Chegou ao Luxemburgo com apenas 11 anos para se juntar ao pai. Apesar das dificuldades ambicionou sempre mais do que o destino de emigrante fazia prever. Com dedicação, esforço e muitas horas de estudo noturno criou a Modern Style, uma marca que já conquistou cabo-verdianos e luxemburgueses, que procuram beleza e glamour.

Como foi a sua chegada na Europa?

Elisabete Sanches - Emigrei em fevereiro de 1981. Os primeiros meses foram difíceis, tinha deixado a minha mãe e irmãos, a totalidade da minha família materna para viver num país novo, no seio da família paterna, com a qual pouco convivia na época.

Quais os maiores desafios que enfrentou?

O maior desafio foi a integração na escola, a comunicação com os outros alunos e a barreira da língua.

Lembra-se de algum episódio marcante nos seus primeiros tempos de emigrante?

Nos primeiros tempos chorava muito quando os outros alunos chamavam-me de preta. Nessa época éramos poucos da nossa cor da pele e eu não gostava de ser diferente, mas passadas as dificuldades iniciais integrei-me rapidamente.

No Luxemburgo acabou também por constituir a sua própria família?

Sim, sou casada há mais de 20 anos, com um cabo-verdiano. Tenho dois filhos. Uma de 24 que frequenta o último ano da universidade em Estudos Franceses e um rapaz de 17 anos que frequenta o liceu.

O que considera ter sido determinante para que a sua integração fosse boa?

Aprender os idiomas rapidamente foi, sem dúvida, a melhor ferramenta para abrir todas as portas. Aprendi outras línguas que não são as do dia-adia luxemburguês, como o italiano, o espanhol e o alemão. Tentei sempre buscar mais do que tinha ao meu alcance. Os meus pais não podiam custear-me a universidade mas procurei sempre estudar, a par do trabalho.

Modern style, uma marca com 16 anos

Este esforço permitiu-lhe criar um negócio próprio. Como enveredou por este caminho?

Inicialmente frequentei a escolaridade obrigatória até aos 15 anos. Antigamente as famílias de emigrantes eram numerosas e os pais não tinham possibilidade de permitir que todos os filhos prosseguissem estudos superiores. Assim, quando terminávamos o ensino obrigatório, tínhamos a opção por uma formação profissional ou entrar diretamente no mercado de trabalho. Eu escolhi ser cabeleireira, consegui uma patroa que aceitou-me como formanda. Frequentei um estágio para aprendizagem num cabeleireiro, durante três anos e fiquei 12 anos a trabalhar nesse mesmo cabeleiro. Posteriormente resolvi aprofundar os estudos nesta área e completei um Mestrado. Depois de desta etapa abri o meu próprio negócio, já lá vão 16 anos.

Foi difícil construir este percurso?

Ter o meu próprio negócio não foi tão fácil. Um negro ser empresário na Europa não é fácil. É preciso muita disciplina, coragem e perseverança para ter sucesso. Não falamos muito disso mas o racismo ainda existe. Tive de lutar muito, sendo sempre eu mesma. Uma pessoa que gosta de conversar e sempre com um sorriso na cara. Não é fácil, mas com disciplina e emprenho é possível conseguir os nossos objetivos.

Fale-nos mais do seu negócio.

Quando comecei já tinha uma boa clientela. Fui-me aprimorando e sempre fazia formações para aprender coisas novas, e ter uma oferta exclusiva. Hoje tenho um nome respeitado no mercado. Aqui no Luxemburgo quando há casamentos ou outras cerimónias as pessoas procuram por mim porque é onde têm mais satisfação. Comecei com três pessoas, hoje somos quatro, mas não quero mais do que isso. Orgulho-me do que consegui e quero manter a minha marca. Uma casa pequena que funciona bem

Elisabete Sanches
Viva a Cabo-verdiana na Diáspora créditos: Revista Sempre Viva

Que outros serviços prestam?

Além de penteados e serviços de cabeleireiro, vendo produtos de beleza, cosméticos para homens e mulheres, produtos de maquiagem, serviços de manicure e pédicure, com unhas de gel. Fazemos também muita maquiagem em época de festa. A maior parte da minha clientela é branca, mas tenho também africanos, jovens e idosos. É diversificado.

Atualização constante

Num mercado tão competitivo qual a estratégia para manter a sua clientela?

Para manter o sucesso é preciso marcar a diferença, estar em atualização constante e seguir sempre cursos de melhoria. Para mim a formação foi sempre a base de tudo. Ainda hoje continua a frequentar formações. Sempre que surge um penteado novo, uma coloração nova, coisas que vejo em julho revistas, informo-me onde posso fazer a formação e vou. Já fiz inclusive formações fora do Luxemburgo, em países como a Itália, a França e Alemanha.

Invisto muito na aprendizagem justamente para ter sempre algo mais a oferecer, porque se nos mantivermos sempre na mesma base não evoluímos. Como maioria da minha clientela é branca tento sempre seguir as novas tendências, pois são uma clientela mais exigente.

E quanto à nova moda afro que vigora entre africanos, que respostas tem dado?

Devo reconhecer que sou um bocado “contra” a moda afro, uma vez que reduz a solicitação pelo nosso trabalho. As pessoas frequentam menos o salão. Mas há sempre algo que podemos oferecer. Por exemplo agora no Luxemburgo a nova tendência é fazer madeixas e coloração no cabelo afro natural. Isso sempre traz mais pessoas ao salão e permiti-nos aplicar os nossos conhecimentos.

O seu percurso é um exemplo de sucesso. Considera que o seu caso é uma exceção ou acha que é possível aos emigrantes atingir outras metas no estrangeiro, além das atribuições tradicionais?

Todos podemos conseguir. É preciso querer e lutar, nada é impossível.  A maioria dos emigrantes chega à Europa na idade adulta vem com a mentalidade de chegar, trabalhar e ganhar dinheiro. Assim que conseguem um trabalho que ofereça um ordenado suficiente para comer, pagar as contas e mandar algum dinheiro à família em Cabo Verde, mantêm-se nessa base e não tentam ir mais além. A meu ver é esta mentalidade que causa o fosso entre brancos e negros na Europa. Os brancos tentam sempre evoluir, ir além, os emigrantes contentam-se mais facilmente. No meu caso, fui um pouco mais ambiciosa para conseguir os meus objetivos.

Entretanto o mercado europeu também mudou. Depois de tantos anos emigrada como vê a Europa de antes e a de agora?

Elisabete Sanches
Viva a Cabo-verdiana na Diáspora créditos: Revista Sempre Viva

Antigamente o mercado europeu era mais fácil para trabalhar. Agora os emigrantes triplicaram e a vida tornou-se mais complicada. Realizar sonhos tornou-se por isso mais difícil também.

Estreitar relações com o arquipélago

Que relação mantém com Cabo Verde?

Construi uma casa em Cidadela, tento ir todos os dois anos. Cabo Verde é o meu país natal, que muito adoro. O meu pai também informa-nos sempre sobre o que acontece em Cabo Verde.

Pelo acompanhamento que faz como vê o país hoje e o que pensa que mudou desde a sua partida?

A realidade que deixei em 1981 e a de hoje não têm comparação. O país está bem mais avançado, mas tenho nostalgia do Cabo Verde livre da minha infância. Embora o país tenha desenvolvido muito a nível das infraestruturas e do mercado, houve perdas a nível da liberdade das pessoas. Penso que tem também a ver com a alta taxa de desemprego jovem. Agora é preciso prestar muita atenção na rua, não se pode sair a noite para todo o lado... Também me lembro de ter deixado um país mais verde. Depois de ter vindo em 1981, só voltei 17 anos depois, em 1998. Tinha em mente o Cabo Verde antigo. Fiquei bastante dececionada, pois encontrei tudo mais seco, já não encontrei a abundância de tâmaras e mangas que havia na minha localidade. Tudo despareceu.

Recordo-me do melhor período da minha vida em Cabo Verde, durante a infância em que brincávamos no mar e nas ribeiras de São João Baptista, onde cresci. Apesar de tudo, Cabo Verde continua a ser o melhor lugar do mundo para mim.

Que projetos tem para o futuro?

Quero ensinar a minha profissão e viajar mais vezes a Cabo Verde. Estou quase a completar 46 anos. A minha ideia é trabalhar mais dois ou três anos na minha área, deixar o comércio aberto com empregados e ver se consigo ser professora de ensino profissional na minha área.

Que mensagem deixaria para todos os emigrantes cabo-verdianos espalhados pelo mundo?

Tentar realizar os sonhos, agarrar cada oportunidade que a vida nos dá e não esquecer de onde se vem..

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