O boxe foi a “primeira paixão” de Adysangela Moniz, aos 14 anos, incentivada pelo avô, Cosme Leal Monteiro e pelo pai, Adriano Moniz, ambos boxers. Mas seria o judo a conquistá-la. Na Escola Secundária Cesaltina Ramos, onde estudava, um convite à prática de judo captou a sua atenção. Foi o início de uma história de amor que dura há 15 anos.

Cabo-verdianas à conquista do desporto
créditos: Revista Sempre Viva

Adysangela quis desistir, mas o pai não permitiu. “As lesões e a falta de condições fizeram-me querer largar tudo. Meu pai Insistia que devia superar dores e dificuldades e lutar pelo meu objetivo”, conta a judoca que, a ausência de atletas femininas da sua categoria (+78Kg), competiu contra atletas masculinos, alcançando muitas vezes o 2º e 3º lugar nas provas.

Todos os sacrifícios seriam compensados com a classificação para os Jogos Olímpicos Londres 2012: “Foi a melhor experiência da minha vida, uma verdadeira injeção de boa autoestima. Até me pediram autógrafos, sem mesmo me conhecer”, lembra a judoca cabo-verdiana que, aos 30 anos, é atleta e treinadora.

“Isto limita tempo disponível para investirem em desporto”, afirma a diretora daquela gabinete, para quem a limitação é ditada pela divisão de tarefas por sexo, que não é igual. “Deveríamos partilhar as tarefas domésticas. Se assim fosse, as mulheres teriam mais tempo para se dedicarem ao desporto”, apela Cláudia Rodrigues.

Há ainda quem diga que a mulher não deve praticar desporto ou certos desportos. Filomena Fortes, presidente do Comité Olímpico Cabo-Verdiano, diz que o preconceito nasce do mito do sexo fraco: “As mulheres conseguem praticar todos os tipos de desporto, inclusive os que são vistos como violentos, como o râguebi”.

Cabo-verdianas à conquista do desporto
créditos: Revista Sempre Viva

Histórias de sucesso como a de Adysangela Moniz são poucas em Cabo Verde. A ausência das mulheres do desporto, diz Cláudia Rodrigues, da ONU Mulheres Cabo Verde, é forçada, a começar pela falta de tempo, comprovada por um estudo do Instituto Nacional de Estatísticas. As mulheres dedicam 9 horas diárias ao trabalho doméstico, os homens 5 horas e meia.

O que falta, diz Fortes, são oportunidades e estas começam finalmente a surgir. Em marcha está já o projeto nacional M Olympics (M de Mulher, de Mudjer) que, durante uma semana dá formação às mulheres em liderança e promove atividades desportivas, dando oportunidade sobretudo às meninas de experimentar todas as modalidades.

O objetivo é empoderar as mulheres e estimular a paridade e a equidade de género, que deviam estar mas ainda não estão na lei do desporto nacional. “A lei é muito omissa, aliás obsoleta”, diz Anildo Santos, Diretor Geral dos Desportos, que neste mês de Junho, no Conselho Nacional de Desporto, levará a debate a lei dos regimes gerais das federações desportivas.

“Proporemos a introdução da paridade e da equidade do género na lei dos regimes gerais das federações desportivas para incentivar associações e federações a dar mais atenção ao desporto no feminino”. Uma das mudanças previstas é o aumento da comparticipação financeira do Estado aos orçamentos consoante o número de atletas inscritas em diferentes escalões.

“A maior parte das associações desportivas não possuem equipas femininas. Ora, se não houver esta cadeia de escalões será difícil incentivar a prática do desporto entre meninas e mulheres”, afirma Ana Cristina Pires Ferreira, presidente da Comissão Mulher e Desporto do COC, que diz ainda que faltam também infraestruturas desportivas em número suficiente para todos.

A ONU Mulheres também tem uma agenda para eliminar a disparidade. O desenvolvimento de políticas de comunicação capazes de derrubar preconceitos é uma delas. “Os media têm um papel importante nesta matéria”, diz Cláudia Rodrigues, pois influenciam os padrões de comportamento.

A conquista de cargos de liderança por parte das mulheres também ajuda à mudança, diz Rodrigues. “Defendemos a atribuição de quotas e políticas claras para colocar mulheres nos cargos de direção”, diz a responsável da ONU Mulheres. Mas para chegar a estes cargos, defende Filomena Fortes, as mulheres precisam se apresentar à disputa.

“Durante o Fórum Mulher e Desporto demos às mulheres as ferramentas necessárias. Esperamos que as usem”, alega a presidente do COC, que aponta o seu percurso como exemplo a seguir. “Fui atleta, treinadora e dirigente da federação de andebol. Agora, sou presidente do COC e candidata à vice-presidência da Associação dos Comités Olímpicos Nacionais Africanos”.

Fortes lembra que uma das recomendações do COI é que 30% dos líderes desportivos sejam mulheres. Daí que, embora seja defensora do acesso aos cargos “por mérito próprio”, Fortes  admite que “se não se atribuir quotas será mais difícil às mulheres chegar a esses cargos de chefia, não por falta de capacidade mas de oportunidade”.

A presidente da Comissão Mulher e Desporto do COC afirma por sua vez que “há diferenças no estilo de liderança as mulheres têm uma visão de espetro mais abrangente, enquanto os homens têm uma visão mais focalizada. Essa diversidade é uma riqueza que deve ser aproveitada”.

Em Cabo Verde, a maioria das crianças inicia a prática de atividade física no Ensino Básico, onde vigora a monodocência: um único professor leciona todas as disciplinas, inclusive Educação Física. Ora, muitas vezes não dá, “talvez por não ter apetência para essa área”, diz a Diretora Geral da Educação.

Outras vezes, a abordagem não se pauta pela equidade do género. “A professor do meu filho indicada para dar aulas de Educação Física coloca os alunos a jogar diferentes modalidades. Mas, se os rapazes jogam andebol e futebol, por exemplo, já as meninas só jogam andebol”, conta Isabel Cruz, mãe de dois rapazes em idade escolar.

Perante esta discrepância verificada em todo o país, a partir do ano letivo 2017/2018, o Ministério da Educação vai contratar professores para lecionar Educação Física em exclusivo. “Estes têm a sapiência suficiente para fazer florescer o gosto e apurar talentos tanto de meninos como de meninas”, explica Adriana Mendonça.

Na sua rede favorita

Siga-nos na sua rede favorita.