Nascida no Sal “por acaso”, pois os pais aí se encontravam momentaneamente, Fátima Santiago foi criada entre o Sal e São Vicente. Mas as suas raízes estão na ilha de São Nicolau, de onde são os avós e onde tem vários familiares – um deles, seu tio pelo lado da mãe, Armando Zeferino, autor da celebrada e controversa Sodade.

Seu pai, António Santiago, músico dos sopros e das cordas, fez parte da Banda Municipal de São Vicente, além de construir instrumentos. Há na família outros músicos, como os mindelenses Manel d’Tidjena, trompetista, e Jack do Carmo, que compôs a conhecidíssima Flor formosa.

Entre as reminiscências sonoras da sua infância está também a guisa dos funerais, que ouvia a avó entoar. Por isso, não é de estranhar que Fátima tenha tido desde sempre algum pendor para a música. Foi por volta dos 9 anos que ouviu a sua própria voz pela primeira vez.

“Rapidamente, percebi que ela seria para mim um meio de comunicação único”, diz a cantora e professora, que recorda que ainda bem cedo já sabia cantar todas as músicas de Roberto e Erasmo Carlos, entre outras do Brasil.

O fado de Amália Rodrigues também fez parte das suas cantorias de adolescente.

A partir dos 10 anos, integra o coro do culto das Testemunhas de Jeová. Mais tarde já a viver em França, depois de passar alguns anos em Dacar, continua a participar um coro da igreja, agora com 60 vozes, que considera ter sido uma verdadeira escola para o seu desenvolvimento musical. Nesse contexto, participa também de actividades teatrais.

Mas escola mesmo a sério será o Conservatório Internacional de Música de Paris, para oqual entra em meados dos anos 1980, depois de ter tido aulas de solfejo e canto com professores particulares. Devido ao seu percurso anterior, conclui rapidamente o segundo ciclo de estudos no conservatório, sem sequer ter passado pelo primeiro.

A seguir, transfere-se para a Guiana Francesa, devido a compromissos profissionais do marido, e continua a sua formação, agora seguindo cursos de canto lírico e solfejo em grupo, na Escola Nacional de Música de Caiena. Em finais da década de 1980, nova mudança, agora para Guadalupe, nas Caraíbas, onde vive desde então.
Aí, na ausência de conservatórios ou escolas de música de nível avançado, teve de prosseguir pelos próprios meios, mas nunca desistiu. Pelo contrário.

Perder a voz fez Fátima avançar na investigação

Há cerca de 20 anos, Fátima Santiago iniciou um estudo científico da arte vocal, o que a levou a criar um método próprio de ensino. Tudo começou quando certo dia, após uma apresentação, perdeu a voz.

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TEXTO ORIGINALMENTE PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº9 DA REVISTA

Essa situação levou-a a embrenhar-se num estudo profundo sobre a voz e os elementos que a influenciam.

Partindo da obra de Yva Barthélémy, cantora de ópera e pedagoga italiana a quem tinha acontecido a mesma coisa, estudou profundamente todo o sistema orgânico de produção de sons, do ponto de vista anatómico e fisiológico.

Outra obra importante neste percurso foi A orelha e a voz (Alfred Tomatis, Éditions R. Laffont, 1987), que mostra a importância da audição no canto. “Graças a esta obra, descobri que a arte, que eu pretendia exercer, era uma ciência. Se o canto e a interpretação são subjetivos e relacionados com a sensibilidade do intérprete, o uso do aparelho fonador é uma ciência”, afirma.

A sua curiosidade por tudo o que diz respeito ao canto e à voz levou-a a interessar-se também por um livro sobre o canto que se praticava na China há mais de 3 mil anos, O Tao e a Voz (Stephen Chun-Tao-Cheng, Ed. Presses Pocket 1993). Fala de uma técnica psicofisiológica que permite a quem canta unificar os dois hemisférios do cérebro, o que garante, como verificou, progressos incríveis.

“Se esta técnica recorre a pouquíssimos termos científicos, o uso da voz que ela preconiza está em harmonia com aquilo que sabemos hoje em dia sobre a fonação e o canto”. Graças a este método, a cujo estudo se dedica há quatro anos, a professora consegue em certas áreas, em poucos meses, aquilo que antes precisava de três anos para conseguir.

“As minhas reflexões sobre este tema levaram-me a criar exercícios que facilitam o trabalho dos meus alunos”, explica Fátima Santiago.

Outra linha de trabalho sobre o canto e a voz em que baseia o seu trabalho é a chamada odologia, disciplina criada na década de 1970 por Nicole Scotto di Carlo, que engloba um conjunto interdisciplinar de conhecimentos, como a anatomia, a fonética, a fisiologia, a acústica, a semiologia, a percepção, entre outros.

Fátima Santiago
Entrevista publicada na Revista Sempre Viva créditos: Revista Sempre Viva

Na Guadaloupe, Fátima já ensinou em escolas privadas, como o Instituto Chopin, e desde há oito anos lecciona num centro cultural no município de Les Abymes.

Tem cerca de 40 alunos de canto. Também produz artistas, que foram formados por ela. Entre os êxitos dos seus antigos alunos, cita uma jovem que foi o primeiro caso de uma estudante de música que, tendo feito toda a sua formação nas Antilhas (12 anos), foi a França apenas para passar pelo exame de fim de curso no Conservatório Internacional, “e saiu dele não apenas diplomada mas com o primeiro prémio de aperfeiçoamento”.

Uma das filhas de Fátima é pianista.

Pela internet, o reencontro com Cabo Verde

Fátima Santiago é também compositora e, além do canto lírico, interpreta todo o repertório da morna, em particular as mais antigas. Conhece também os artistas mais recentes e cita os trabalhos de Lura e Élida Almeida, lançados há não muito tempo.

“Estou longe, mas graças à internet estou todos os dias em Cabo Verde. Sei de tudo o que se passa”, diz, manifestando o seu interesse em conhecer melhor “a música profunda” do arquipélago, menos conhecida que as coisas mais modernas. “Gosto de ouvir Tcheka e Mayra  Andrade, por exemplo. Interessa-me descobrir a música que é reveladora da alma de um povo”.

Diz o mesmo sobre a música das Antilhas. Ao zouk – que é o estilo musical mais conhecido da região onde vive, mas que considera um bocado rasteiro, “que não se eleva” – prefere as músicas “mais profundas, que falam das raízes e da história das Antilhas”. Há 39 anos sem regressar a Cabo Verde, já que a família e o cuidado com os filhos não facilitam as deslocações, tem planos de voltar no próximo ano.

Recentemente, concluiu o memoire que vai defender em breve com vista a obter o seu diplome d’etat, que lhe dará direito a ensinar num conservatório oficial. Depois disso, o que pretende é continuar a investir na investigação sobre o canto e a voz. E, se possível, ensinar em Cabo Verde. “Este é o meu sonho”, diz, imaginando algum projecto que a possa trazer à terra natal para partilhar os conhecimentos que acumulou durante todos esses anos na emigração.

“Quando se sai tão jovem e não se tem a oportunidade de conhecer bem o seu país, não se sai por escolha própria. Isso é uma história dolorosa. Mas a minha ligação com Cabo Verde é muito profunda. Durante cerca de 30 anos não falei a minha língua, mas através da internet foi possível reconectar-me com o meu país.

Na ilha de Guadaloupe, segundo Fátima Santiago, há muito poucos cabo-verdianos – uma dezena, aproximadamente. “Víamo-nos quando Cesária vinha atuar aqui, mas fora as três vezes que isso aconteceu, não convivemos uns com os outros”, conclui…

“Gosto de ouvir Tcheka e Mayra  Andrade, por exemplo. Interessa-me descobrir a música que é reveladora da alma de um povo”.

 

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