Estamos oficialmente na era do transumanismo

Já há pessoas a implantar dispositivos tecnológicos no organismo para obter informações sobre o seu estado de saúde, que depois enviam para o telemóvel. Uma realidade nova que gera medos e suscita dúvidas.
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Apesar de alguns teóricos já anteverem o aparecimento deste movimento na década de 1950, só a partir de 2012 se começou a tornar mais evidente que o futuro passaria forçosamente pelo transumanismo. Uma realidade apenas possível com a implantação de dispositivos tecnológicos nos indivíduos que lhes permitam interagir de uma forma quase neurológica com a internet e com as inovações high-tech que os rodeiam.

Nos primeiros dias de 2017, o empreendedor multimilionário Elon Musk voltou a colocar o dedo na ferida. «Os seres humanos precisam de se fundir com as máquinas», defendeu publicamente, assegurando que a evolução da espécie terá de passar forçosamente por aí. «Se não nos fundirmos com elas, elas tornar-se-ão inúteis e irrelevantes», vaticina, apesar de afirmar que não se considera um transumanista.

Zoltan Istvan, um prominente transumanista, na corrida ao cargo de governador da Califórnia, nos EUA, é da mesma opinião. «Necessitamos de uma liderança capaz de usar a ciência radical, a tecnologia e a inovação em nosso benefício», escreveu num editorial publicado na revista Newsweek. «Precisamos de quem arrisque tirar partido das tremendas possibilidades que a bioengenharia nos oferece para salvar o ambiente», refere.

«Pode ser usada para acabar com o cancro através de uma vacina ou de uma solução que passe pela manipulação dos genes», defende ainda. À semelhança de Zoltan Istvan, são muitos os apologistas desta corrente que defendem o recurso à modificação genética e às tecnologias emergentes, mediante implantes mecânicos e biomecânicos para tornar as pessoas mais inteligentes e para aumentar a longevidade dos seres humanos.

Mas o que é afinal isso de transumanismo?

Julian Huxley, biologista britânico, foi um dos primeiros a usar o termo. «Precisamos de um nome para esta nova crença», escreveu em 1957. «Transumanismo serve porque o homem continua a ser o homem mas transcendendo-se graças às novas possibilidade de e para a sua natureza humana», defendeu. Na década de 1980, nos EUA, foram muitos os transumanistas que se começaram a reunir em encontros formais na Universidade da Califórnia.

Os mais clássicos e tradicionalistas ficam em pânico com a ideia de um homem convertido em robô a viver numa sociedade de máquinas e dispositivos eletrónicos. Francis Fukuyama, um dos críticos do movimento, autor do livro «Our Posthuman Future: Consequences of the Biotechnology Revolution», «O Nosso Futuro Pós-Humano: Consequências da Revolução Biotecnológica» em tradução literal, é um deles.

Tal como outros contestatários desta ideologia, teme que, a dada altura, se procurem erradicar as características negativas do ser humano através de manipulações genéticas que podem acabar com o que os seres humanos são hoje. «Se não fossemos violentos e agressivos, não nos conseguiríamos defender. Se não tivessemos sentimentos de exclusividade, não seríamos leais e, se não sentissemos inveja, nunca amaríamos», contrapõe.

Bill McKibben é outro dos críticos. O ambientalista e ativista teme uma (ainda) maior segregação social. «Se não podemos gastar 50 cêntimos por pessoa para comprar redes mosquiteiras para as camas das pessoas que correm risco de contrair malária em África, é muito pouco provável que se consigam generalizar estas pretensões», alerta. Ainda assim, o movimento está em marcha. Os próximos anos serão decisivos.

Texto: Luis Batista Gonçalves

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