Este menino de Santa Maria, muito novo viu-se obrigado a driblar a dura vida de outrora e a desenhar o próprio caminho. Para fugir da guerra, voluntariou-se para a Força Aérea Portuguesa, formou-se em mecânica e construiu seu próprio hotel. Um caminho percorrido ao lado de mulheres de garra, sua mãe, sua mulher, suas filhas e colaboradoras. Se já chegou ao destino? Aos 66 anos, diz que a sua aventura ainda está longe de terminar.

Quem é Patone Lobo?

Sou uma pessoa que gosta muito de trabalhar e que não consegue estar parada. Sinto um prazer imenso em ajudar e felizmente estou casado com uma mulher que gosta muito de ajudar as pessoas, o que é muito bom, pelo que me sinto preenchido. Sou um empreendedor nato, estou sempre a buscar coisas novas e a inventar. Este é o Patone Lobo.

Patone Lobo
créditos: Vlademiro Delgado

É o mesmo Patone da infância?

Penso que há muita similitude. Eu era uma pessoa que dizia tudo o que pensava, mas hoje tenho mais calma, tento sempre “dormir” sobre o assunto e não tomar nenhuma decisão a quente. Porém, continuo a ser a mesma pessoa, com a mesma energia e com uma vida familiar boa.

Quando não está a trabalhar está com a família?

Sempre! Porém, os meus filhos dizem que estou sempre a pensar no trabalho ou em algo relacionado com Cabo Verde e o Sal. Mas tenho uma preocupação muito especial com a família, e não estou a falar só da mulher e filhos.

Tem uma família numerosa?

Tenho seis filhos, três rapazes e três meninas, frutos de dois casamentos, e 10 netos.

Como é ser pai e avô?

Uma vez li um post de um amigo no facebook que dizia: “se soubesse como é bom ser avô, tinha começado pelos netos”. Pois, é tão bom ser avô. Se bem que eu tive a minha última filha com 50 anos, precisamente no dia do meu aniversário, pelo que sempre tive uma criança em casa. Ela já está com 16 anos e vou começar agora a saborear verdadeiramente a companhia dos meus netos.

Fale um pouco de sua vida. Como chegou ao Patone de hoje?

Nasci em Santa Maria, numa altura em que éramos obrigados a separarmo-nos muito cedo da nossa família. Ainda hoje eu tenho a impressão de que não vivi a minha juventude como deveria viver.

Porquê?

Porque com nove anos vi-me obrigado a sair de perto dos meus pais para ir para São Vicente. Se pudesse voltaria atrás para viver mais tempo com os meus pais. Em São Vicente passei pelo Liceu Gil Eanes, depois fui para a cidade da Praia fazer o segundo ano e quando abriram o Externato no Sal regressei para terminar o liceu. Mais tarde entrei para a Força Aérea Portuguesa.

Por decisão própria?

Sim. Um irmão meu morreu na guerra e, por isso, antes que me chamassem para o exército, eu ingressei como voluntário na Força Aérea Portuguesa, onde tinha que prestar seis anos de serviço. Fui seleccionado, estive na Guiné-Bissau a fazer inspecções e de lá fui para Portugal, onde fiz o curso de Mecânica de Material Aéreo (MMA). Trabalhei na Força Aérea como mecânico de avião até 25 de Abril de 1974.

E no ano seguinte Cabo Verde tornou-se independente…

Sim, assisti à independência. Lembro-me que na altura deveria ir para a TACV trabalhar, mas eu não queria ir para a Praia viver. A TACV pagava 10 mil escudos aos mecânicos de avião, mas o Georges Vynckier, do hotel Morabeza, ofereceu-me 11 contos, por isso fiquei cá. Dei-me muito bem com a mãe dele, a Marguerite Vynckier, e aos poucos fui entrando no serviço, até que fui nomeado director-geral do hotel Morabeza. Feitas as contas, tenho mais tempo de trabalho no Morabeza do que no Odjo d’água.

Quantos anos para ser exacto?

Foram 27 anos no Morabeza. No Odjo d’água são já 20 anos, incluindo os dois anos de sua construção.

Acabou de contar uma história sobre si que pouca gente conhece, a sua passagem pela Força Aérea Portuguesa.

Convém realçar que eu entrei para a Força Aérea para fugir da guerra. Na altura, se uma família perdesse um filho na guerra, tratava de mandar o mais novo para a Força Aérea, por forma a evitar mais perdas.

Foi uma experiência e tanto…

Uma experiência que continuo a aplicar na minha vida actual. Tinha muito jeito para desenho. Comecei a trabalhar na empresa Infras Força Aérea como desenhador. Mais tarde, passei a desempenhar as funções de fiel de armazém e chefe de equipa de construção. Essa parte técnica deu-me algo que eu precisava para conseguir fazer o que fiz. Muito de que sei e que sou devo aos seis anos de serviço na Força Aérea.

Aplicou-os na sua vida pessoal e profissional?

É como digo sempre: todos os homens deviam fazer o serviço militar porque é uma grande escola. Por mim os meus filhos prestavam serviço militar e só depois iam estudar.

Uma escola que, aos poucos, facilitou a sua entrada para o setor do turismo… Quando comecei a trabalhar no Morabeza o hotel tinha pouco mais de 20 quartos. Portanto, eu cresci juntamente com o Morabeza, mas sentia necessidade de fazer algo meu. Lembro-me que saí um dia a procurar um sítio que desse para construir e cheguei aqui. Isto aqui era cheio de lixo, muito estreito, não atraia a atenção de ninguém. Dava a impressão de que era impossível construir neste terreno. Mas eu vi o meu hotel aqui, desenhei-o na minha cabeça, idealizei-o. Mas eu não tinha dinheiro e pedi então ao Vynckier que entrasse comigo como parceiro. Ele negou, porém deu-me muito apoio no início.

Odjo d'Água
créditos: Vlademiro Delgado

Como conseguiu dinheiro então? Quando começou a construir o hotel?

Comecei a construir em 1997. Levantava-me todos os dias às 6h00, vinha e ficava aqui nas obras até por volta das 9h00 ou 10h00, porque continuava a trabalhar no Morabeza. Até que conclui a primeira fase, com apenas 10 quartos. Depois tive que recorrer ao banco, para dar continuidade aos trabalhos. Foi quando cheguei à conclusão de que não conseguiria dar o meu melhor para nenhum dos dois hotéis. E decidi que era altura de deixar o Morabeza para assumir o meu hotel a tempo inteiro.

Foi difícil deixar o Morabeza?

Foi, mas tive todo o apoio do Vynckier, assim como da Geneviéve. Aliás, para mim toda a família Vynckier foi e continua sendo parte da minha família.

E hoje tem um dos hotéis mais charmosos de Cabo Verde.

Sim, é um hotel de charme, com uma localização fantástica, que tem alma cabo-verdiana. Chega-se aqui e sente-se que se está em Cabo Verde. Aliás, tudo faz lembrar Cabo Verde, cada quarto recebeu o nome de uma morna, acompanhado do nome do seu compositor e do seu intérprete. Todos os bancos de jardins têm placas que homenageiam as famílias mais antigas de Santa Maria.

É, por isso, um dos hotéis preferidos dos cabo-verdianos?

Acho que sim, porque é um hotel com alma crioula. Nós praticamos tarifa baixa e especial para os nacionais, já negociámos com a TACV a prática de uma tarifa baixa para assim estimular o turismo interno. Acredito que muita gente não faz ideia do que é Santa Maria, mas garanto que pode passar umas boas férias porque aqui há um mundo de coisas que se pode fazer. Já é altura de apostarmos no turismo interno, principalmente no verão, quando é época baixa para os turistas estrangeiros.

O Hotel Odjo d’água e outros tantos que existem em Santa Maria contrariam a tendência de construção de grandes resorts?

Aqui há muitos hotéis pequenos. Além do Odjo d’água, temos o Hotel Pontão, o Da Luz, Nha Terra, Sal Beach, etc, todos pertencentes a cabo-verdianos. Já é hora do governo incentivar os cabo-verdianos a construir pequenos hotéis de luxo, de oito a dez quartos. Há uma clientela para este tipo de hotéis e, por outro lado, são facilmente gerenciáveis. Devia haver empréstimos bonificados para os nacionais que queiram apostar neste tipo de negócio em Santa Maria, uma cidade com uma praia magnífica e que tem tudo à mão.

Está a dizer que, em termos de oferta, Santa Maria tem tudo?

Quase tudo! É claro que faltam investimentos básicos, e isto depende dos poderes municipal e central. Mas é uma cidade que tem de tudo e que, com as apostas certas, pode se tornar um dos destinos turísticos mais atrativos do mundo. Temos ofertas de desportos náuticos, aluguer de moto4, bicicleta eléctrica, bons roteiros de excursões e atividades noturnas por toda a cidade com música ao vivo.

O que faz falta aqui?

No que diz respeito às construções, faltam três coisas: um Acqua Park, uma sala de espetáculos e um centro comercial com produtos de marca e de boa qualidade. Repare que as mulheres, principalmente, quando vão de férias querem sempre comprar algo de valor. Quando o Hilton abrir teremos um turista mais exigente em termos de ofertas de qualidade. Santa Maria tem que se preparar para este tipo de turista.

Esse é o diferencial do Hilton. O que diferencia o Odjo d’água de outros hotéis?

Além daquilo que já falamos, é um hotel de charme, com grande preocupação com o meio ambiente. Utilizamos energia solar para aquecimento da água e produção de energia elétrica. A água que consumimos é toda reciclada e utilizada para a rega. Queremos chegar ao ponto de sermos considerados um hotel “green”.

O Odjo d’água já chegou no patamar com que sempre sonhou?

Já ultrapassou aquilo que idealizei no início, mas estou sempre a pensar em coisas novas. Posso dizer que o fim da aventura da minha vida ainda está longe de acontecer. Tenho um projeto novo de ampliação do Odjo d’água, que contempla a construção de mais 60 quartos, uma nova área técnica, uma piscina infinita, além do aumento da capacidade de produção de energia solar. As obras devem arrancar no próximo ano.

Todos estes projetos, todas estas ideias também têm o dedo de uma mulher?

Ah, pois é. Tenho a sorte de ter uma grande mulher ao meu lado. Além disso, costumo dizer, no Odjo d’água quem manda são as mulheres. Aqui todos os chefes de serviço são mulheres. Creio que, no geral, cerca de 80% dos recursos humanos do nosso hotel é formado por mulheres.

Como é trabalhar rodeado de mulheres?

Desde o Morabeza habituei-me a trabalhar com mulheres. Dão-me mais segurança, são mais focadas. Aliás, a mulher cabo-verdiana é uma heroína. Basta ver quantas mulheres conseguem sozinhas criar os filhos. As santiaguenses, por exemplo, são um grande exemplo. São guerreiras, driblam a vida sempre com muito suor, mas com esperança. Não se deixam abater pelas dificuldades que a sociedade lhes impõe.

As cabo-verdianas estão bem inseridas no mercado de trabalho?

As cabo-verdianas são lutadoras e, por isso mesmo, aos poucos estão a equiparar-se aos homens. Hoje há muitas mulheres na chefia e em cargos políticos de importância. Também temos que destacar aquelas que labutam em pequenos negócios, como por exemplo, as que vão buscar bidões nos Estados Unidos para revender. Elas são autênticas empresárias. É pena não estarem inseridas no sistema normal.

Como estão as mulheres no sector do turismo?

O ramo é praticamente dominado por elas. Aqui elas têm, não uma, mas duas ou três palavras a dizer.

Qual a maior referência de mulher na sua vida?

A minha mãe, com certeza. Era uma grande mulher, que conseguiu educar muitos filhos. Nascemos entre as décadas de 40 e 50, uma época difícil, de guerra e fome. Tínhamos uma casa em Santa Maria e para sobreviver tivemos que ir para Palha Verde, onde os meus pais podiam fazer agricultura. Ela era dona da casa e também nos dava explicação porque, estando em Palha Verde, só podíamos vir à escola em Santa Maria uma ou duas vezes por mês. Além de explicadora, ela cosia todas as nossas roupas. Ela fazia de tudo e conseguiu nos dar uma boa educação.

Foi ela quem lhe deu esse empurrão para construir essa sua personalidade de empreendedor?

Em grande parte sim, tanto ela como o meu pai. Lembro-me que o meu pai dizia que a minha mãe era uma verdadeira ministra das finanças. Ele era muito optimista e quando a minha mãe dizia “falta dinheiro para isso ou aquilo”, ele respondia: “Oh Cacilda, tenha calma, arranja-se, há-de aparecer de alguma maneira”. Eles eram uma boa dupla..

Patone Lobo
créditos: Vlademiro Delgado