Dúdu Araújo (Eduíno Teixeira Araújo) é natural da ilha de São Vicente e vive há 25 anos fora de Cabo Verde.

Numa das passagens pela terra e numa conversa viva descontraída, quisemos saber mais quem é este artista que tem vindo a prestigiar a nossa música.

Dúdu, como surgiu a ideia de emigrar mesmo tendo uma grande paixão pela terra?

A minha família já vivia há muitos anos no Canadá e, depois de várias tentativas de me levarem, eis que surge uma altura em que houve muito fluxo emigratório para os Estados Unidos de América e, em simultâneo, surgiu também a oportunidade de, através de um contrato, ir actuar neste país. Encontrei lá alguns músicos como Biús, Jambenz, senti-me em casa e acabei por ficar lá. Dos EUA segui para o Canadá.

O gosto pela música vem de onde?

Talvez a minha paixão pela música tenha surgido do facto de, em São Vicente, viver rodeado de pessoas que tinham muito a ver com a música. Estou a falar do Voginha, Bau, Tito Paris, Toy Lopes, Jorge, ou seja, eu vivia num círculo de músicos aonde o Ti Goi era o nosso representante. Éramos um grupo de 10 elementos com idade compreendida entre os 9 e os 12 anos de idade. Tito Paris era o mais novo. Foi a partir daí que começaram a dizer que eu tinha uma voz fabulosa e comparavam-me ao Bana. Inclusive, ainda hoje tenho alguns colegas de infância que me chamam de Bana. Foi assim que surgiu essa paixão e vontade de cantar.

E como foi que aprendeste a cantar? Frequentaste alguma escola?

Tocas algum instrumento musical? Não, não frequentei nenhuma escola de música. Aprendi a ouvir os outros a cantar, aprendi a pronunciar, a me situar na música e a ouvir grandes nomes da nossa música tais como Ildo Lobo, Bana e demais. Foram eles a minha escola. Toco um bocadinho de piano apenas em casa, o que me ajuda muito no meu trabalho.

No Canadá, dás muitos concertos?

No Canadá não muito, mas nos EUA sim, aqui faço pequenos concertos com frequência. O melhor concerto que eu dei no Canadá foi no Festival do Jazz de Montreal.

Como é a tua relação com Cabo Verde?

É muito difícil viver longe da terra, do nosso “torrão” que amamos muito, e torna-se mais complicado, particularmente durante a época do inverno, onde sinto muita melancolia, mas levo Cabo Verde sempre no meu coração. Venho aqui com frequência e consigo, desta forma, quebrar a melancolia e isso faz-me feliz.

Sentes-te acarinhado aqui em Cabo Verde? Em qual das ilhas sentes que és mais querido?

É difícil responder a esta pergunta, mas sinto-me muito acarinhado. Dizer em qual das ilhas me sinto mais querido é complicado porque no fundo todos me tratam bem, mas há uns anos atrás, quando havia aquela rivalidade entre Praia e São Vicente (até num bom sentido), e essa rivalidade trespassava para os grupos musicais (havia Tubarões, Bulimundo), e tornava a relação entre grupos e artistas mais difícil, isso causava-me um certo medo. Por exemplo, tive uma semana no grupo Bulimundo, mas quando o grupo se desfez e o Zequinha foi para o grupo Os Tubarões, o Katchás mandou-me buscar em São Vicente. Encontrava-me,  nessa altura, no grupo Grito de Mindelo e quando cheguei à Praia não me senti confortável como me sinto hoje. Fiquei apenas uma semana e regressei a São Vicente porque achava que me encontrava fora do meu ambiente. Olhando agora hoje para a Praia, sinto que me dão um carinho diferente do que aquilo que me davam antigamente. Sinto que sou acarinhado em todas as ilhas, graças a Deus.

Em que ano foste para o grupo Bulimundo?

Foi por volta de 1985 e foi por apenas uma semana. Pouca gente sabe dessa história. O Óscar foi quem veio me buscar. Infelizmente o projecto que o Katchás tinha, na altura, ficou pelo caminho devido ao acidente que acabou por lhe ceifar a vida. Fiquei sem lhe explicar porque regressei a São Vicente. Quando tudo isso aconteceu encontrava-me no Grito de Mindelo.

Fala-nos um pouco do Grito do Mindelo? Quem eram os seus membros do grupo? Mantiveste, enquanto estiveste na Praia, uma ligação com eles ou o grupo desfez-se?

O grupo não se desfez quando parti para a Praia. Os integrantes do grupo eram Nhone Lima, eu, Adriano, Nando Lopes, e depois entraram outros elementos como é o caso do Bau, Toy Santos, Homero Andrade, Humberto Ramos (que hoje vive em Portugal), Júlio Silva. Foram estes que passaram para o Grito de Mindelo na primeira fase, depois disto é que me surgiu o convite para o grupo Bulimundo.

Quantos discos já gravaste?

Já gravei 6 discos.

E nesses discos tens muitas músicas que falam ou fazem algum elogio à mulher cabo-verdiana?

Há sim e muitos. As músicas que eu gravo são de compositores que falam de tudo um pouco, e procuro sempre ter um repertório aonde posso abranger um pouco de tudo, mas as minhas músicas falam de mulher sim.

A nossa música tradicional fala muito da mulher.Sentes alguma diferença na forma como a figura da mulher é tratada nas composições antigas e nas actuais?

Realmente, antigamente nas músicas criticavam muito as mulheres, Sempre achei isso muito mau, porque há tanta coisa para se criticar como a justiça, a política, e outros. Nas composições actuais há mais elogios sobre as mulheres do que críticas.

De entre os diferentes compositores que temos com qual deles te sentes mais à vontade para cantar as suas músicas? E com qual te identificas mais?

A maior parte das músicas que já cantei é da autoria do Manuel de Novas, talvez porque o acesso a ele aqui em São Vicente era mais fácil. Hoje em dia identifico-me mais com Nhelas Spencer, Betú, e os novos compositores que estão a surgir como o caso de Calú de Basília.

Tens vindo a acompanhar essa nova geração de músicos que tem vindo a surgir?

Tenho vindo a acompanhar mas a maioria é no estilo tradicional. Os outros estilos nem tanto porque não os aprecio, não fazem parte de mim. Dizem que a nossa música tradicional é tão forte que não o fazem. Mas penso que não o fazem porque a música tradicional exige muito da pessoa, e então acabam por fazer o mais fácil que é os outros estilos de música que não sei qual a designação certa, se é Zouk ou Cabo Love, entre outros. Prefiro os compositores tradicionais que me dão mais garantias para fazer um trabalho em condições de ser ouvido para sempre.

Para quando um novo CD?

Estou a pensar para este verão e espero que venha conseguir, mas como é um trabalho que estou a fazer sozinho, ou seja, sou eu a produzi-lo, todas as despesas estão sobre a minha responsabilidade. Pode levar um certo tempo e não tenho uma data precisa mas penso que estará no mercado ainda neste ano 2015.

Quando lanças um disco preocupas-te com a questão da internet que permite o acesso fácil aos teus discos? Como é que é a rentabilidade de um CD?

O que me leva a lançar os meus discos é o amor que eu sinto pela música e quando assim é não espero que os discos sejam vendidos e que eu venha a ganhar dinheiro. Por isso a importância que dou aos concertos. Realço que quando  se é um produtor independente existem alguns factores a serem considerados. Não se deve pensar em ganhar dinheiro e ter fama logo em seguida, mas sim fazer isso simplesmente  por amor, base de um músico independente. Aqui em Cabo Verde os artistas são solicitados só quando têm um trabalho novo no mercado. Não concordo com isso, porque se um artista não tiver um disco novo no mercado não significa que ele não tenha qualidade.

Como é que lidas com a fama? Gostas de ser reconhecido na rua e de ser pedido autógrafo?

Lido com a fama de forma tranquila. Não tenho problemas a que cheguem perto de mim. Há dias na Baía, um amigo meu, que se encontrava  no meio de muita gente (e aqui muita gente conhece-me), passou e disse num tom de brincadeira “Dudu pedrinha de São Vicente”. Uma outra pessoa ouviu e ficou parada a ver-me com admiração. Em seguida foi ter comigo com toda a educação e perguntou-me  se podia fazer uma foto comigo. Disse que podia e achei isso interessante e bonito. Mas ser ou não ser famoso, não tem importância.

Dudu Araújo
Músico créditos: Redacção Sempre Viva

De todas as músicas que já cantaste e que não é pouca, existe alguma que te marcou mais ou à qual te sentes mais apegado?

Sim, existe. Apocalipse.

Queres falar um pouco do Apocalipse?

O Apocalipse começou assim: quando Bana mandou-me buscar para ir ficar na sua discoteca porque ele estava a regressar para Cabo Verde, havia uma cassete com muitas músicas do Manuel d’Novas. Ele escolheu as músicas para o CD da Gardénia e deu-me a cassete. Eu escolhi
as músicas para o meu disco que estava a produzir: “Nha Visão”. Escolhi “Tchal quete”, “Nha Visão”, “Apocalipse” e “Nhô Roque”. O Luís Morais iria produzir os dois discos, e quando entreguei-lhe o que eu tinha escolhido, ele retirou “Nhô Rock” do meu repertório. Não porque
achava que eu não poderia ou conseguisse interpretar essa composição, mas sim por achava que deveria ser o Bana a cantar “Nho Roque” como forma de homenagear este. Fiquei “Tchal Quete”, “Apocalipse” e “Nha Visão”. Mais tarde Bana veio a regravar “Nha Visão” que é uma morna muito bonita. Quando o Apocalipse estreou-se foi um grande sucesso, teve muita fama. Posteriormente o vídeo clip que o João Gomes veio realizar marcou-me muito. Cesária veio a gravar esta música depois.

A história dos grupos musicais em Cabo Verde, vemos essencialmente homens na execução de instrumentos musicais. Achas que a mulher ainda não conquistou espaço em grupos musicais enquanto instrumentistas?

Realmente é uma boa pergunta mas não sei se eu seria a pessoa ideal para respondê-la. Talvez elas sejam as mais indicadas para a responder.

Que avaliação fazes da mulher hoje em dia na música cabo-verdiana?

Se fizermos uma comparação com o passado, hoje há mais mulheres do que homens nesta área, falando claro mais
do aspecto tradicional do que comercial. É importante que elas continuem  a surgir porque fazem muita falta, e deste modo deixa-se de se dizer que só os homens é que fazem as coisas acontecerem.  Acho que elas têm vindo a conquistar  os seus lugares através de belas vozes.

Como é a relação com a tua mãe e qual a responsabilidade dela na tua carreira artística?

A minha mãe é a minha fã número um, contudo a minha infância não foi assim tão fácil porque o meu pai morreu quando eu tinha 6 anos e ficamos só nós os dois. Tínhamos que trabalhar pela vida, portanto foi difícil conciliar as duas coisas: estar em casa com ela e estar na música. Tudo era feito de forma minuciosa no tempo certo, ou seja, havia tempo para os estudos, tempo para os deveres domésticos, para sair, para jogar à bola, para brincar e, assim, tempo para a música era complicado. Mas a minha mãe sempre me apoiou.

Como uma criança órfã de pai, que conversas tinhas com a tua mãe? Conversavam de tudo?

Não, na altura não podia ter todo o tipo de assunto com a minha mãe, porque as conversas eram restritas, e além do mais a educação era rígida, mas sem mal trato.

Como foi a relação com o teu irmão?

O meu irmão emigrou muito cedo para ajudar a família, e a minha irmã também tinha emigrado para Angola, portanto fiquei sozinho, foi uma época muito difícil mas consegui superar.

Consideras que foste uma criança tranquila, obediente?

Sim eu era obediente e tranquilo. Não vivia muito à vontade quando criança porque a educação era muito rígida. Aprendi a fazer as lidas de casa porque não havia menina para fazer isso e eu e a minha mãe fazíamos tudo. Fazia doces, salgados para venda, e por vezes, algumas pessoas perguntavam-me  como aprendi a fazer essas coisas.

Qual é o doce em que és especialista?

Faço uma variedade de doces desde bolos e pastéis de milho e, modéstia à parte, faço como ninguém. As pessoas provam, gostam e perguntam quando faço novamente. Houve também uma altura em que a minha mãe me ensinou a fazer “cordão de rala”, porque ela pedia-me para fazer apenas o cordão pois depois ela iria fazer o resto. Assim aprendi a fazer “cordão de rala”

Hoje tens uma mulher e em casa vocês dividem as tarefas?

Dividimos as tarefas mas praticamente sou eu a fazer tudo.

Ela é cabo-verdiana? E vive aqui ou no Canadá?

Sim, ela é cabo-verdiana e encontra-se em Angola.

Filhos?

3 filhas. A mais velha tem 30 anos de idade e tenho 2
netos.

Como é que é morar numa casa rodeada de mulheres?

Na verdade sempre quis ter filho homem para poder colocar o nome do meu pai como homenagem, mas não foi possível. Apenas tenho netos rapazes, mas é interessante morar no meio de mulheres, apesar de existir momentos em que se afastam ou me afasto para poderem ter as conversas que pertencem ao universo delas.

Achas que a relação entre homem e mulher cabo- verdiana é muito diferente da relação homem / mulher canadiana?

Acho que a diferença existe sempre em qualquer parte do mundo porque as culturas são diferentes, mas acho que a mulher cabo-verdiana é muito sensível a muitas coisas como o caso do machismo que existe e continua a existir, embora em menor grau. Embora se elas não tomarem nenhuma posição em relação a isso, a situação vai-se tornar insustentável. Por exemplo, não consigo ver um marido a deixar a sua mulher ir tocar todas as noites num pub e isso pode se tornar num aspecto complicado para algumas culturas. Penso que em Cabo Verde as mulheres ainda continuam muito obedientes ao homem, não porque têm medo, mas sim por serem carinhosas.

Como caracterizas a mulher cabo-verdiana?

Elas são bonitas, bem-feitas, sempre alegres, diferentes e como dizia o B. Leza só o cabo-verdiano é que entende realmente o que é a mulher cabo-verdiana.

Em Cabo Verde ainda temos um longo caminho a percorrer em termos de igualdade e equidade do género. Que apreciação fazes? Achas que estamos bem?

Acho que não só em Cabo Verde como um pouco por toda a parte do mundo temos ainda por fazer, mas hoje já temos muitas mulheres na política, no empreendedorismo, e acho que é um processo que deve começar dentro de casa, dentro da relação marido e mulher, Só quando a mulher sair desse medo e da obediência perante o homem como marido, ela irá começar a fazer mais coisas. Seria bom que elas pudessem contar sempre com apoio dos seus parceiros porque quando sentem que têm apoio elas se sentem protegidas e terão mais liberdade de fazer mais e melhor, de se expressarem.  E enquanto isso não acontecer, irão continuar fechadas como sucede um pouco por toda parte do mundo.

Dudu Araújo
Musico créditos: Redacção Sempre Viva

Pensas deixar a emigração e regressar a Cabo Verde?

Isto é complicado, mas é claro que isso passa pela cabeça de qualquer emigrante e eu não fujo à regra. Contudo, morar em Cabo Verde pode levar ainda algum tempo para acontecer.

Uma mensagem para os leitores e leitoras da Sempre ViVa

Espero que as pessoas comecem a cultivar o acto da leitura, que deixem um pouco de lado os computadores, tabletes porque a leitura
de um livro é totalmente diferente de estar com diferentes dispositivos móveis na mão e é importante que as pessoas continuem  a ler especialmente a revista Sempre ViVa que tem vindo a trazer informações interessantes, e aproveito também  para desejar sucessos à
Revista.

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