Não é difícil perceber quando estamos perante um comportamento aditivo e são milhares os portugueses que os evidenciam. São vários os sinais que, se estivermos atentos, nos ajudam a identificar a presença de uma adição ou de uma compulsão. O diagnóstico é, por norma, confirmado com base na frequência e na intensidade do comportamento, mas também através da análise do impacto que esse mesmo comportamento tem nas diferentes esferas da vida.

Podemos estar perante uma adição quando "o comportamento é cada vez mais frequente, nomeadamente quando passa a ocupar progressivamente mais tempo no dia a dia da pessoa, ao ponto de a levar a negligenciar outras tarefas, como a interromper o trabalho ou, no caso dos mais jovens, ainda estudantes, a estudar menos", indica Maria Veludo Chai, psiquiatra. Há duas atitudes que confirmam o diagnóstico de uma adição. Uma delas é "o hiperfoco", descreve a especialista.

O hiperfoco deteta-se "quando o comportamento em causa passa a ser uma grande prioridade", refere. A compulsão, a segunda atitute apontada pela profissional de saúde, surge "quando há uma vontade enorme de repetir o comportamento, a qualquer hora do dia e a qualquer momento", acrescenta ainda a especialista. Outro sinal frequente é a inversão de prioridades. "Nos comportamentos aditivos, o objeto de adição torna-se a centralidade da vida dos indivíduos, enquanto que outros comportamentos essenciais para o bem-estar e qualidade de vida, como o investimento familiar, social e ocupacional, passam a ser secundarizados", diz Marco Torrado.

Os efeitos da adição no cérebro são conhecidos e estão hoje bem documentados. O gânglio basal é um dos órgãos afetados. "Faz parte do circuito do prazer. As substâncias que causam dependência levam os neurónios a libertarem neurotransmissores como a dopamina que ativa a sub-região basal do gânglio basal, chamada de núcleo accumbens", esclarece o psicólogo clínico. "A dopamina que é libertada estimula igualmente a região dorsal do estriado", acrescenta ainda o especialista.

Esta é "a área do cérebro que está relacionada com a aprendizagem e com a consolidação de hábitos e comportamentos", esclarece Marco Torrado. "A amígdala é o centro do stresse, da ansiedade e da irritabilidade", informa o médico. "Perante a privação de uma substância ou abstinência, os neurotransmissores geram a libertação de corticotropina, causando uma sensação intensa e negativa no indivíduo", refere ainda o psicólogo clínico. O córtex pré-frontal é outra das áreas que são, por norma, atingidas. "O córtex pré-frontal que é responsável pelas decisões, controlo dos impulsos e emoções, também é afetado", alerta este profissional.

"Nos adictos, o neurotransmissor glutamato está aumentado, o que altera a forma como a dopamina afeta esta região, incentivando o consumo", sublinha. A longo prazo, são vários os efeitos. "As áreas pré-frontais do córtex são as que apresentam um maior comprometimento a médio e longo prazo, o que interfere significativamente com a capacidade de os indivíduos tomarem decisões mais saudáveis e adaptativas nas várias esferas da sua vida", acrescenta ainda Marco Torrado.

Qual é a sua probabilidade de desenvolver uma adição?

Existem vários fatores de risco que contribuem para o desenvolvimento de um comportamento aditivo que são comuns a praticamente todos os casos de adição. Fique, de seguida, a saber quais:

- Genética

Investigações internacionais têm sugerido que as variáveis genéticas têm um peso de cerca de 50% no risco de desenvolver uma adição. A psiquiatra Maria Veludo Chai confirma que a predisposição genética tem um papel importante no desenvolvimento de várias adições. Na adição do álcool, por exemplo, "existem padrões familiares de consumo e dependência que se mantêm ao longo de várias gerações", exemplifica a especialista.

No caso do tabagismo, o ato de começar a fumar é determinado pelo comportamento social. No entanto, "os fatores genéticos podem desempenhar um papel significativo em definir quem continua a fumar, se essa experiência passa de uma experiência isolada a um vício regular", indica Cepeda Ribeiro, pneumologista.

Já as adições mais recentes, como a utilização das redes sociais e/ou dos jogos online, os casinos virtuais e as compras realizadas pela internet, estão menos estudadas, pelo que continuam a ser muitas as dúvidas. A influência da predisposição genética e da hereditariedade, nestes casos, ainda é pouco conhecida, apesar de serem muitas as teorias que têm vindo a ser avançadas ao longo das últimas décadas, muitas delas nesse sentido.

- Ambiente familiar e social

É outra das causas apontadas pelos especialistas. "A qualidade das relações sociais e familiares, desde os primeiros anos de vida, é um fator determinante na maturação cerebral e na regulação dos circuitos implicados na gestão das emoções. Por outro lado, os contextos sociais moldam os padrões de interação da pessoa com o meio. Se estes forem gratificantes, a pessoa irá desenvolver uma imagem de si mais positiva, com maiores sentimentos de autoeficácia", refere Marco Torrado.

"Maiores sentimentos de autoeficácia e de reconhecimento das suas competências, a nível pessoal, escolar e social, entre outras", acrescenta ainda o psicólogo clínico, explicando que "todas estas variáveis, essenciais ao bem-estar pessoal, a par de características neurobiológicas, podem influenciar a relação que uma pessoa, numa determinada fase do seu ciclo de vida, estabelece com determinados objetos aditivos". De acordo com o especialista, "esta relação poderá ser transitória, de experimentação ou poderá tornar-se mais patológica e dependente", diz. No caso da dependência tabágica, fatores comportamentais, sociais e ambientais são não só muito importantes como decisivos.

"São essenciais para o desenvolvimento e para a manutenção da dependência, nomeadamente a atitude e o comportamento de amigos e familiares", refere Cepeda Ribeiro. "Os filhos de pais fumadores têm uma maior probabilidade de se tornarem fumadores no futuro, do que os filhos de pais não fumadores. A pressão do grupo a que o jovem pertence e a tentativa de se identificar com ele, sinal de afirmação e de autonomia, também contribui para o início do tabagismo", aponta.

Como saber se tem uma personalidade aditiva

Nem sempre é fácil de identificar. "Certos tipos de temperamento mais instáveis, elevados níveis de impulsividade e dificuldades acentuadas de identificar e expressar emoções, são características que estão mais associadas ao desenvolvimento de perturbações aditivas", sublinha o psicólogo clínico Marco Torrado. Por outro lado, as pessoas com uma determinada adição têm, por norma, tendência para desenvolver outras adições em simultâneo.

"As diferentes adições têm uma expressão neurobiológica similar, caracterizada por disfunções ao nível dos centros do prazer e dos circuitos e regiões implicados nas tomadas de decisão, o que se repercute numa maior vulnerabilidade para o desenvolvimento de outras perturbações aditivas", acrescenta ainda o especialista, habituado a lidar com o problema, que afeta milhões de pessoas em todo o mundo, ao longo da sua vida profissional.

3 sinais neurobiológicos da adição

Há, segundo Marco Torrado, psicólogo clínico, sinais de natureza psicológica com uma expressão neurobiológica comum a vários tipos de adições. Aprenda a identificá-los:

1. Esforços malsucedidos para diminuir ou parar o contacto com o objeto aditivo

2. Craving, fortes impulsos para contactar com o objeto aditivo com regularidade

3. Mal-estar muito marcado face à impossibilidade de contactar com o objeto aditivo, acompanhado da necessidade de aumentar gradualmente este contacto para obter o efeito desejado.

3 regras para um tratamento eficaz

O tratamento das adições, quer sejam de substâncias, quer sejam comportamentais, requer sempre uma abordagem clínica integrada. Estas são algumas das estratégias em que os especialistas mais apostam:

1. Ressocialização e novas rotinas

É essencial logo desde a fase inicial da abordagem médica. "O tratamento deve ajudar a que o comportamento dependente passe a ser secundário a outros comportamentos mais adaptativos. É fundamental estabelecer novas rotinas de ocupação e de trabalho, de valorização e de apoio à família e de contacto com amigos, bem como de retoma de hábitos de desporto e de estilos de vida saudáveis", alerta o psicólogo clínico Marco Torrado.

2. Acompanhamento permanente

É outro dos processos a empreender. "Esta abordagem requer um seguimento continuado, de natureza psicoterapêutica e, em função de determinados critérios, com a prescrição de psicofármacos, nomeadamente através de programas de substituição opiácea", refere Marco Torrado.

3. Tratamento da ansiedade e de outras perturbações

Ven no seguimento das antriores. "Por um lado, o tratamento de uma adição está relacionado com o aumento da ansiedade. Contudo, pessoas com adições também podem sofrer de outra perturbação psiquiátrica", aponta a psiquiatra Maria Veludo Chai. Assim, para tratar a dependência e obter um melhor prognóstico, é necessário tratar a ansiedade e os sintomas depressivos em simultâneo.

Esta abordagem é defendida e, nesse seguimento, adotada por milhares de profissionais em todo o mundo para tratar a adição. "Todas as medidas que promovam a diminuição da ansiedade, como a prática regular de exercício físico ou o recurso a práticas de técnicas de relaxamento como o mindfulness [atenção plena] podem contribuir para o sucesso do tratamento e evitar recaídas", sugere esta especialista.

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