berklee College of Music surge na tua vida?

Em 1992, a Berklee chamou-me duas vezes, mas eu estava viajando muito e não podia comprometer-me. Em 1994 chamaram-me três vezes. A última mensagem no meu correio de voz foi: “Fala o Reitor Anderson da Berklee College of Music e queremo-lo aqui. Não conseguimos falar consigo, por favor entre em contacto connosco antes do dia 4 de Setembro.” Eu pensei sobre isso e cheguei à conclusão que era aí que eu queria que a minha vida se desenvolvesse. Queria partilhar a minha experiência, o meu conhecimento e a minha sabedoria com todos os jovens músicos do mundo. Queria ser capaz de inspirar músicos pelo mundo fora. Tenho sido afortunado na Berklee, já tive alunos da China, Japão, vários países de África, Grécia, Coreia, de toda a parte do mundo. E, neste momento, o que é mais gratificante para mim é estar em Cabo Verde e partilhar todo o meu conhecimento com estes músicos tão bonitos. Este é o meu segundo ano aqui, vamos voltar no próximo ano e dar mais bolsas de estudo, mas eu quero voltar mais e ensinar mais. Quero voltar para tocar em Santo Antão, São Vicente... Santo Antão é onde nasceu a minha família. Quero voltar e sentir o espírito do meu pai e dos meus ancestrais, quero ser capaz de sentir tudo isso e sentir a bênção que Deus me deu através da minha família.

Existem outros professores cabo-verdianos na Berklee?

Sou o único cabo-verdiano que até agora ensina na Berklee College, sou o número um, o primeiro. Sinto-me muito orgulhoso. Vou fazer 23 anos como professor. Sinto-me também muito honrado pois o Presidente da Berklee College of Music, Roger Brown, tem tomado aulas comigo nos últimos 3 anos.

Como é que te sentes em relação à música de Cabo Verde?

Amo a música de Cabo Verde. Quero aprender mais sobre ela, quero ser um estudante de Cabo Verde. Há muito que aprender do meu povo.

Tiveste a oportunidade de interagir com outros músicos aqui?

Oh Sim! Eu ensinei. Vim para ensinar. Ensinei durante três dias e demos bolsas de estudo. Foram dias de trabalho com os bateristas e os conjuntos. Fizemos um Rec Shop Clinic e foi simplesmente inacreditável.

Achas que temos um grande potencial em termos de músicos?

Estás a brincar? O potencial aqui... os músicos aqui nem sabem ler... tivemos músicos no meu Rec Shop que nunca pegaram numa guitarra e que começaram a tocar o que nós pedíamos que tocassem. Isso é uma bênção de Deus. Então, é nosso trabalho fazer com que eles percebam o que estão a tocar. Imagina se nós déssemos escola a estes músicos, se os ensinássemos como ler e saber o que estão a tocar? O céu é o limite. O potencial é inacreditável, eles podem tornar-se músicos brilhantes. O meu povo aqui em Cabo Verde é lindo, nunca havia visto tanta gente bonita na minha vida. É surreal.

Tens planos para regressar?

Quero vir quantas vezes puder, quero voltar já de seguida.

E planos para um show aqui em Cabo Verde?

Sim! Quero fazer um show aqui com a minha banda. Quero falar com o embaixador do Estados Unidos em Cabo Verde e o Ministro da Cultura, organizar para voltar aqui com a minha banda e tocar em Santo Antão e São Vicente.

Como se chama a tua banda?

Joaquim “Jackie” Santos
O primeiro e único cabo-verdiano que ensina na Berklee College of Music créditos: Revista Sempre Viva

The A-List, Jackie Santos & The A-List. A-List significa os melhores músicos.

Que estilo de música tocam?

De tudo. Tocamos Jazz, Reggae, Funk, Latino. Podemos tocar também música cabo-verdiana, de tudo. Os músicos desta banda são capazes de tocar tudo, conseguem ler qualquer coisa que os ponhas à frente. É inacreditável. É uma mistura de estudantes e músicos com os quais tenho tocado toda a minha vida.

Ainda tens familiares em Santo Antão?

Eu acho que sim. Acredito que tenho primos e outros familiares em Santo Antão. Quero conhecê-los. E espero que os cabo-verdianos possam ajudar-me e fazer com que isso seja possível. Ficaria imensamente grato.

Uma mensagem final para os músicos cabo-verdianos?

A mensagem seria: nós todos fomos abençoados com um grande talento. A pergunta é: estão dispostos a trabalhar duro pela bênção que Deus os deu? Eu sei que eu trabalhei. Deus nos abençoou com uma habilidade natural mas têm de levar essa habilidade natural para um outro lugar, o mais alto patamar, para que possam-se tornar músicos brilhantes, aprender a ler, aprender a tocar estilos diferentes porque o mundo está na palma da vossa mão. O quanto querem isso? Há duas palavras operativas que sempre estiveram presente desde o início dos tempos: ética e trabalho. Têm de ter ética e trabalho. Há que pegar esse talento e levá-lo a esse patamar ao qual sabem que podem chegar. E a única maneira de lá chegar é trabalhando no duro...

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