Em tempos de pandemia e à semelhança de outros profissionais de várias áreas que estão na linha da frente na luta contra o covid-19, os enfermeiros tiveram de abdicar de estar com a família, por exemplo, para cuidar de quem mais precisa. Todos falam do amor e dedicação ao próximo que a profissão exige, mas referem igualmente que os enfermeiros nem sempre são valorizados quer na área da saúde quer a nível da população em geral.

Natural de S. Nicolau, Jandira Santos é enfermeira geral há 15 anos. Iniciou o seu percurso profissional na sua ilha natal em 2005, mas desde 2011 que reside e trabalha na Praia.

Normalmente, trabalha como enfermeira e responsável no sector da saúde Reprodutiva do Homem e da Mulher no Centro Saúde Fazenda (Ex PMI), mas há cerca de 20 dias que está na linha de frente na luta contra a pandemia do Covid-19 no país ao prestar cuidados, em regime fechado, no centro de isolamento na Escola de Hotelaria e Turismo, na capital.

A enfermeira de 39 anos diz que trabalhar em tempos da pandemia tem sido um grande desafio, tanto no seu caso, como enfermeira, como no caso de todos os restantes profissionais da saúde que estão dispostos a enfrentar esta situação nunca antes vivenciada.

"É um trabalho constante e árduo de toda a equipa. Desde do segurança, ao apoio operacional e aos médicos, enfim da toda equipa multidisciplinar. O trabalho de todos é importante", esclarece. "Temos um compromisso com a vida, então todo o cuidado é essencial neste momento".

Apesar de dias muito cansativos, quer a nível físico, com "rotinas sendo realizadas criteriosamente para a não propagação do vírus", que se transmite facilmente, quer a nível mental, Jandira salienta que esta experiência está a ser "uma lição para toda a vida".

"O trabalho em equipa é muito interessante e prazeroso, quando todos estão envolvidos em um único objetivo. Aprendi a ter mais confiança no meu trabalho, a acreditar e a valorizar o que faço". Por outro lado, a profissional diz que a pressão e os conflitos fazem parte da rotina. "Se não aprendermos a lidar com bom tom, com liderança e postura profissional, podemos desiludir-nos. É preciso muito jogo de cintura.”

Dois dias antes da primeira data do confinamento obrigatório, Jandira Santos recebeu a visita da mãe que veio da ilha de São Nicolau para fazer consultas de rotina na cidade da Praia e que acabou por ficar na capital até esta data. Para a enfermeira, abdicar de estar com a mãe que vê apenas uma vez por ano não foi de todo fácil.

"Foi a decisão mais dura que tive de tomar para abraçar esta luta de todos, principalmente, como profissional da linha da frente. Foram horas de tensão, gerindo as emoções, procurando as palavras certas para falar sobre o assunto, que tinha de me ausentar, sob várias perguntas e um olhar preocupado da minha mãe, que ao mesmo tempo transmitia-me palavras de força, cuidado e de orgulho", desabafa a profissional que diz que nestes dias de confinamento receber o apoio de amigos e familiares tem sido gratificante.

“Nunca me imaginaria trabalhar como enfermeira. A área da comunicação social foi a que sempre me encantou", diz entre risos. O curso de enfermagem foi sugerido por uma tia, mas hoje não se imagina a trabalhar noutra coisa.

Se tivesse a oportunidade de nascer mil vezes, com certeza, mil vezes seria enfermeira

"A cada atenção que dou a quem precisa, a cada orientação de como melhorar a sua qualidade de vida, sinto-me realizada, pois acredito que posso fazer a diferença a vida de uma pessoa e acredito que a valorização vem de dentro de cada profissional", declara esta jovem que fala na necessidade da auto valorização. "Em todas as vertentes da vida, tanto pessoal como profissional não conseguimos agradar a todos"

E apesar de salientar que a enfermagem é uma profissão antiga, Jandira Santos destaca que "o cuidado vai muito além das agulhas e dos curativos". "É uma profissão de muito estudo, dedicação, responsabilidade e amor ao próximo. Se tivesse a oportunidade de nascer mil vezes, com certeza, mil vezes seria enfermeira".

Ainda em Santiago, ilha que atualmente regista mais casos positivos de Covid-19 no país, trabalha Arlindo Barros. Licenciado em Enfermagem e a fazer uma pós-graduação na área de Ortopedia e Traumatologia, Arlindo Barros exerce funções como enfermeiro no Hospital Regional Santa Rita Vieira, em Assomada.

Também para este profissional trabalhar durante a época de covid-19 tem sido um desafio, tendo em conta que esta é a sua primeira experiência a trabalhar perante uma situação de pandemia. Arlindo Barros diz que o enfermeiro, que à semelhança de outros profissionais de saúde teve de seguir as recomendações da OMS, tem a necessidade de se adaptar à realidade com os recursos que tem à mão, tendo em conta a realidade do país, e fazer o seu máximo para ajudar a ultrapassar esta situação.

O que custa mais é, sem dúvida, deixar a família e o conforto do lar, para diminuir o risco de contágio no seio familiar e na comunidade, afirma.

"Não tem sido fácil (...) em muitos casos temos enfermeiros que têm na sua dependência pessoas idosas e crianças e que tiveram de procurar auxílio de familiares mais distantes para tomar conta dos filhos, por exemplo". É nesses momentos que as novas tecnologias ajudam a manter o ânimo com as vídeo chamadas a diminuir um pouco o distanciamento social.

Relativamente à valorização da classe no país, o enfermeiro salienta o esforço que tem existido por parte da própria classe que tem procurado ganhar cada vez mais espaço a nível político, social, etc.

"À semelhança das outras áreas, a Enfermagem também é uma ciência por isso nota-se cada vez mais enfermeiros à procura de capacitação nas mais diversas áreas. Hoje já temos enfermeiros com diversas especialidades na Psiquiatria, Pediatria, Ortopedia-Traumatologia, Neonatologia, etc.".

Apesar de reconhecer as melhorias como a implementação da carreira de Enfermagem, da Ordem da classe e do aumento salarial, Arlindo Barros diz que ainda há muito por fazer nomeadamente, a diminuição da carga horária, a criação de bolsas de estudo para especialidades, etc.

"A nível social ainda nos deparamos com uma certa crença de que o enfermeiro é subordinado a outras classes ou que o enfermeiro só presta cuidados básicos aos pacientes. Mas ser enfermeiro vai muito além do que se pensa. O enfermeiro trabalha diretamente com o doente prestando cuidados a todos os níveis, primário, secundário e terciário. Hoje temos enfermeiros a dar o seu contributo para o bem da nação e do mundo".

 Covid-19: 40 médicos e 15 psicólogos reforçam Linha Verde no país

Ana Suzete Baessa Moniz, de 34 anos, é uma das profissionais que está a trabalhar na linha verde de apoio  . Para esta enfermeira natural de Santiago que trabalhou durante cinco anos no hospital da Trindade e, atualmente, é docente na Universidade Jean Piaget, a tarefa não tem sido fácil visto que nem todas as pessoas fazem um bom uso da linha

“Recebemos todo o tipo de chamadas. Há os que ligam para saber as orientações de como se prevenir da Covid-19. Recebemos chamadas de pessoas assintomáticas (que são a maioria) onde damos as orientações dos procedimentos e também temos casos de pessoas que estiveram em contacto com os casos positivos às quais fornecemos informações sobre o isolamento social para evitar a propagação do vírus”.

A profissional que é mestre na área de pesquisa da Saúde Mental acrescenta que há também pessoas que pedem apoio psicológico para ultrapassar esta fase de forma mais serena.

“É um pouco cansativo e às vezes temos muita pressão. São muitas chamadas e muitos dos utentes que ligam exigem muito e, às vezes, são impacientes. Por isso, nós que estamos na linha da frente temos de agir com cautela, fornecer informações credíveis sobre como prevenir a Covid-19 e, no caso de sentirem sintomas, sobre quais os procedimentos quem devem tomar”.

Nós que estamos na linha da frente necessitamos de um atendimento psicológico para nos sentirmos mais aliviados

Questionada sobre como tem conciliado esta situação com a vida familiar, a enfermeira diz que tem tomado os cuidados necessário. “Seguimos rigorosamente todos os cuidados no local de trabalho e são os mesmos cuidados que tomo em casa: a lavagem das mãos, o uso do álcool gel e das máscaras de forma a prevenir a mim mesma e a minha família”, conclui.

Apesar da preocupação ser zelar pelo bom atendimento ao público de forma a combater esta pandemia, esta enfermeira realça que os profissionais que estão no apoio da linha verde e na linha da frente desta luta também sentem a necessidade do apoio psicológico.

“O objetivo é zelar pela a prevenção da doença seguindo as orientações da Organização Mundial da Saúde, OMS e da Direção Nacional da Saúde, DNS, e fornecer informações corretas. No entanto, nós que estamos na linha da frente necessitamos de um atendimento psicológico para nos sentirmos mais aliviados e vivenciarmos esta situação com maior tranquilidade”.

A enfermeira do bairro de Achada Grande Frente defende que a classe dos enfermeiros ainda não é valorizada, mas que está a alcançar o seu patamar aos poucos. “Estamos a conquistar o nosso espaço e a ganhar maior visibilidade. Esta classe também merece ser reconhecida e valorizada. Sobretudo nesta fase que estamos a passar, porque os enfermeiros também estão na linha da frente no combate a Covid-19 tanto em Cabo Verde como no mundo".

Segundo Ana Moniz, antigamente os enfermeiros eram vistos como meros ajudantes dos médicos, o que para esta profissional de saúde não qualifica o papel desta classe. “Atualmente somos profissionais competentes com conhecimentos científicos e a enfermagem atua hoje com profissionalismo, responsabilidade e com o saber ser e saber fazer. Hoje somos uma classe autónoma”.

Para encorajar toda a classe e todos os profissionais de saúde que estão na linha da frente, Ana Moniz deixa a sua mensagem positiva. “Temos de ser fortes e agir com responsabilidade, concentração e muita coragem para vencermos esta luta e zelarmos pela prevenção e o combate desta pandemia".

Entretanto, por ocasião do Dia Internacional do Enfermeiro, Ana Moniz que é também coordenadora do curso de enfermagem e diretora da Unidade Ciência Natureza Vida e Ambiente (UCNVA) da Universidade Jean Piaget salienta a importância do lema escolhido para celebrar esta efeméride este ano dedicado as Enfermeiras Parteiras.

“Com o subtema “Enfermagem, uma voz para liderar: Enfermagem do Mundo para a Saúde”, é uma forma de reconhecer o trabalho das mulheres parteiras que acompanham as mulheres desde o pré-natal, gravidez, parto e o pós-parto. Contudo creio que este lema visa enaltecer o papel importante das enfermeiras parteiras e também dos que estão na linha da frente no combate à Covid-19, enaltecendo o papel importante que os enfermeiros ocupam tanto a nível hospitalar como em outros setores”.

Flávio Bento é enfermeiro no Banco de Urgências (de adultos) do Hospital Baptista de Sousa em São Vicente, ilha onde os dados oficiais registam até agora 3 casos de covid-19, todos eles considerados recuperados.

"Desde dos primeiros casos suspeitos na ilha vivenciamos momentos de stress e de dúvida em relação à nossa atuação, visto estarmos na linha da frente", diz este profissional que considera que "foram tomadas as medidas necessárias para que seja possível trabalhar com as mínimas condições para se protegerem enquanto prestadores de serviço de saúde".

Flávio Bento enfatiza duas principais mudanças nesta época: a aquisição de matérias de proteção individual e diminuição da procura do serviço de urgências pela população, acontecendo somente em casos mesmo urgentes ou emergentes. "Penso que o sistema de saúde primária deveria sofrer algumas mudanças".

Igualmente para este profissional cabo-verdiano conciliar a vida familiar com a profissional nestes dias tem sido "bastante complicado". "Além dos dias de quarentena em que estivemos confinados em casa, tinha de ir todos os dias ao trabalho e no regresso vinha sempre com a preocupação de estar ou não a carregar o vírus de forma assintomática."

Para este homem da saúde, "a enfermagem é um pilar fundamental do sistema de saúde de qualquer país". Flávio Bento diz que se em teoria todos já estão cientes deste facto, "na prática sinto que esta classe acaba por ser um "escravo do sistema".

"Fazemos de tudo por todos, incansavelmente, e a cada dia somos empurrados para novas funções e ninguém valoriza. É hábito de alguns acharem que a enfermagem é uma prática que todos (outros profissionais) conhecem a ponto de quererem mostrar que sabem do nosso ofício mais do que nós (risos), desvalorizando a ciência em evidência que é a base do conhecimento deste profissional".

Licenciado em enfermagem, Corsino Delgado Andrade é enfermeiro no posto sanitário de Chã de Pedras em Ribeira Grande de Santo Antão.  Apesar da ilha não ter registado até agora casos de covid-19, o enfermeiro salienta que “trabalhar durante esta fase exige uma atenção redobrada de qualquer profissional de saúde, mormente da classe de enfermagem”.

Tem sido um processo de reestruturação e de adaptação que é também doloroso, tendo em conta o distanciamento social

“Apesar de estarmos a trabalhar num contexto um pouco diferente, tendo em conta que não há registo de casos positivos na ilha, não implica que não trabalhemos com a mesma carga psicológica de um outro profissional de saúde inserido num contexto diferente, isto se levarmos em conta que fazemos parte de um todo”.

Salienta que na estrutura de saúde onde trabalha, vocacionada para a promoção da saúde e prevenção de doenças, tem-se feito “uma forte aposta nas medidas de prevenção, promovendo o empoderamento de pessoas no intuito de se adotarem comportamentos e estilos de vida saudáveis”.

Segundo explica Corsino Andrade, conciliar a vida profissional com a vida familiar “tem sido um processo de reestruturação e de adaptação que é também doloroso, tendo em conta o distanciamento social, principalmente quando se tem crianças pequenas que ainda não entendem os motivos de estarmos distantes”.

Outro motivo de preocupação é ao alto risco de contágio devido à exposição destes profissionais no ambiente de trabalho que aumenta a probabilidade de levar o vírus para dentro dos seus lares.

Este profissional de saúde lamenta que a classe de enfermagem em Cabo Verde não seja valorizada, já que, segundo argumenta, “não existem dentro do sistema nacional de saúde condições para que a classe exerça as suas funções com ''autonomia''”. Uma situação que no entender de Corsino Andrade pode alterar-se com “a criação da Ordem dos Enfermeiros ora em curso, em que a classe pode vir a afirmar-se e, consequentemente, vir a ser valorizada”.

Com Edna da Veiga (estagiária)

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