O movimento do Ecofeminismo em Cabo Verde surgiu em abril de 2019 pela mão de um grupo de jovens mulheres cabo-verdianas, primeiramente na cidade da Praia, em Santiago, e depois noutros pontos do país nomeadamente São Vicente, Sal e Boa Vista.

No total 15 mulheres integram o movimento do Ecofeminismo no país, sendo que 8 estão na cidade da Praia. Com idades compreendidas entre os 24 e os 35 anos, têm formação em diversas áreas, mas partilham a mesma “preocupação com a ecologia e a representação da mulher nas diferentes esferas de tomada de decisão”.

A maior preocupação do movimento é engajar mais jovens no debate sobre a representatividade da mulher ao centralizar o foco da discussão na relação entre as mudanças climáticas e a mulher.

“Estudos indicam que a mulher é a que menos contribui para a emissão de gases poluentes e a que menos polui, entretanto, a mulher é a que menos tem visibilidade na questão das mudanças climáticas”, diz Gisseila Garcia, uma das coordenadoras do Ecofeminismo em Cabo Verde, e explica que o movimento pretende também debater o papel da mulher e o meio ambiente em Cabo Verde.

A representante do coletivo diz que se trata de um grupo aberto e em abril querem começar a angariar novos membros. Desengane-se quem considera que este movimento é exclusivamente para mulheres. Os homens são também bem-vindos. “O nosso foco são as mulheres, mas queremos trazer os homens para o debate, bem como discutir a masculinidade positiva também”.

Desde a sua criação tem promovido várias atividades, com destaque para um ciclo de debates mensais no Palácio da Cultura, na cidade Praia, com temas como a ecologia, a saúde da mulher, entre outos.

Paralelamente promoveram outras atividades como plantação de árvores, campanhas ecológicas como a “Zero waste”(Desperdício Zero), etc.. Segundo Gisseila Garcia, o movimento ambiciona estender as suas atividades, que até então tem estado divididas entre São Vicente e Santiago, ao nível nacional.

A ambição do movimento é que 2020 seja um ano mais prático depois de 2019 ter sido marcado pelos debates. “Queremos estar mais próximos da população e trabalhar para a mudança de paradigma”.

Até então o movimento tem sido financiado com fundos próprios, contudo principalmente as deslocações para as outras ilhas tem sido uma das suas limitações. Gisseila Garcia adianta que algumas associações já entraram em contacto com o movimento para estabelecer parcerias. A possibilidade de começar a cobrar quotas aos novos membros é outra opção da organização.

Gisseila Garcia de 29 anos é uma das coordenadoras do movimento e atualmente está a fazer um doutoramento em Saúde Pública no Brasil.

Projeto “Horta Nha Kaza”

Depois de um debate sobre a agricultura urbana começaram o ano com o projeto “Horta Nha Kaza”, um projeto de hortas comunitárias, que arrancou com a fase piloto com 5 mulheres no bairro de Calabaceira, na cidade da Praia.

“Demos workshop para fazer uma horta diferente com um canteiro sustentável que gasta pouca água e que pode ser regado de 15 em 15 dias”.

O objetivo é fomentar a agricultura urbana e mostrar que no meio urbano é possível plantar e comer hortaliças e legumes.

No âmbito do mês da mulher, o movimento quer descentralizar as atividades comemorativas e dar visibilidade às mulheres rurais porque “acreditam que elas são as principais protagonistas da questão da segurança alimentar e da preservação do meio ambiente”. Um dos concelhos abrangidos é o de São Lourenço dos Órgãos, em Santiago. “Queremos dar voz às mulheres”, conclui.

Com o ano dividido em grandes temas trimestrais, o segundo trimestre de 2020 é dedicado ao tema “Mulher e Ecologia” com a abordagem de questões como a justiça climática e o papel da mulher na tomada da decisão. A humanização na assistência ao parto é outro tema a ser discutido.

Principais desafios das mulheres

No que diz respeito à Lei da Paridade, apesar de reconhecer a importância da lei, a representante do movimento defende que é necessário agora fazer um trabalho com as bases e promover debates junto da comunidade.

Ecofeminismo
créditos: Facebook A Mulher Caboverdiana e as Mudanças Climáticas

“A lei foi aprovada, mas há ainda uma maior prevalência de homens nas posições estratégicas de tomada de decisão. Então temos de fazer essa sensibilização para que as mulheres também tenham vontade de ocupar esses espaços, para que tenham a representatividade desejada e incentivem o debate de assuntos ligados diretamente à mulher”.

Segundo Gisseila Garcia do que o movimento tem constatado no terreno, a questão da invisibilidade e da autoestima é transversal a todos os sectores. “Principalmente nas mulheres rurais, existe o estigma de que o trabalho do escritório é mais importante do que o do meio rural. Queremos mostrar que não, que ambos são importantes e merecem a devida atenção”.

Tendo em conta a condição de país insular e a sua localização geográfica, Cabo Verde é diretamente afetado pelas mudanças climáticas e Gisseila Garcia defende que a mudança de comportamentos só vai acontecer com a mudança de mentalidades. “A população precisa ser educada para a mitigação das alterações climáticas e da resiliência ambiental”.

Fala em concreto da seca e defende que a população não pode esperar pela chuva. “Por exemplo, (é preciso) começar com a cultura de fazer pequenos plantios de hortaliças e legumes em casa, de racionalizar a água e outras atividades como a reutilização e a reciclagem”.

A jovem partilha da ideia de que as mulheres são as que acabam por sofrer mais as consequências das mudanças climáticas e argumenta: “As mulheres são as que trabalham diretamente com a agricultura, são elas que alimentam os homens e as crianças, são elas que vem vender os produtos agrícolas no mercado e com a seca já não têm os recursos que tinham e são assim as principais atingidas (pela seca)”.

O Ecofeminismo surgiu mundialmente por volta da década de 1970 e é um movimento que une o feminismo com a ecologia.

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