Pinta com o fogo e com pólvora e o resultado é, na maioria das vezes, memorável. E já ganhou vários prémios. Ainda se lembra do fogo de artifício da abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim em 2008? O espetáculo grandioso foi pensado pelo artista chinês Cai Guo-Qiang, que gosta de brincar com o fogo. Pinta com ele e com pólvora, tal como utiliza explosivos em várias instalações no exterior, deixando atrás um rasto de fumo que o vento se encarrega de dispersar.

Estranho? Nem por isso, se pensarmos que muitas das obras que tem desenvolvido refletem o que se passa no mundo. Apesar de dizer que, em primeiro lugar, faz arte para si próprio e para expressar os seus sentimentos, se daí vier uma discussão de ideias tanto melhor. Contudo, quando começou, pintava apenas o que o fazia feliz e afirma que o facto de ter nascido em 1957 em Quanzhou, uma cidade aberta onde a pintura nunca serviu a política, foi decisivo para isso.

A sua arte, que pode ficar a conhecer na galeria de imagens que se segue, é assumidamente de intervenção. Fez a sua primeira obra com um caráter interventivo em 1989, cinco meses depois do massacre de Tianamen, quando construiu uma tenda semelhante à dos manifestantes carregada de pólvora e iluminada por fusíveis. Mas o que desencadeou as obras com explosivos durante o dia foi o 11 de setembro de 2001 em Nova Iorque, a cidade que escolheu para viver.

Até 12 de janeiro de 2020, algumas das últimas obras de Cai Guo-Qiang podem ser vistas no Solomon R. Guggenheim Museum, em Nova Iorque, numa exposição que também integra trabalhos artísticos de Paul Chan, Richard Prince, Julie Mehretu, Carrie Mae Weems e Jenny Holzer. Os traços distintivos e os originais métodos de criação que lhe deram fama voltam a sobressair. "Quando se usam explosivos à noite, tudo parece lindo e perfeito", explica o artista.

"As cidades, nessa altura, até parecem pouco reais mas, durante o dia, vê-se que existem realmente e que as pessoas vão a caminho do trabalho. Foi o que aconteceu no 11 de setembro [de 2001] e isso criou um impacto profundo em mim", chegou a admitiu Cai Guo-Qiang numa entrevista ao reputado jornal norte-americano The New York Times. Outra das suas caraterísticas, associada à sua experiência e ao seu país de origem, é desenhar animais.

"Quando era jovem, toda a arte que mostrava pessoas tinha como objetivo idealizar o socialismo. Por isso, desenvolvi uma aversão a desenhá-las", confessa. Numa fase inicial, começou por desenhar paisagens mas, quando começou a querer exprimir sentimentos, passou a usar também animais. As tartarugas, as cobras e os pássaros eram, nessa fase de descoberta dos primeiros tempos, os mais comuns. Mas o ataque às Torres Gémeas influenciou-o.

Arte feita a pólvora e fogo

Depois do atentado terrorista, surgiram animais mais ferozes. Nos seus trabalhos, apareceram leões, lobos e tigres. Cai Guo-Qiang usa-os em vários meios, na pintura, nas instalações, nos vídeos e nas performances que desenvolve e nunca passa despercebido. Nos últimos 20 anos, foram muitos os prémios que Guo-Quiang já recebeu, incluindo o Leão de Ouro na Bienal de Veneza de 1999 e o prestigiado Fukuoka Ajia Bunkasho, prémio que ganhou em 2009.

Cai Guo-Quiang nasceu em Quanzhou, na China, mas mudou-se para o Japão entre 1986 e 1995. Foi aí que começou a explorar a pólvora como material de pintura. Também foi distinguido com o Prémio de Design Cultural do Japão em 1995 e com o Prémio de Arte de Hiroshima em 2007. A sua primeira exposição a solo na China teve lugar no Museu de Arte de Xangai em 2002 e integrou um espetáculo explosivo em três atos sobre o rio Huangpu.

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