Todos os dias centenas de milhões de novas fotografias são adicionadas às redes sociais. À boleia desta catadupa de imagens viajam milhões de fotografias tendo por mote a comida. De tal ordem que o termo “insta food" tornou-se familiar no nosso vocabulário. Comida bonita, capturada por telemóveis onde quer que esteja alguém perante um prato de aspeto apetecível. Comida para partilhar digitalmente, nas viagens que empreendemos ou na simples visita ao restaurante da moda.

Gostamos e precisamos de comer, adoramos fotografar e perpetuar aquilo que comemos. Uma prática do nosso século XIX? Com certeza que não. Há muito, desde os primórdios da fotografia, que capturamos alimentos e, desta atividade, fizemos um ramo de negócio que, atualmente, fatura milhões mundo fora.

A fotografia profissional, de âmbito comercial, alimenta páginas de revistas, sites, campanhas de publicidade, livros. Noutros âmbitos, a mesma fotografia de alimentos enriquece a blogosfera onde muitos profissionais e amadores procuram fixar a atenção de leitores e seguidores.

Uma fotografia que tratando de matéria-prima sensível comporta técnicas, métodos e “truques” próprios. Já lá iremos. Tal como na moda também a forma como comemos, olhamos para os alimentos e os levamos à mesa muda. E com estas mudanças, também evolui a fotografia.

Há mais de 150 anos a comida já alimentava a fotografia

Há mais de século e meio já os alimentos sorriam para a foto. Corria 1845 e um cientista inglês pioneiro da fotografia, William Henry Fox Talbot, captou aquela que seria uma imagem para a história. Uma das primeiras fotografias com uma composição de alimentos, mais concretamente dois cestos de pêssegos e ananás. O tetravô das atuais fotografias com comida inaugurava um estilo, mas também vertia de uma longa história de pintura em torno de naturezas mortas. Um termo que nasceu no século XVII.

Fotografia de alimentos: A estrela das redes sociais nasceu há 150 anos inspirada na pintura]
«A fruit piece», fotografia do inglês William Henry Fox Talbot.

Em cem anos, dos idos de meados do século XIX, até ao fim da primeira metade do século XX, o mundo mudou, muito. Nos Estados Unidos a economia crescia, os consumidores ansiavam por adquirir bens amigos de uma vida doméstica com menos empecilhos.

A publicidade navegou esta nova onda consumista e, nos anos de 1930/1940, a fotografia de alimentos tornou-se apetecível para as grandes marcas. Até então a ilustração ganhava à imagem fotográfica. A partir daqui muda o paradigma. Fotógrafos como o norte-americano Paul Strand, abandonavam a escola clássica com enquadramentos semelhantes a naturezas mortas e cavalgavam à boleia do recém-inaugurado novo estilo, assim como da obra de pintores como Picasso, Cézanne ou Matisse. Ângulos menos rígidos, enquadramentos mais largos, onde era comum encontrarmos ambientes familiares, edição de livros de cozinha para amadores.

Um novo mundo abria-se aos consumidores. A divulgação em massa da fotografia de alimentos trazia ao convívio das famílias da classe média ingredientes até então desconhecidos: abacates e outros frutos exóticos democratizavam-se nas cozinhas. A aceleração dos tempos de transporte ligava os diferentes mercados.

Fotografia de alimentos: A estrela das redes sociais nasceu há 150 anos inspirada na pintura
Capa da revista norte-americana McCall. Fotografia de N. Muray (1939)

Acresce a este novo mundo para a imagem a divulgação de uma outra inovação, a fotografia a cores. Ganhou a fotografia uma poderosa aliada. Surgiram novos desafios para os fotógrafos. Como tornar apelativos os alimentos num mercado saturado de oferta nas grandes superfícies e nas capas de revistas especializadas? A competição elevou a qualidade mas também os muitos recursos, alguns menos ortodoxos, para captar a atenção do público.

Novos desafios

Numa época em que o digital ainda se encontrava longe no tempo e em que a manipulação de imagem era insipiente, não raro, recorria-se a produtos não alimentares para abrilhantar um donut, um hambúrguer, uma fatia de piza. Por exemplo, uma baforada de laca para o cabelo, conferia o apetecível tom brilhante ao alimento.

fotografia
Nickolas Muray, capa de revista de 1943. créditos: © Nickolas Muray Photo Archives

Há, ainda, que considerar que estamos a falar de fotografia de estúdio, sujeita à temperatura dos focos de iluminação. Isto quando o objeto a captar é perecível. Como manter, por exemplo, um punhado de gelo estável durante um par de horas? com congéneres fabricados em acrílico. Como criar um gelado saboroso que resista ao calor do estúdio? Um puré de batata instantâneo com corantes alimentares é uma boa solução. Detergente para a louça substituía as bolhas num copo de cerveja, tinta era utilizada em substituição de iogurtes.

A fotografia de então, tal como agora, vendia mais do que uma imagem. Vendia ilusões e servia um objetivo específico: vender.

Com a década de 1990 e seguintes, a fotografia de alimentos ganha com a revolução digital. Não invalida o muito trabalho de pré-produção e de produção em estúdio. Há que assegurar a luz e o ângulo perfeitos. Não descurar os adereços, as capturas de imagem intimistas; mas também a abertura desta fotografia a novos horizontes, como as produções ao ar livre.

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