Natural do concelho de Santa Catarina de Santiago, Ângela Brito é uma estilista cabo-verdiana que faz sucesso na moda brasileira, tendo vestido várias celebridades brasileiras como Camila Pitanga, Taís Araújo e Zezé Motta.

Em entrevista ao SAPO, a estilista, que reside na cidade do Rio de Janeiro desde 1994, conta como começou o seu percurso, os desafios e como conseguiu se destacar na área da moda.

“Desde que me entendo como indivíduo a moda faz parte da minha vida. É a minha paixão desde criança. As minhas brincadeiras se davam em torno da máquina de costura da minha mãe, nas modelagens. Gostava de fazer roupas, mas não para as bonecas como geralmente as pessoas começam a tomar gosto pela costura, na infância. Até fazia uma ou outra para as bonecas das minhas irmãs, mas gostava mesmo de fazer roupas em miniatura, testar modelagens, assim como faço até hoje. Talvez isso tenha a ver com o fato de que a parte que menos me interessa na moda seja o comprar ou vestir em si”, conta e afirma que a moda lhe permite mais do que apenas vestir. “Permite-me expressar quem eu sou, o que penso e como vejo o mundo, que sempre foi algo muito complexo para mim”.

Sempre sonhou em fazer uma carreira na moda. Ao concluir o ensino secundário, queria concorrer para uma bolsa de estudos para estudar Moda, mas não foi possível pelo facto de Cabo Verde não ter um mercado nessa área, tendo optado por Engenharia de Telecomunicações.

Diz que fez alguns anos do curso na Universidade Federal Fluminense (UFF), mas não o concluiu, tendo mais tarde se formado na mesma área no Centro Federal de Educação Tecnológica (CEFET).

“Comecei a trabalhei na empresa EMBRATEL e depois na Globo na área tecnologia. Após 4 anos a trabalhar na Globo, em que paralelamente tinha investido em cursos de moda, pedi demissão para me dedicar exclusivamente à moda e a criação da minha marca”.

Surgimento da marca

Em 2014, Ângela Brito concretizou o sonho de adolescência e criou a sua própria marca que leva o seu nome e que tem como lema o diálogo entre a tradição e a vanguarda.

Questionada de onde vêm as suas principais inspirações, a estilista diz que das suas raízes cabo-verdianas. “Sou de uma família do interior da ilha de Santiago e muito ligada à tradição. Então cresci com isso, e são coisas que me inspiraram desde sempre: As roupas das minhas tias, dos meus avôs, a alfaiataria, o preto e branco, a austeridade, a sisudez, a rigidez das roupas que contrastava com a leveza das atitudes. Todas essas minhas lembranças estão completamente inseridas na minha marca. Trabalho muito sobre essas minhas lembranças afetivas que me levam para um lugar carregado de amor e tradição”.

A marca da cabo-verdiana prima pela sustentabilidade e é amiga do ambiente. “É uma marca que busca e preza muito pela sustentabilidade nos mínimos detalhes, que não polui o planeta e não produz excessos, que é um assunto que me preocupa muito por ter uma filha pequena. Queria acima de tudo trazer empoderamento para outras mulheres negras como eu. Inserir e mudar a imagem do negro na indústria da moda”, salienta e afirma que o principal desafio da marca é a parte financeira.

Camila Pitanga, Taís Araújo, Zezé Motta, Flávia Oliveira, Jéssica Ellen, Luiza Brasil e Luedji Luna são algumas das celebridades brasileiras que já usaram peças da cabo-verdiana.

Ângela Brito já apresentou as suas criações na Casa dos Criadores, que é o maior evento dedicado à moda autoral brasileira, no São Paulo Fashion Week (SPFW), que é o maior evento de moda do Brasil e o mais importante da América Latina.

Vender roupa na pandemia é realmente um desafio

Em abril deste ano, a cabo-verdiana ia voltar a marcar presença no SPFW, mas devido à pandemia da Covid-19 o evento foi cancelado. Em novembro, vai apresentar uma nova coleção na próxima edição do evento de moda.

Segundo a estilista, a moda é uma das áreas que mais sofreu com o impacto da Covid-19. “Todos estavam isolados em casa e ninguém pensava em vestir e passavam o dia de camisolas e chinelos. Então vender roupa na pandemia é realmente um desafio. Existem outras mudanças muito significativas, estamos a finalizar a coleção que vamos apresentar no SPFW e temos que trabalhar com a equipa toda por reuniões online. Isso é extremamente complicado já que estamos muito habituados ao dia a dia do atelier e a moda é uma área muito palpável. Acompanhar a pilotagem das peças remotamente, com as modelistas e as costureiras, tem sido uma verdadeira experiência”, afirma.

Destaque na Vogue Brasil, uma das maiores emoções da carreira

As criações da marca Ângela Brito já foram destaque em várias revistas brasileiras entre as quais Elle, Marie Claire, Bazaar e, mais recentemente, na Vogue.

“Ver uma das minhas peças na capa da Vogue Brasil foi incrível. Isso foi uma das coisas que, realmente, não imaginaria na vida, embora sonhasse com isso. Vogue é a bíblia da moda, uma das revistas de moda mais antigas e mais importantes do mundo, então é uma honra. Mas é aquela coisa que uma pessoa sonha e esquece. Foi uma das maiores emoções que já tive na minha carreira, e volto a salientar que recebo com uma gratidão imensa. Agradeço a Deus e ao Universo por tudo que está a acontecer”, salienta.

No que se refere a projetos para o futuro, apesar de não ser uma pessoa que faça muitos planos, a estilista diz que tem alguns sonhos ainda por concretizar. “Já realizei alguns, o que é um motivo de gratidão diária. Como a moda é uma área que exige muita dedicação, então nunca fiz muitos planos, e nem crio muitas expectativas para o futuro, as minhas expectativas são postas todas no trabalho de hoje, sou do agora, faço o que tenho para fazer naquele dia e o futuro a Deus pertence”, diz e afirma que sempre teve esperança e dedicou muito. “Sempre que posso estou a estudar, a experimentar, a testar e a aprimorar a minha forma de fazer moda”.

Questionada se pretende um dia regressar a Cabo Verde e apostar neste ramo, Ângela diz que sim. “É um sonho poder contribuir de alguma forma para a estruturação e crescimento desse mercado no arquipélago. Não sei se para imediato, mas é um plano para o futuro. Acho muito importante, porque na minha época eu não tive oportunidade de sair e cursar o curso que eu desejava por falta desse mercado estabelecido para o qual eu pudesse voltar e trabalhar. É importante que os jovens tenham essa possibilidade de poder sair para fazer uma formação nessa área, caso seja seu sonho, e possa voltar para trabalhar em Cabo Verde”, conclui.

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