Escreve poemas desde criança, ajudou a fundar o primeiro grupo de circo do país – Enigma, formou-se em psicologia pela Southwest University na China e agora preparar-se para se estrear como autora com a obra “Amor, Arte de Viver”. Alisa Andrade Lopes tem 26 anos e é uma praiense que encontrou na arte a sua verdadeira vocação.

Estudou na Escola Secundária Pedro Gomes, na cidade da Praia, e conciliava os estudos com o circo. “Sou uma das fundadoras do grupo Enigma. Fizemos vários shows em todas as ilhas e depois fizemos uma apresentação em França”, conta.

Um ano após concluir os estudos secundários, surgiu, em 2013, um convite para ir estudar na China e Alisa encarou-o como uma oportunidade de conhecer mais sobre a arte e a cultura chinesa, que sempre a encantou.

A jovem conta que o primeiro ano neste país asiático foi um “choque cultural”, mas hoje diz que foi a melhor escolha que fez. “Fui estudar Psicologia e ganhei muito mais. O primeiro ano foi um processo doloroso e assustador porque tive que aprender o mandarim. Mas hoje vejo que foi bastante gratificante, uma vez que, falo uma das línguas mais difíceis do mundo”.

Alisa estudou Psicologia em Chongqing, na quarta maior cidade da China, onde acabou por ter contacto direto com a arte chinesa. “Fiz aulas de Kung Fu, que foi a forma mais fácil que encontrei para aprender o mandarim. Depois encontrei uma escola de circo que amenizou as saudades que tinha de casa”, conta e acrescenta que fez um show na sua universidade que foi transmitido na televisão de China, CCTV.

Formar-se em Psicologia na China não foi fácil para esta jovem. “A Psicologia em si é bastante difícil e quando o curso é numa outra língua torna-se ainda mais complicado. Então, tive que encontrar uma forma para relaxar a mente para poder aprender. A arte foi a minha saída. Escrever poemas, fazer os meus treinos de circo, Kung Fu e capoeira, foi o que sempre me deu força”.

Em 2018, ao concluir os estudos na China, Alisa viajou para a cidade do Rio de Janeiro, no Brasil, onde fez um estágio de 2 meses na área de Psicologia. “Trabalhei diretamente com as duas coisas que mais gosto – circo e Psicologia. Fazia parte de um programa de circo social da escola Crescer e Viver, que trabalhava com crianças de favelas que passaram por vários traumas psicológicos”.

Durante a sua estádia no Brasil, a jovem participou num festival de circo na cidade de São Paulo.

Regressou em agosto de 2018 para Cabo Verde e durante três meses deu palestras em várias comunidades e associações. De seguida, procurou ajuda para lançar um  livro, não consegui e viajou para Portugal determinada em realizar o sonho.

“Nem a minha mãe acreditou que estava a escrever um livro”

Alisa Lopes escreve poemas desde criança e aos 13 anos a sua escrita começou a chamar atenção de outras pessoas. “Os meus colegas pediam-me para lhes escrever poemas para amigas, namorados, etc. e gostava de o fazer”.

Recorda que aos 16 anos escreveu um poema de amor intitulado “Do que adianta” que mostrou para um primo que ao ler não acreditou que tivesse sido a Alisa a escrever. “Fiquei com receio de mostrar os meus poemas às pessoas porque não acreditavam no meu talento. Nem a minha mãe acreditou que estava a escrever um livro”.

Hoje aos 26 anos, Alisa prepara-se para lançar o primeiro livro de poesia: “Amor, Arte de Viver”.

“A ideia de escrever um livro foi graças ao meu amigo Adriel Pires que sempre deu-me forças para escrever poemas e reconheceu o meu talento. Mas o incentivo mesmo veio de uma pessoa que estava a enfrentar uma depressão. Ela disse-me que as minhas palavras tinham o poder de ajudar as pessoas, então tinha de partilhar a minha arte”.

A obra tem 236 páginas e contém cerca de 120 poemas escritos desde os 13 aos 24 anos. A edição foi da própria autora. “Levei dois anos a selecionar todos os poemas, a dividir os capítulos e a escolher o nome”.

Segundo a autora, “Amor, Arte de Viver” retrata temas da Psicologia de uma forma poética e numa linguagem menos técnica. “O livro está baseado na busca do amor-próprio, do amor à vida e ao ser humano. Por isso a escolha desse nome”.

O livro imprimido pela gráfica portuguesa Soartes será lançado em meados deste mês (fevereiro) na cidade da Praia, seguido das cidades do Porto e Lisboa, em Portugal. “Até ao lançamento vou lançar vídeos de poemas da obra na minha página no Facebook e no Instagram”.

Até ao final do ano, Alisa ambiciona fazer uma versão em inglês do livro e pretende escrever mais livros. “Tenho material para três obras”.

“Amor, Arte de Viver” é o primeiro livro de poemas de Alisa, mas a jovem já colaborou com outros autores como é o caso do escritor brasileiro Artur Moura e o angolano Hortênsio Cassemene. “Em 2017 participei num encontro de autores do mundo no Brasil, onde apresentei dois poemas”.

A música é outra das suas paixões. “Escrevo músicas. Talvez no futuro posso viver a cantar” (risos). Já tenho duas músicas gravadas com os artistas M4, que é um rapper cabo-verdiano que vai lançar o seu EP este ano, e com a cantora de Macaronésia Michelle Masiwemal, que conheci na China. Michelle também é uma das pessoas que sempre acreditou em mim e incentivou-me a escrever”.

Questionada sobre como vê a literatura cabo-verdiana, Alisa diz que o país tem grandes escritores, mas que é preciso dar oportunidade aos que estão a surgir. “Temos tantos jovens com talento que precisam apenas de uma oportunidade. As editoras pedem experiência, mas só temos a nossa obra”, conclui.

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