"Isolei-me num canto da minha casa. Disse que me estava a preparar para um exame", conta o professor de 32 anos, cujos sintomas já desapareceram. "Se me examinarem, eu e a minha família iríamos permanecer isolados" na cidade da província de Jaiber Pastunjuá (noroeste) onde vivem, explicou no início de julho. "Não quero um estigma destes".

Muitos nos Paquistão negam-se a fazer o teste, de acordo com cinco médicos entrevistados pela AFP. No vale do Swat, o doutor Amjad Khan explica que viu "centenas" de pacientes que podem ser portadores do vírus.

"Mas 90% dos que têm sintomas não fazem o teste de diagnóstico" por medo da rejeição da sociedade. As pessoas "temem estar em contacto com uma pessoa positiva à COVID-19", uma doença que, para eles, é "sinónimo de morte" garantida, afirmou Khan, porta-voz da Associação de Médicos Jovens de Jaiber Pastunjuá.

"Além de tratar o vírus, devemos responder às preocupações dos pacientes, tratar a sua estigmatização", um problema agravado pelo "analfabetismo" e pela "superstição", destaca o professor Javed Akram, vice-reitor da faculdade de Medicina de Lahore.

Funerais incompletos

E mais ainda com a quantidade de teorias da conspiração que surgiram após a pandemia no Paquistão, um dos três países do mundo que não venceu a poliomielite, em parte por causa dos boatos de que as vacinas contêm carne de porco, proibida pelo Islão.

Nos últimos meses, os médicos foram acusados nas redes sociais de "matar" pacientes nos hospitais, pagos pelos países ocidentais.

E sem um sistema de diagnóstico eficaz, os casos continuam a aumentar no país, onde há oficialmente 280.000 casos de COVID-19, embora os especialistas consultados pela AFP apontem que este número pode ser pelo menos 10 vezes maior.

No início da crise, as autoridades proibiram os funerais dos primeiros mortos da pandemia, apesar de as orações funerárias serem elementos importantes da cultura do Paquistão, já que supostamente facilitam a entrada do morto no paraíso.

Desde então, muitas famílias decidiram esconder o contágio dos seus familiares e, desse modo, evitar funerais incompletos.

A estigmatização e as conspirações também levam à subestimação do número de mortos: oficialmente, foram registados cerca de 6.000 nos hospitais do país, uma letalidade muito baixa num país de 220 milhões de habitantes no qual o vírus se espalhou.

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