Afonso de Albuquerque, médico miliciano em Moçambique (1961-64), psiquiatra, pioneiro da primeira consulta de tratamento do stress pós-traumático de guerra, foi um dos convidados do encontro da Associação de Apoio aos ex-Combatentes Vítimas do Stress de Guerra (APOIAR) para falar da sua experiência e emocionou-se quando lembrou os soldados que morreram “inutilmente” na guerra do Ultramar (1961-1975).

Na sala, da Fundação Calouste Gulbenkian, uma plateia de cerca de 50 pessoas, entre técnicos, associados da APOIAR e antigos combatentes em Angola ou na Guiné-Bissau, ouviram-se lágrimas e palmas às palavras do psiquiatra que era contra a guerra e por isso foi preso num quartel de Moçambique, em 1961, por uma denúncia de um agente da PIDE, a polícia política da ditadura.

Número exatos não existem, embora estimativas de Afonso de Albuquerque apontassem, em 2003, para 140 mil o número de pessoas a sofrer do trauma que, como disse, “não tem cura” - podem mitigar-se os seus efeitos - e que é “uma espécie de bomba ao retardador no cérebro da pessoa” e pode “explodir” meses ou até anos depois.

Na APOIAR e em mais quatro associações, há cerca de 500 pessoas que têm apoio médico especializado – 350 ex-militares e 150 familiares, mulheres ou filhos, que também sofrem os efeitos do stress pós-traumático de guerra.

Afonso de Albuquerque não falou só da doença e da experiência de tratamento, relembrando que muitos dos soldados da sua companhia, que foi para o Norte de Moçambique, “nunca tinha visto um negro na vida”, estavam sujeitos à propaganda do regime para se “matar” o inimigo, nem que fossem crianças, para “não virem a ser terroristas”, terminologia do regime para os guerrilheiros pró-independência em África.

Ele, que tinha a esperança de o contacto com a realidade, no dia a dia, motivasse os jovens soldados portugueses a serem “contra a guerra”, o que viu foi uma lógica de sobrevivência, traduzida na ideia de “matar para não ser morto”.

Quando voltaram a Portugal, lembrou, estes soldados que foram enviados pelo regime de Salazar, “para a guerra como heróis”, regressaram, já depois do 25 de Abril, quase “como assassinos”.

E durante mais de 20 anos, até à primeira consulta do stress pós-traumático, apenas os deficientes físicos tiveram tratamento e apoio da parte do Estado, enquanto o tratamento desses traumas ficou adiado.

A doença é, na explicação do médico, “uma bomba ao retardador colocada no cérebro” e que pode “deflagrar” até anos depois, e que não tem cura.

Mais do que medicamentos, os efeitos podem ser reduzidos ou controlados através do apoio psicológico, explicou o médico psiquiatra e um dos fundadores da APOIAR, que faz 25 anos em 2019.

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