Natural de Coculi, ilha de Santo Antão, Carla Lima, 41 anos, cresceu em Ponta do Sol e a rádio foi um meio que sempre lhe fez companhia. “A rádio encantava-me. Tinha uma magia especial”, explica. Foi este meio de comunicação acabou por ditar as suas escolhas na altura de optar pela área que queria seguir nos estudos superiores.

Já no liceu, em São Vicente, lembra-se de escrever cartinhas para rádio. “A rádio sempre me fascinou pela rapidez, por estar sempre presente, a qualquer hora. Antes do crescimento do online era a rádio que conseguia estar mais próxima e ser mais rápida”, defende.

E foi assim que com a rádio em mente partiu, em 1995, para o Brasil onde, quatro anos mais tarde, formou-se em Comunicação Social, vertente jornalismo. O primeiro contacto mais profissional com a rádio deu-se durante os estudos superiores quando estagiou na rádio universitária.

Contudo no regresso a Cabo Verde, a sua primeira oportunidade não foi na rádio mas sim no extinto jornal “O Cidadão”, em São Vicente, onde esteve durante sete meses. De seguida ainda passou pelo “A Semana”, mas perante um concurso para entrar na Rádio de Cabo Verde (RCV), não hesitou e concorreu, apesar da oferta de emprego ser na Praia.

E assim em janeiro de 2000, entrou para a RCV, casa onde está até hoje, tendo pelo caminho colaborações com jornais e agências, etc. “O que posso dizer sobre mim é que sou jornalista e profissional da rádio”, conclui.

Sindicalismo

Conta que desde o tempo da universidade esteve ligada aos movimentos associativos e quando, depois de algum tempo sem funcionar, a AJOC ganhou novo ritmo com uma conferência, Carla Lima entrou para a associação.

Mais tarde, veio a ser membro da direção na equipa da colega Hulda Moreira e em 2011 candidatou-se para a direção e a sua equipa venceu. Foi eleita para mais um mandato em 2014.

Diz que ser presidente da AJOC não tem sido fácil mas salienta a importância de se dar o contributo para a classe jornalística. “Ainda não temos totalmente essa consciência de classe e embora, em alguns momentos, essa consciência existe, mas a união tem de ser permanente”.

Apesar de salientar que o percurso na AJOC tem sido “uma escola permanente” e de amadurecimento pessoal e profissional, ainda não sabe se este ano (2017) a sua equipa irá recandidatar-se para mais um mandato. “Nós (o grupo que concorreu à direção) vai discutir este tema em conjunto”.

Até porque conciliar a vida profissional, o associativismo e a vida pessoal, Carla Lima é mãe de uma menina, por vezes é muito complicado.

“Em Cabo Verde estamos muito avançados em termos de igualdade de género, mas pessoalmente, acredito que só estaremos numa igualdade satisfatória se houver um maior envolvimento de todos, para que não algo seja à custa de (…), onde o peso maior é sobre as mulheres”.

Mulheres na comunicação

Há 17 anos, quando entrou para a rádio, recorda que o meio ainda era dominado por homens. “E quando se chega a um local onde não há muitas mulheres, não porque se colocam barreiras de forma intencional, mas elas existem, e é mais difícil se afirmar na profissão”, recorda.

Mas salienta que, no caso da rádio, com “vontade de aprender, de trabalhar e com humildade” é sempre mais fácil a integração.

O crescente número de mulheres nos media, no entender da presidente da AJOC, é algo que aconteceu naturalmente, em Cabo Verde, e está também relacionado com o aumento das oportunidades para mulheres, de uma forma geral.

Enquanto líder sindical, esta profissional salienta que a realidade cabo-verdiana é mais animadora do que nos restantes países africanos e o país é muitas vezes apontado como exemplo. “A realidade que nos cerca no continente não é assim. São poucas as mulheres nesta área e há muitos problemas associados às mulheres nas redações”, explica.

Carla Lima, presidente da AJOC
Ao lado de Santos Nascimento, no estúdio da RCV. créditos: CM

“É muito raro ver uma mulher que seja diretora de um órgão de comunicação, por exemplo”, explica a presidente da AJOC e salienta que é igualmente necessário monitorar dados estatísticos relacionados com o género com maior frequência.

“Saber por exemplo se as mulheres chegam aos órgãos de decisão e quais os critérios que pesam nessas escolhas e se tem havido essa preocupação, de equilíbrio de género também nos cargos de decisão dos órgãos de comunicação social”.

O desequilíbrio mantém-se na altura da atribuição de trabalhos nas redações e em áreas editoriais, por exemplo. Carla Lima afirma que há ainda poucas mulheres a cobrir temas como política, desporto, economia, por exemplo.

“Ainda há essa diferenciação. Chega uma nota à redação ligada ao género, à cultura, ao social, o primeiro pensamento de muitos chefes de redação é procurar a mulher que está na redação, nesse momento”. A presidente da AJOC salienta que “a atribuição deve ser consoante as competências”

No que diz respeito à diferenciação salarial consoante o género, no setor da comunicação social, Carla Lima afirma que em termos formais não existe essa diferença. ”Mas percebe-se que essa diferença existe tendo em conta a dificuldade das mulheres em chegar a alguns postos de chefia nas redações, por exemplo”.

Os desafios da Comunicação Social em Cabo Verde

Sobre os desafios da comunicação social no país, a presidente da AJOC cita alguns como “vencer o desafio da qualidade”.

“Não adianta ter mais cursos, nós temos de ter cursos de melhor qualidade. Temos de ter pessoas que quando saem dos cursos sejam suficientemente bem formadas para prestar um serviço de qualidade. Temos de voltar à velha questão da qualidade do ensino, não só no jornalismo”.

Enquanto presidente da AJOC ouve muitas críticas de que em Cabo Verde não se faz jornalismo de investigação. “Há alguns condicionalismos naturais. Por exemplo, essa proximidade quase sufocante (…) o país é muito pequeno e essa proximidade não ajuda”.

Mas Carla Lima acredita que o jornalismo de investigação no país está ligado ao desenvolvimento dos cabo-verdianos enquanto membros ativos da sociedade civil. “A nossa consciência de cidadania tem de aumentar para que isso se reflita no jornalismo. Explicando melhor, o jornalismo faz-se de fontes e as fontes em Cabo Verde, tirando as oficiais, as fontes ligadas à sociedade e à cidadania não são tão diversificadas nem em quantidade que seria desejável”.

Mas a jornalista acredita que o crescimento vai acontecendo naturalmente com a sociedade que também vai melhorando enquanto sociedade civil forte e com opinião pública formada.

Outro desafio salientado pela presidente da AJOC é o da pluralidade nos órgãos de comunicação social e a sustentabilidade dos meios privados.

“Não basta apenas ter meios de comunicação públicos. É preciso haver meios privados. Eles têm um papel importantíssimo em qualquer sociedade e é preciso que isso seja entendido pela sociedade como um todo”.