"Ótimo, maravilhosa!", incentiva o fotógrafo, enquanto Helena, prestes a completar 80 anos, a 23 de dezembro, encara, confiante, a câmara num armazém remodelado em São Paulo.

Após décadas a trabalhar numa tecelagem, a flexível e ativa Helena deixou a reforma há mais de dois anos para se dedicar à missão de resgatar as mulheres mais velhas da invisibilidade.

A sua estratégia? Uma moda sexy, criada especialmente para elas e exibida por si.

"Este projeto tem um propósito: tirar as mulheres da invisibilidade", explica Helena à AFP, no seu apartamento elegantemente decorado na maior cidade do país.

Lançou várias coleções de roupas íntimas com a brasileira Recco Lingerie. Uma linha desportiva, em conjunto com a marca Alto Giro, foi lançada este ano e muito ainda está para vir, diz ela.

Helena, que ajuda no desenho das peças, diz que as brasileiras com mais de 60 anos costumam ser negligenciadas por empresas de moda, pela sociedade e até por elas mesmas.

Partilha palavras de estímulo na sua conta de Instagram, que tem cerca de 18.000 seguidores, a maioria são mulheres de todas as idades.

Mensagens como "arrisque-se" e "você pode tudo" inundam o seu feed, que recebe centenas, às vezes milhares de gostos e comentários.

"Eu nunca pensei em quantos anos tenho, isso nunca me incomodou", diz Helena, que considera uma loucura a popularidade da cirurgia plástica no Brasil.

"Há muito pouco tempo, eu descobri que não tenho mais 33 [anos]", complementa.

Filha de imigrantes polacos, Helena Schargel começou a fazer roupas na adolescência e vendia-as na confecção dos pais.

créditos: Miguel SCHINCARIOL / AFP

Foi o começo de toda uma vida a trabalhar com moda. A meio do caminho, casou-se duas vezes e teve dois filhos. Agora, tem cinco netos, e algumas vestem as suas roupas.

A quase octagenária, que se movimenta com a agilidade de alguém décadas mais jovem, não se habituou à reforma.

"Eu agradeço a Deus, não preciso de fazer ginástica", diz ela, enquanto ri, sentada numa cadeira, vestindo uns leggings pretos e brancos, uma blusa ampla a combinar e ténis.

"Eu faço pilates três vezes por semana. Faz-me bem e à minha alma", acrescenta.

'Absurdamente confortável'

A decisão de Schargel de desfilar em lingerie é ousada num país machista, onde as mulheres mais velhas são tratadas como se não estivessem mais vivas, explica à AFP a editora-chefe da Vogue Brazil Paula Merlo.

"Ela faz-nos lembrar que há vida depois dos 60, 70 e que pode ser sexy, ainda pode ser divertida e também rentável", acrescentou.

Depois de um pouco de frio na barriga, Helena diz sentir-se confortável a usar lingerie em público.

Determinada a aparecer o mais natural possível, insiste que as suas fotos não sejam retocadas.

"Eu digo sempre: por favor, deixem todas as rugas a que tenho direito. São muito importantes. Mostram que cheguei aqui e agora", disse.

Na sua longa sessão de fotos, Helena alterna, descalça, entre o balneário e o estúdio, exibindo roupas íntimas e peças da sua nova coleção de pijamas para usar na rua.

Move-se com facilidade em frente à câmara, enquanto o fotógrafo Pablo Saborido tira as fotos.

"Eu gosto muito de trabalhar com pessoas que saem um pouco do perfil de modelo", diz Saborido, de 39 anos.

Helena diz que as suas lingeries são "absurdamente confortáveis". Algumas peças "ajudam a levantar o rabo", acrescenta, atrevida.

À medida que a população global envelhece, Helena diz que o mundo precisa de se preparar para a explosão de idosas nas próximas décadas.

"O mundo está a ficar cheio de pessoas mais velhas. Daqui a 20 ou 30 anos, vão existir muito mais avós do que jovens", diz ela.

"Precisamos de nos preparar para isso. As empresas precisam de se preparar para isso", acrescentou.

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