Logo após a entrada em vigor do estado de emergência, a 01 de abril, no âmbito da prevenção do novo coronavírus, o Ministério do Género, Criança e Ação Social de Moçambique adotou medidas destinadas a proteger da COVID-19 os cerca de 600 utentes dos 21 lares de idosos existentes no país - um país onde a maioria dos cerca de 30 milhões de habitantes são jovens.

Cerca de metade tem menos de 18 anos, longe da idade de risco de desenvolver complicações em caso de infeção, em que se encontram os idosos.

"O Ministério do Género, Criança e Ação Social elaborou uma circular para todas as províncias, com orientações básicas para a prevenção e apoio aos técnicos que trabalham nas unidades sociais [lares] sobre os mecanismos de prevenção desta pandemia", disse à Lusa Ema Mondlane, chefe do Departamento de Assistência à Pessoa Idosa.

O Centro de Apoio à Velhice de Lhanguene, localizado na cidade de Maputo, espelha a nova rotina a que as pessoas de terceira idade se têm de adaptar nos lares em que estão acolhidos.

Rostos cobertos com máscaras garridas feitas à base de panos de capulana (tecido tradicional africano) são a novidade na vida dos idosos que ali vivem.

Apesar de atrapalhar a respiração e dificultar a fala, é aceite pelos 35 idosos do lar, porque é para o bem de todos, dizem.

"[A máscara] é para evitar esta doença [a COVID-19]. É bom, porque podemos evitar a doença", diz Angelina Beatriz, que vive no lar.

As mãos sempre foram lavadas, mas o hábito intensificou-se por estes dias. "Lavo as mãos de manhã, à hora do almoço, do jantar e à noite", relata Angelina Beatriz.

Amosse Novela diz que tem ouvido falar da doença através dos cuidadores que trabalham no centro e que os novos hábitos são um dever para a sobrevivência de todos.

"Não sei de onde vem essa doença, mas têm-nos dito para nos prevenirmos. Lavamos sempre as mãos e tapamos a boca. Temos de sobreviver, é para o bem das nossas vidas", declara.

Se as medidas não forem respeitadas, haverá sofrimento, porque é uma doença grave, acrescenta.

Alzira Saidine pode ter estranhado ter de lavar as mãos numa "água com remédio" - desinfetante -, mas não tem dúvidas de que é para o bem-estar de todos.

Os idosos também se estão a acostumar a uma nova personagem nos lares, além dos habituais técnicos de ação social: os agentes de desinfeção que passam, no mínimo, duas vezes ao dia, para descontaminar possíveis focos de presença do coronavírus.

A chefe do Departamento de Assistência à Pessoa Idosa no Ministério do Género, Criança e Ação Social diz que as visitas aos lares foram proibidas e pararam as atividades ocupacionais que requerem maior proximidade ou contacto físico, como o canto e dança.

As autoridades apostam na reintegração familiar do idoso em tempos de pandemia, o que resultou no regresso a casa de nove pessoas de terceira idade.

"É um trabalho que vinha sendo feito, mas as unidades sociais foram orientadas no sentido de continuar para aqueles casos em que seja possível fazer a reintegração", declarou Ema Mondlane.

A política das autoridades moçambicanas é a de não "institucionalização" da proteção dos idosos, evitando que vivam nos lares do Estado, defendendo que o convívio familiar continua a ser a melhor opção.

No caso moçambicano, o distanciamento social nos lares de idosos é muito fácil, porque estas estruturas acolhem atualmente um número abaixo da sua capacidade.

"Felizmente, todas as unidades sociais estão abaixo da capacidade máxima, com uma ocupação que ronda 75% a 80%", referiu Ema Mondlane.

Em média, estão dois ocupantes por quarto, apesar de estes terem capacidade para três utentes.

"Porque havia quartos vazios, foi possível fazer essa separação", explicou.

Ainda no âmbito das medidas de prevenção da COVID-19, os técnicos que trabalham nos lares foram instruídos no sentido de colocar em quartos de isolamento qualquer caso suspeito, principalmente quem apresente sintomas de gripe.

Moçambique tem um total acumulado de 145 casos de infeção pelo novo coronavírus, sem mortes e 46 recuperados.

O Presidente moçambicano, Filipe Nyusi, admitiu na sexta-feira tomar medidas mais duras no âmbito do estado de emergência para prevenção da COVID-19, se persistir o incumprimento de algumas restrições, nomeadamente se os níveis de circulação interna continuarem altos.

O estado de emergência vigora até ao final de maio.

"Os próximos 15 dias são decisivos para determinarmos qual será a nossa forma de estar depois desta segunda etapa", disse ainda, garantindo que "ainda não é momento para relaxar as medidas", concluiu.

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