Foi batizada de Armandina Tourinho, mas é carinhosamente chamada pelo seu marido e companheiro de longa data de Dinah, uma daquelas mulheres fortes, mas de uma candura encantadora, com um sorriso e entusiasmo contagiantes. Uma salense que é praticamente uma badia, de tantos anos que está na Praia.

Uma badia-sampadjuda que lecionou em João Teves e que sente saudades do convívio entre as pessoas de quando ainda Praia não tinha asfalto, nem prédios altos. Do tempo em que os vizinhos eram da família e de quando a tecnologia não ocupava todo o tempo das pessoas.

Dinah é do tempo em que as anotações eram feitas em caderninhos. Continua a fazê-las com uma rotina religiosa e com uma missão ainda maior: ela tornou-se “os olhos e as mãos” do seu marido, o escritor e poeta Oswaldo Osório, que há sete anos ficou totalmente cego.

Esposa de Oswaldo Osório há mais de 50 anos e num matrimónio que gerou 7 filhos, 13 netos e 5 bisnetos e uma cumplicidade ímpar, Dinah recebeu a Sempre Viva em sua casa e revelou o segredo da sua felicidade.

Conte-nos, em breves palavras, um pouco da sua história

Nasci no Sal no dia 28 de Novembro de 1939. Aos 3 anos fui para Santo Antão e fiquei aos cuidados da minha tia Lídia e da minha madrinha Olívia. Mais tarde fomos para São Vicente. Daí a minha tia seguiu para os Estados Unidos e a minha prima Maria Lídia e eu fomos para Boa Vista. O meu pai era funcionário dos Correios e foi transferido para a Praia. Vim para Praia em 1958. Aqui fiz o liceu e comecei a trabalhar como professora no interior. Conheci o Oswaldo em São Vicente, de onde estava de passagem para a Boa Vista.

Então é mais badia que salense

Já estou há 49 anos na Praia. Vim pela primeira vez com o meu pai. Fui para São Vicente e depois para o Sal porque a minha mãe estava doente. Depois retornei para São Vicente e daí vim para Praia para trabalhar.

Conversa Viva: Dinah, os olhos e as mãos do poeta
Foto: Vlad Delgado créditos: Vlad Delgado

Foi professora nos Órgãos, João Teves, em 1962. Como era ser professora nessa altura?

Era uma experiência muito agradável porque sempre trabalhei com crianças, desde a Igreja do Nazareno eu participava em atividades com crianças. Mas decidi ser professora por uma razão muito simples: a minha mãe estava doente, era necessário ela ir tratar-se em Portugal e para isso eu teria que ter a bolsa de saúde. Só os funcionários poderiam ter acesso à bolsa de saúde. Para poder ajudá-la, concorri para professora para ter a tal bolsa. Consegui, mas foi muito triste: quando eu segui para o Sal no navio Santo Antão, passei por Pedra de Lume e, de madrugada, vi a imagem da minha mãe…depois contaram-me que a minha mãe estava sentada à minha espera. Da sala ela via a baía e viu o barco que me trazia, a passar. Pouco depois, morreu. Foi um choque para mim porque fiz todo um sacrifício para poder tratá-la.

Quais as grandes diferenças entre a Praia daquela altura e a Praia de hoje?

A diferença é muito grande porque a transformação é diária. Por exemplo, em João Teves eu não comprava nada, porque as famílias levavam-me tudo, inclusive flores. Para vir à Praia, vinha no autocarro do João de Fábrica e pagava 1$50 ou 15 tostões e hoje para ir até Órgãos pago muito mais. Hoje temos prédios, estradas asfaltadas, mas na época era só chão de terra batida por entre milhos e feijões. O convívio era diferente. Hoje as pessoas estão muito ocupadas, principalmente nesta era eletrónica. Não há tempo para convívio, nem para conversar. Inclusive passamos muito tempo sem ver os vizinhos.

Foi nessa época que conheceu o Oswaldo?  

Não. Conheci-o nos anos 1950. Eu tinha 17 anos e estava de passagem em São Vicente, a caminho da Boa Vista. Conhecemo-nos em casa de uma tia dele. Eu estava na cozinha, ele chegou e, com o seu atrevimento, disse-me para lhe dar um beijo.

Conversa Viva: Dinah, os olhos e as mãos do poeta
Foto: Vlad Delgado créditos: Vlad Delgado

E deu?

Não dei (em tom bem determinante). Mas, como sou muito diplomata, respondi-lhe: dou-te sim, mas quando eu fizer anos. Ele ficou animado. E perguntou: quando fazes anos? Eu: Em Novembro (e estávamos em Julho). (risos)…Ah, mas ele roubou o beijo e eu tinha um prato na mão que caiu e quebrou, de tão perturbada que fiquei. Mas, fui descontar meu beijo, ouviu!?

Roubou-lhe também um beijo?

Naaaãooo…Não lhe roubei um beijo, dei-lhe uma paulada. (risos)

Isto foi quando? No mesmo dia?

Dois dias depois. Ele estava em casa da mãe dele, que é minha prima – por conseguinte, eu e ele somos primos – ele estava deitado na cama, de calções.
Peguei de uma vassoura e dei-lhe uma paulada e desatei a correr da Rua do Ouro para a Praça Estrela (São Vicente). Ele veio atrás de mim, mas não me alcançou.

Vocês começaram a namorar quando?

Em 1961 em São Vicente, depois que ele voltou de Portugal, onde fez o serviço militar. Depois viemos para Santiago. Vim trabalhar em João Teves. Casámos a 31 de Dezembro de 1963.

O que mais lhe encantou no Oswaldo naquela época?

Ele sempre foi alto, tinha cabelo cheio e penteava-se com uma grande popa. Comparava-o ao Tony Curtis, ator norte-americano, popular nas décadas de 1950 e 1960.

Como tem sido ser esposa do  Oswaldo Osório?

Eu fiz um voto no altar: na riqueza e na pobreza (ainda não a vi, mas no dia em que a pobreza chegar estarei aqui “sakedu na kanela”). Na saúde e na doença: estou aqui a cumprir aquilo que prometi. E mais: amá-lo até que a morte nos separe. O nosso casamento já dura há mais de 50 anos porque o alicerce do nosso amor é Jesus. Este é o segredo. Podem vir tempestades que vierem, mas suportamos porque nos momentos difíceis Deus está pronto para nos ajudar. Ele não nos desampara e nem nos abandona porque confiamos nele.

  A senhora é religiosa.
Muito mesmo. Desde criança. Sou nazarena e aprendi a sê-lo com a minha avó Júlia Vilhena Alice Tourinho.

Como é o Oswaldo Osório esposo?

Ele tem cumprido o seu papel de esposo. É atento a tudo e parece que agora que ficou cego ficou mais atento e preocupado comigo. Como esposo é dedicado, amigo e é de uma amizade incondicional.

Era um traquinas também?

Conversa Viva: Dinah, os olhos e as mãos do poeta
Foto: Vlad Delgado créditos: Vlad Delgado

(risos) Traquinas sim…ele fez tantas traquinices…gostava de pregar sustos à mãe e implicava com as empregadas. Por exemplo, certa vez, ao meio dia, ficou escondido e jogava pedrinhas às empregadas. Elas, todas supersticiosas, benziam-se, com medo. Um belo dia vestiu-se de fantasma e foi espantar a empregada na cozinha. Ela estava a fritar qualquer coisa e por pouco não lhe dava com a frigideira quente.

Conte-nos um pouco este processo do Oswaldo ter perdido a visão e de como a Dinah se transformou nos seus olhos e nas suas mãos.

A cegueira dele é hereditária: o pai e a mãe sofriam de glaucoma. O Oswaldo demorou a tratar-se. Mas, temos a presença de Deus. O Oswaldo sempre diz “aquele que me tem nessa escuridão é que me ilumina o interior”.

Como tem sido esta nova fase da sua vida de…

ESCRIVÃ… (risos) eu faço com muito gosto (e paciência!!! exclamou Oswaldo Osório da sua  poltrona).  Paciência é coisa que Deus me deu porque trabalhei com crianças da préprimária, primeira, segunda e terceira classes. Ele dita o que tem na mente. Ele elabora tudo mentalmente e depois dita-me. E quando ele já tem algo elaborado mentalmente eu já sei, eu o conheço lá na “kapela d´odju”. E quando ele quer “ler”, eu leio algum trecho de um livro que ele escolhe  ou alguma notícia no jornal. Há algo muito especial com o Oswaldo: eu leio-lhe um artigo e três ou quatro dias depois ele quer voltar ao artigo e dizme “vai à página tal, ao parágrafo tal que começa assim e leia-me”. Agora ele tem uma memória espacial. E também ele está a ouvir que nem elefante. (risos)

Desse processo de ser escrivã, qual tem sido a experiência mais gratificante?

O mais gratificante é que vou aprendendo mais e vou aperfeiçoando aquilo que eu já sabia. E aquilo que eu não sabia eu aprendo com ele. Quanto à escrita, como tenho caligrafia pedagógica, é um tempo para eu aperfeiçoar. É tudo escrito à mão e a lápis. Só depois é que passamos tudo para o computador. Além disso, temos um horário de trabalho. E não assumo nenhum outro compromisso nesse horário. Fazemos a devoção antes de começar e entramos na presença do Senhor para ficarmos com o canal desimpedido com Deus, para podermos vencer as dificuldades que aparecem durante o dia. Depois da devoção ele tem sempre alguma coisa para “ler”. Quando é um livro novo, vou aprendendo coisas interessantes. Já sei tanta coisa: leitura horizontal, orelha, prólogo, síntese…Deus assim o quis, faço com vontade e peço a Ele que me dê maior esclarecimento a cada dia que passa, para poder ajudar o Oswaldo nesta fase terrível.

Vocês têm um horário disciplinado. Trabalham todos os dias?

Sim, todos os dias. O nosso horário é depois das 10. O horário dele começa bem cedo. Hoje em dia já não tenho a preocupação de me levantar cedo para ir trabalhar e vou ficando um bocadinho mais na cama. De repente vou sentindo um cheiro agradável!!! Ele já se levantou e já pôs uma fruta, toda cortadinha, num pratinho, para mim. Ele faz isso religiosamente todos os dias.

Ganhou um marido muito mais cuidadoso…
Siiiimmmm…

Perguntamos  ao Oswaldo Osório que assiste a entrevista: como consegue fazer tudo isso sem ter visão?

É que sempre fui cuidadoso, meticuloso. Eu sempre sei onde está cada coisa. Isso foi bom, como se tivesse antecipado o que me viria a acontecer. Se precisar beber uma água vou lá e bebo. Se precisar da minha toalha, eu sei onde ela está. Sempre fui arrumado e metódico. Eu não dependo da Armandina para fazer as coisas. Armandina responde: eu sou apenas 5%.

Oswaldo: isso não. Muito mais. Só na leitura e na escrita é que eu sou totalmente dependente dela. Mas, ela é incansável. Nunca diz não. Talvez para não me desanimar.

Conte-nos um episódio interessante do poeta ou do esposo.

Quando ele estava a trabalhar, ainda no vigor da vida, (ele sempre foi disciplinado) mas havia momentos em que ele se tornava indisciplinado, saiu de casa numa sexta-feira e foi divertirse com alguns amigos. Sábado era feriado. Ele não regressou a casa nesse dia, nem no sábado, nem no domingo. Regressou na segunda-feira cedo com alguns amigos. Quando ouvi o carro parar, eu já tinha pronta uma lista de coisas para lhe chamar a atenção sobre os 3 dias sem aparecer em casa. Mas, quando ele chegou, esqueci-me de tudo. Agradeci a Deus por ele ter chegado. Voltei-me para ele e disse-lhe: um bom funcionário não deve faltar, sobretudo na segunda-feira. Ele foi para a casa de banho e disse-me “esta roupa é para ser queimada”. Enquanto tomava banho, preparei-lhe um bom café com um Bovril, que existia antigamente.  Ele ali sentado à mesa e eu a olhar para ele. Cantarolei: “tu não prestas, mas eu te amo” – letra de uma das músicas em moda nessa altura. Ele respondeu com a letra de uma outra canção também na moda: “eu não sou aquele que julgas, sou outro alguém”.

Um outro facto é que ele foi seminarista nazareno.

Conte-nos também um pouco desta fase de o Oswaldo estar a preparar um novo livro e a senhora ser a tal escrivã.

Ele está a escrever dois livros: um de prosa e outro de poesias. A prosa irá chamar-se “Monólogo do Mar, da Morte e da Morna” e começamos a escrevê-lo a 19 de Setembro de 2016. Será uma trilogia a partir de “As Ilhas do Meio do Mundo”. Ele vai ditando e eu vou anotando tudo a lápis no caderninho.

Conversa Viva: Dinah, os olhos e as mãos do poeta
Foto: Vlad Delgado créditos: Vlad Delgado

Nota: Bovril é um extrato salgado de carne de vaca. Uma colherada vertida em água quente dá origem a uma bebida saborosa.

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