A viver um ano de grandes conquistas, a estilista Cindy Monteiro recorda que chegou a pensar em desistir do seu projeto em Cabo Verde mas que entretanto surgiram novas oportunidades no mundo da moda. “Por vezes, a vida dá-te sinais (de que é preciso continuar) ”.

Em setembro deste ano, Cindy Monteiro chegava a Nova Iorque para apresentar a sua coleção “Berdiana”, num dos eventos mais esperados no mundo da moda – a New York Fashion Week (semana da moda de Nova Iorque).

Meses antes, a estilista candidatou-se online para participar em vários eventos. E qual foi o seu espanto quando recebeu, primeiro, o convite para participar na semana da moda de Las Vegas, como de seguida, para a New York Fashion Week (NYFW).

Mediante os custos de participação teve de decidir por um dos eventos e optou pela NYFW.

Para custear a sua participação, Cindy teve de recorrer ao financiamento bancário via um dos bancos comerciais da praça. Sem entrar em detalhes, assevera que foi um investimento bastante elevado. A jovem afirma ainda que contou com o suporte oficial do ministério da Cultura, que apesar de não ser um apoio financeiro foi louvável e que lhe abriu outras portas, nomeadamente do ministério das Finanças.

Viajou sozinha para Nova Iorque e quando chegou ao local onde iria decorrer o certame, a produção da NYFW perguntou-lhe logo: “Onde está a tua equipa?”. Cindy explica que levar uma pessoa consigo acarretava custos ainda mais elevados.

Apesar de, por diversas vezes, ter pensado que afinal tinha dado “um passo maior do que a perna”, Cindy diz que o investimento valeu a pena e que a reação do público no foi positiva, tanto é que, no final, recebeu vários pedidos para a representação exclusiva da sua marca, CM, nos EUA.

“Houve cerca de meio minuto em que o meu coração parou. Olhava para o ecrã (no backstage) e as pessoas não estavam a aplaudir (no final do desfile). Mas quando saí para a passadeira vermelha, começaram os aplausos”, recorda com emoção.

A participação na NYFW foi um sonho realizado, conclui.

“Berdiana”

Em Nova Iorque, Cindy Monteiro apresentou 20 peças da coleção “Berdiana”, uma homenagem à mulher cabo-verdiana. A coleção inclui peças feitas com materiais adquiridos em Cabo Verde, na sua maioria, e ligados à natureza como a serapilheira, conchas, cana, folhas de coco, entre outros.

“Onde quer que vá, sinto que tenho a responsabilidade de representar Cabo Verde”, salienta.

A “Berdiana” foi apresentada ao som de uma playlist feita “à medida”, em Cabo Verde, pelo DJ Kappah e que despertou a curiosidade do público presente. “Várias pessoas ficaram interessadas nos temas que acompanharam a apresentação da coleção”.

Esta coleção foi igualmente apresentada neste mês de dezembro, na Internacional de Artesanato e Design URDI, em Mindelo. “Foi muito bom mas foi muito diferente (em relação ao NYFW)”, afirma a estilista sobre o desfile perante o público nacional e explica que em Nova Iorque as pessoas começam logo a imaginar  como enquadrar as peças do desfile no seu dia-a-dia, já em Cabo Verde não é assim.

A pensar em 2018

Para o próximo ano, Cindy Monteiro já tem convites para participar tanto na Las Vegas Fashion Week, como novamente na semana de moda de Nova Iorque. Daí que está à procura de financiamento. Salienta que a marca CM precisa crescer e que gostaria de continuar a ser um negócio local. “Estou à procura de investimento até para ser uma casa de costura digna desse nome”, explica.

Há cerca de quatro anos em Cabo Verde, Cindy faz um balanço positivo da sua vinda para o país mas recorda que já pensou em parar e que, por vezes, “a vida dá-te sinais”. “Nem sempre é fácil…em nenhuma área”.

Desde que chegou ao país, sentiu que houve uma evolução na forma como as pessoas encaram os conceitos associados à moda. “As pessoas estão mais sensíveis para a moda, mas há noções que ainda não estão bem estabelecidas”.

Por conseguinte, salienta a importância de uma educação para a moda e a existência de um espaço como a URDI onde, explica, é visível, por exemplo, a diferença entre o trabalho de um designer e de um artesão e evidencia a importância do trabalho de cada um.