Algumas continuam a trabalhar, outras esperam por dias melhores, há as que infelizmente que estão longe dos filhos e há também aquelas que já não sabem como será o dia de amanhã. Mas todas são unânimes no que o confinamento em família lhes trouxe: momentos únicos ao lado do que mais amam.

Vera Figueiredo

 Este vírus permitiu-me ver que sou uma mãe perfeita na imperfeição que é criar e educar um filho: basta ter paciência e amor, muito amor
Vera Figueiredo
Uma cabo-verdiana que nasceu na ilha de Chiquinho, que cresceu em Mindelo, mas há 18 anos reside na cidade da Praia. Relações Publicas de profissão e mãe da Adriana Maria. "Este vírus permitiu-me ver que sou uma mãe perfeita na imperfeição que é criar e educar um filho: basta ter paciência e amor, muito amor". créditos: Fotos cedidas

Uma cabo-verdiana que nasceu na ilha de Chiquinho, que cresceu em Mindelo, mas há 18 anos reside na cidade da Praia. Relações Públicas de profissão e mãe da Adriana Maria.

“Ser mãe "sozinha" nestes tempos de pandemia de Covid-19 tem sido ligeiramente mais cansativo que o normal. Digo ligeiramente porque a minha rede familiar está espalhada pelo mundo e aqui na Praia conto somente com o apoio do meu mano mais novo.

O confinamento social foi um pouco "atribulado" nos primeiros dias por conta da minha ansiedade por conta da minha mãe idosa que se encontra em outra ilha e com o que faria com a minha adolescente, que apesar de ser uma menina tranquila, é um desafio mantê-la interessada em algo que não seja o telemóvel ou a TV. Fiquei agradavelmente surpresa com a abertura dela a todas as invenções e experiências que criamos durante estes dias. Criamos um ‘mapa Mundi’ na parede da sala e tem sido divertido ver o interesse dela por determinados países, os resmungos quando digo que ela errou uma localização e a alegria quando acerta os países mais escondidos e consegue dizer-me algo insólito sobre os mesmos.

Saio deste confinamento social mais paciente e mais próxima da minha Adriana, e ‘reconectada’ com todas as minhas pessoas espalhadas pelo mundo. Este vírus permitiu-me ver que sou uma mãe perfeita na imperfeição que é criar e educar um filho: basta ter paciência e amor, muito amor”.

Érica Dos Reis Delgado

Mesmo estando exausta tento fazer coisas diferentes. Fazemos bolinhos de areia, acampamos no quintal, brincamos e fazemos ginástica, para que a alegria reine no nosso lar
Érica Dos Reis Delgado
Natural de São Vivente, esta mãe solteira de 32 anos tem dois filhos, uma menina de 5 e um menino de 2 anos, é técnica de regulação na ARME, e vive na cidade da Praia há sete anos. "Mas mesmo estando exausta tento fazer coisas diferentes para tornar os dias mais agradáveis. Fazemos bolinhos de areia, acampamos no quintal, brincamos de escola, fazemos ginástica, enfim, diferentes atividades para que a alegria reine no nosso lar”. créditos: Fotos cedidas

Natural de São Vivente, esta mãe solteira de 32 anos tem dois filhos, uma menina de 5 e um menino de 2 anos, é técnica de regulação na Agência de Regulação Multissectorial da Economia, ARME, e vive na cidade da Praia há sete anos. Continua a trabalhar em casa em regime de teletrabalho.

“Há um mês que estamos confinados e isto tem sido uma luta que exige paciência, força e capacidade mental para lidar com a situação. Conjugar o trabalho de casa, o dos cuidar dos filhos e o teletrabalho (estar em reuniões vias Skype a ativar os microfones no silêncio para não se ouvirem os gritos das crianças) e ainda não poder sair à rua tem sido um grande desafio.

Houve dias em que estive em reuniões e, em simultâneo, a dar de comer ao meu filho, com a minha filha ao lado a pedir para explicar um exercício.

Mas mesmo estando exausta tento fazer coisas diferentes para tornar os dias mais agradáveis. Fazemos bolinhos de areia, acampamos no quintal com coisas simbólicas que temos em casa, brincamos de escola, fazemos ginástica, enfim, diferentes atividades para que a alegria reine no nosso lar”.

Vamos manter a calma e a serenidade que tudo isto vai passar para podermos levar a nossa vida normalmente, quiçá, melhor ainda”.

Mónica Soraia Baessa

O lado bom é estar com as minhas filhas durante mais tempo. Podemos fazer muitas coisas que antes o tempo não permitia
 Mónica Soraia Baessa
Natural de Santiago, tem 30 anos e é mãe de duas meninas que vivem com ela na ilha do Sal. Trabalha em um dos hotéis da ilha que atualmente está encerrado. "O lado bom é estar com as minhas filhas durante mais tempo. Podemos fazer muitas coisas que antes o tempo não permitia e agora temos tempo de sobra". créditos: Fotos cedidas

Natural de Santiago, tem 30 anos e é mãe de duas meninas que vivem com ela na ilha do Sal. Trabalha em um dos hotéis da ilha que atualmente está encerrado.

“Não está a ser fácil, sou mãe e pai para as minhas meninas. Tenho um companheiro, mas neste momento de quarentena os gastos e as responsabilidades são maiores. As minhas filhas estão ansiosas, pedem para ir à rua, querem comer algo diferente à toda a hora o que muitas vezes não está ao meu alcance.

Estou em casa já que o trabalho está encerrado e a minha maior preocupação é cuidar das minhas filhas e tomar as precauções necessárias para a prevenção da minha família, mas espero que em breve tudo volte à normalidade, com fé em Deus.

O lado bom é estar com as minhas filhas durante mais tempo. Podemos fazer muitas coisas que antes o tempo não permitia e agora temos tempo de sobra. Enfim, é sempre uma alegria estar presente nas suas vidas”.

Cláudia Rodrigues

 As nossas crianças são mais resilientes do que nós e o seu amor tem sido uma grande bênção para ultrapassar os dias menos bons
Cláudia Rodrigues
Mãe de duas crianças, uma menina de 11 e um menino de 8 anos, esta socióloga é natural da cidade da Praia, onde reside atualmente. Conta com o apoio do pai das crianças que apesar de morar em sua casa, apoia emocionalmente nesta fase, e do seu atual marido nas tarefas com os filhos. "As nossas crianças são mais resilientes do que nós e o seu amor tem sido uma grande bênção para ultrapassar os dias menos bons". créditos: Fotos cedidas

Mãe de duas crianças, uma menina de 11 e um menino de 8 anos, esta socióloga é natural da cidade da Praia, onde reside atualmente. Conta com o apoio do pai das crianças que apesar de morar em sua casa, apoia emocionalmente nesta fase, e do seu atual marido nas tarefas com os filhos.

“Ser mãe nestes momentos de COVID 19 tem sido um enorme desafio e uma montanha-russa de emoções. Por vezes, experiencio muitas alegrias e brincadeiras com eles e aproveito cada minuto. Noutras vezes, sinto-me assoberbada com tantas responsabilidades, apesar da divisão de trabalho com o meu companheiro (trabalhos domésticos, tele aulas, teletrabalho, confinamento...uff), e ainda ter de ser mais forte do que nunca, para que as minhas crias se sintam seguras nestes dias de medo e incerteza.

Mas permito-me reconhecer as minhas vulnerabilidades, pois há momentos em que preciso de paz e sossego. Os aprendizados destes tempos são que as nossas crianças são mais resilientes do que nós e que o seu amor tem sido uma grande bênção para ultrapassar os dias menos bons. Não temos que ser ‘super heroínas’ ou ‘super mães’ e estar bem a toda a hora. Devemos nos permitir chorar, desesperar para libertarmos alguma pressão e ficarmos bem connosco próprias e, acima de tudo, sermos capazes de praticar o autocuidado e o amor próprio”.

Romina Rodrigues

 no caso de muitas Mães profissionais de saúde, mesmo sob risco de contágio, desligamos-nos da missão Mãe de um ser para abraçar a colectividade

Romina Rodrigues
Natural da ilha do Sal, esta médica especialista em Medicina Interna reside na Praia e trabalha no Hospital Agostinho Neto. É mãe de uma menina de 13 anos. "No meu caso e de muitas outras Mães profissionais de saúde, mesmo sob risco máximo de contágio, pela missão e valores, enquanto missionárias pró- vida, sendo Médicas, Enfermeiras, Auxiliares de Serviços Gerais, e as demais Profissionais Técnicas de Saúde, incondicional e abnegadamente, desligamos -nos da missão Mãe de um ser para abraçar a coletividade". créditos: Fotos cedidas

Natural da ilha do Sal, esta médica especialista em Medicina Interna reside na Praia e trabalha no Hospital Agostinho Neto. É mãe de uma menina de 13 anos.

“Ser Mãe é uma missão (familiar) de grande responsabilidade na formação da pessoa que se vai entregar à sociedade/ humanidade, aquando da sua ma-turidade. Ser Médica é outra missão, que, geralmente, antecede à primeira, e que por vezes, exige uma elasticidade emocional positiva, ascendente e racional, para não se incompatibilizar com essa. Daí, outrora, na história, o Médico, as Mães, entre outros missionários, dedicarem-se exclusivamente à sua missão, não se comprometendo com formar família, para o primeiro, e nem com o trabalhar fora do lar, para as segundas.

Neste tempo de crise sanitária, extrema e tão arriscada como esta, a Mãe, “que é Mãe”, não mede esforços e lança mãos â sua bagagem de amor infinito e incondicional, para cuidar e proteger o seu rebento, a nível físico, emocional e psíquico, no confinamento do lar. Porém, no meu caso e de muitas outras Mães profissionais de saúde, mesmo sob risco máximo de contágio, pela missão e valores, enquanto missionárias pró- vida, sendo Médicas, Enfermeiras, Auxiliares de Serviços Gerais, e as demais Profissionais Técnicas de Saúde, incondicional e abnegadamente, desligamos -nos da missão Mãe, de um ser (como no meu caso), ou mais alguns, ainda em formação, para abraçar a colectividade, com amor, dedicação, desprendimento e toda a nossa competência e responsabilidades, sem lamúrias ou remorsos. Estes constituem alguns dos reptos que esta pandemia nos confrontou.

Depois disto, indubitavelmente, acredito que o (meu) horizonte será mais panorâmico, realista e maduro, mas também cristalino e sábio, pois sem dúvida crescemos – cresci (estou a) bastante mais, enquanto Médica, Mãe e pessoa humana.

Pessoalmente, estou afastada (fisicamente) da minha filha Raíssa há mais de um mês, não sabendo ainda por mais quanto tempo. Há duas semana ela pediu-me que lhe arranjasse uma peça de roupa minha – tocou-me fortemente, mas não me abalei. Na semana passada prometeu numa mensagem, uma “homenagem a mim e meus colegas, caso mais ninguém o faça”.

Há dois dias enviou-me um mimo e bilhete de reconhecimento, estímulo e encorajamento - sinais de que, a formação pessoal de um filho inicia-se no útero e se a pode associar aos valores transmitidos e o aproveitamento do tempo com qualidade. A Luta é de Todos Nós!”.

Carla Mendes Freire

Tenho mais tempo para a partilha e convivência com a minha família o que diz que cada segundo em que estive ausente fazia falta

Carla Mendes Freire
Natural da ilha do Maio, esta professora do Ensino Básico Obrigatório reside há 12 anos na cidade da Praia, onde leciona no Escola 13 de Janeiro no Palmarejo, e tem quatro filhos. "Tenho mais tempo para a partilha e convivência com a minha família o que diz que cada segundo em que estive ausente fazia falta". créditos: Fotos cedidas

Natural da ilha do Maio, esta professora do Ensino Básico Obrigatório reside há 12 anos na cidade da Praia, onde leciona no Escola 13 de Janeiro no Palmarejo, e tem quatro filhos.

“Estamos a enfrentar esta situação de pandemia com muita serenidade obedecendo as recomendações das autoridades sanitárias e a acompanhar os filhos e zelar pela prevenção.

Tenho mais tempo para a partilha e convivência com a minha família o que diz que cada segundo em que estive ausente fazia falta. Contudo, sei também que há pessoas que precisam de mim neste momento (os meus alunos)”, lamenta esta progenitora de 45 anos.

Liliana Ernestina Monteiro

Perdoar-me a mim mesma é essencial, para não mergulhar na culpa que não sou a mãe ideal que gostaria de ser

Liliana Ernestina Monteiro
Esta economista reside na cidade da Praia e tem dois filhos, um rapaz de 14 e outro menino de 7 anos. Neste momento não tem rede de apoio e está com os filhos em casa desde do fim das aulas. "Sempre que há algum bloqueio é sinal que precisamos adquirir novas competências e vejo isso diariamente na minha relação com os meus filhos. Os nossos filhos são definitivamente um portal para a nossa evolução e esta quarentena só intensifica essa necessidade de evolução". créditos: Fotos cedidas

Esta economista reside na cidade da Praia e tem dois filhos, um rapaz de 14 e outro menino de 7 anos. Neste momento não tem rede de apoio e está com os filhos em casa desde do fim das aulas.

“Esta experiência de estar confinada com os meus filhos e o nosso gato, tem sido extremamente desafiante para mim. Organizar a casa e as rotinas domésticas, trabalhar à distância, gerir a minha relação com eles e comigo mesma tem sido momentos muito desgastantes. Acredito que todas as experiências, principalmente as desagradáveis sempre têm aprendizados para nós e que essa quarentena não é uma excepção.

Vejo claramente que o preciso aprender. Nunca fui uma pessoa disciplinada e agora com a quarentena, principalmente depois do início das aulas à distância vejo o quanto preciso ter organização e disciplina para conseguir gerir todas as demandas e, principalmente, conseguir ter algum tempo para cuidar de mim.

Quanto maior clareza tenho sobre a minhas intenções e prioridades a cada momento menos sou afetada pela crítica: pela minha crítica interna, que quer eu faça tudo bem, e a dos meus filhos (pois a minha função mais frequente nesta quarentena é ser árbitro dos conflitos entre os dois e sempre um deles está totalmente insatisfeito com as minhas decisões).

Ter consciência dos meus limites é essencial para preservar a minha relação com os meus filhos. Vejo claramente que estou a conseguir ter mais consciência dos mesmos e a conseguir expressá-los mais atempadamente (ainda não da forma firme e amorosa que eu gostaria) para impedir que chegue ao ponto de “explodir” porque todos os meus limites foram ultrapassados.

Aceitar as minhas limitações, pois muitas vezes tenho expetativas bem irrealistas sobre mim e os outros. Essas ideias idealizadas de como deveria ser e de como os meus filhos deveriam ser, só servem para me afastar da realidade e gastar muito tempo a brigar em vez de aproveitar os momentos que temos. E este momento é o ideal para focarmos no presente.

Perdoar-me a mim mesma é essencial, para não mergulhar na culpa que não sou a mãe ideal que gostaria de ser, a boa profissional que acho que tenho de ser, a pessoa organizada e disciplinada que parte de mim almeja ser e a boa “dona de casa” que definitivamente não sou.

Sempre que há algum bloqueio é sinal que precisamos adquirir novas competências e vejo isso diariamente na minha relação com os meus filhos. Os nossos filhos são definitivamente um portal para a nossa evolução e esta quarentena só intensifica essa necessidade de evolução, pois estamos 24h/24h no mesmo espaço e torna-se ainda mais desafiante termos o tempo para cuidarmos de nós mesmas, enchermos o nosso próprio copo para podermos estar bem e lidar com os muitos desafios que essa quarentena nos traz, pois  para além dos desafios do dia a dia em confinamento, temos de lidar com os nossos sentimentos e emoções perante este período de incerteza e de medo que atravessamos.

Mas nem tudo é bloqueio e tensão nesta quarentena. Há filmes e pipocas em família, mais vezes do que noutros tempos; começamos a fazer ginástica juntos; o filho mais velho está a revelar ser um cozinheiro de ‘mão cheia’ e o mais novo aprendeu a saltar à corda e está a adorar”.

Ariana Monteiro

Este é também um momento de introspeção e reflexão do que foi e do que está a ser o nosso dia a dia

Ariana Monteiro
Natural de Santiago, é socióloga de profissão, reside na Praia e também está em isolamento social, juntamente com o companheiro e o filho de 7 anos, “para o bem da família e de toda a comunidade”. "Um dos maiores desafios está a ser a adaptação à nova metodologia da escola em administrar as aulas. Por outro lado, tem-me proporcionado a oportunidade e incentivo ao conhecimento profundo do mundo tecnológico”. créditos: Fotos cedidas

Natural de Santiago, é socióloga de profissão, reside na Praia e também está em isolamento social, juntamente com o companheiro e o filho de 7 anos, “para o bem da família e de toda a comunidade”.

“Como mulher, dona de casa, companheira e mãe, tenho trabalhado, em cumplicidade com o meu companheiro, na proporção de um ambiente saudável, agradável, propício para o bem-estar psicossocial e familiar, principalmente do nosso filho. Considero este é também um momento de introspeção e reflexão do que foi e do que está a ser o nosso dia a dia.

Em quarentena, estabelecemos rotinas, partilhamos tarefas, incentivando a prática da leitura e de outras dinâmicas para ocupar o nosso dia a dia.

Um dos maiores desafios está a ser a adaptação à nova metodologia da escola em administrar as aulas. Por outro lado, tem-me proporcionado a oportu-nidade e incentivo ao conhecimento profundo do mundo tecnológico”.

Carla Oliveira

Hoje, sinto que sou melhor mãe, grata ao que o momento nos impôs a viver

Carla Oliveira
Natural da ilha das montanhas, Santo Antão, esta engenheira de Telecomunicações reside há vários anos na ilha de Santiago. Trabalha numa companhia nacional de transportes aéreos e vive com o marido e os quatro filhos: Alyssa de 10, Daniela de 7, Ricardo de 4 e Marcos de 2 anos. "Hoje, sinto que sou melhor mãe, grata ao que o momento nos impôs a viver. Posso afirmar que sairei mais forte e que daqui para a frente as coisas serão diferentes e a nossa forma de estar perante o mundo nunca mais será a mesma”. créditos: Fotos cedidas

Natural da ilha das montanhas, Santo Antão, esta engenheira de Telecomunicações reside há vários anos na ilha de Santiago. Encontra-se em casa já que a empresa em que trabalha, uma companhia nacional de transportes aéreos, teve de recorrer ao regime de suspensão de contratos de trabalhos da maioria dos colaboradores. Vive com o marido e os quatro filhos: Alyssa de 10, Daniela de 7, Ricardo de 4 e Marcos de 2 anos.

“Desempenhar o papel de mãe de 4 crianças em tempos da pandemia de Covid-19 não tem sido muito fácil. Todas as escolas e os jardins-de-infância do país fecharam a 20 de março e, ao ser decretado o estado de emergência, tivemos que dispensar a pessoa que se encarregava da casa e dos nossos filhos. Tivemos que estabelecer novas regras para melhor nos organizarmos e protegermos a nossa casa.

O meu marido continua a trabalhar a partir de casa, em regime de teletrabalho. Nos tempos livres, vai às compras, participa nos trabalhos domésticos e apoia as crianças nos estudos, que é a parte mais difícil disto tudo. As mais velhas pensam que estão de férias. Não querem estudar e ficam a brincar com os mais novos e esquecem-se de que têm de estudar para além das aulas na televisão.

Não sei o que seria de nós se estivéssemos todos em regime de teletrabalho, seria quase que impossível!

Durante período de quarentena, estamos a ter algumas ajudas preciosas. A minha mãe que veio nos visitar e foi obrigada a ficar por cá, e um  primo que também vive connosco e, que com a sua paciência e jeito com crianças, nos têm ajudado imenso.

A nossa rotina tem-se resumido no acompanhamento das aulas na televisão nacional para a Daniela que está a estudar o 2º ano. Já com a Alyssa, que está no 5º ano, seguimos na RTP Memória, uma vez que, as tele e rádio aulas nos meios de comunicação nacional, por enquanto, são somente para o 1º ciclo (do 1º ao 4º ano).

Dividimos as tarefas da casa, as meninas, com a ajuda da avó, arrumam os quartos, limpam as casas de banho da casa, regam as plantas e limpam o quintal. Tento mantê-las ocupadas, para que o pai possa trabalhar na cave, porque em outro local é impossível.

Fazemos também brincadeiras em conjunto com os mais pequenos, vemos desenhos animados e filmes. Jogamos “Nomes” para testar a cultura geral e enriquecer o vocabulário. Já brincamos de Master Chef e confecionamos um delicioso hambúrguer de atum.

O nosso maior problema é na hora de ir para a cama, ninguém quer ir cedo para a cama, o que nos leva a ter problemas na hora de acordar para seguir as aulas.

Apesar de estarmos a viver tempos difíceis, de muito pânico e incerteza, o momento está a ter o seu lado positivo. Serviu para revermos as nossas relações familiares, reforçar o nosso papel na educação dos nossos filhos, ganharmos experiências fora do contexto pedagógico escolar e de adquirirmos novos hábitos.

Há cerca de dois anos que não tinha muito tempo para estar junto da minha família, principalmente no horário do almoço que toda a família deve estar reunida. Estava sempre ausente por causa do trabalho que é em outro bairro e que não me permite estar presente durante as refeições.

Esta quarentena ajudou-me a olhar o mundo e para a minha família de outra forma, a ter o controlo da nossa casa, pois senti que o tinha perdido. Há muito tempo, durante a minha ausência, que as crianças faziam o que lhes convinha e que não estavam a cumprir as regras como o prometido.

Hoje, sinto que sou melhor mãe, grata ao que o momento nos impôs a viver. Posso afirmar que sairei mais forte e que daqui para a frente as coisas serão diferentes e a nossa forma de estar perante o mundo nunca mais será a mesma”.

Deolinda Tavares Araújo

É tudo por eles, para que um dia eles consigam vencer na vida

Deolinda Tavares Araújo
Residente na cidade da Praia, Deolinda Tavares Araújo, “Zizi”, é mãe de quatro filhos e empregada doméstica. Neste momento, apenas o filho mais velho, com 20 anos, é que não reside com a progenitora. É com os seus três rapazes de 15, 11 e 5 anos que Zizi tem passado os dias em casa. Apesar da incerteza quanto ao futuro, esta mãe diz que vai continuar a fazer um esforço pelos filhos. “É tudo por eles, para que um dia eles consigam vencer na vida”. créditos: Fotos cedidas

Residente na cidade da Praia, Deolinda Tavares Araújo, “Zizi”, é mãe de quatro filhos e empregada doméstica. Neste momento, apenas o filho mais velho, com 20 anos, é que não reside com a progenitora. É com os seus três rapazes de 15, 11 e 5 anos que Zizi tem passado os dias em casa.

Os dois mais velhos têm-se dedicado aos estudos, através da internet, explica a mãe de 37 anos, e o mais pequenino, cujo pai é o único do qual tem al-gum apoio, também já pede para ter atividades escolares, à semelhança dos irmãos. “Ontem fizemos as vogais”.

“Para mim, o dia da Mãe é todos os dias e no domingo será um dia como o outro qualquer”, afirma Zizi, que questionada sobre como tem passado esta época de confinamento, diz estar feliz por estar com os filhos, mas que anseia por voltar a trabalhar, até porque os apoios são escassos neste momento.

“Antes disto (Covid-19), nunca passei tanto tempo com os meus filhos em casa, a brincar, a conviver …, mas como sou mãe e pai, sou chefe de família, não posso estar tanto tempo parada em casa”.

Relata que apesar da câmara municipal ter feito o levantamento dos dados das famílias que precisam de apoio no local onde reside, ainda não receberam qualquer feedback da edilidade.

Também entrou em contacto com o INPS. “Disseram-me que como estou segurada, eles têm os meus dados, mas até agora nada. Até então só tenho o apoio da minha patroa que pagou o meu vencimento, apesar de não estar a trabalhar. Este mês não consegui pagar nem a renda, nem a conta da água, apenas a luz porque temos contador pré-pago e comprei comida para os meninos”.

Apesar da incerteza quanto ao futuro, esta mãe diz que vai continuar a fazer um esforço pelos filhos. “É tudo por eles, para que um dia eles consigam vencer na vida”.

Eileen Almeida Barbosa

Descobri que para além do amor óbvio que sentimos pelos nossos filhos, eu gosto cada vez mais da Elba pela pessoa que ela é

Eileen Almeida Barbosa
Cabo-verdiana de S. Vicente, há 11 anos que está na Praia. Esta intérprete e tradutora por conta própria é mãe de uma bebé de 6 meses. Está em confinamento em casa juntamente com o namorado. "Descobri que para além do amor óbvio que sentimos pelos nossos filhos, eu gosto cada vez mais da Elba pela pessoa que ela é. E isto de estar sempre em casa permitiu-me ao menos isso: conhecê-la mais profundamente, viver no seu ritmo". créditos: Fotos cedidas

Cabo-verdiana de S. Vicente, há 11 anos que está na Praia. Esta intérprete e tradutora por conta própria é mãe de uma bebé de 6 meses. Está em confi-namento em casa juntamente com o namorado.

“A minha vida em tempos de COVID-19 tem sido exatamente aquela que sempre desprezei: a mulher que não sai de casa, que passa os dias todos iguais, a cuidar da criança, a varrer, a limpar, a dar banho e a “ver novela”: séries de água com açúcar porque desde que pari, toda a violência me choca; em contrapartida, basta que apareça um bebé na tela para que me derreta.

A minha bebé celebrou seis meses sob o signo do confinamento: houve um bolo comido apenas por dois; houve um vestido que apenas serviu para a foto. Mas ela riu-se toda e posou orgulhosa. Suponho que ela nunca foi mais feliz, na sua curta vida: tem a sua mamã o tempo todo ao seu lado. E tem a novidade de ter um papá muito próximo, a brincar com ela todos os dias, a deixá-la explorar-lhe a barba farta, que ela adora! Para ela, ele é o parque das diversões. Para mim, é quem cozinha e lava a loiça.  As coisas funcionam muito bem.

Por ser intérprete e tradutora, a minha vida dividia-se entre os dias em que trabalhava, e os dias em que não. Nos dias em que ia trabalhar, levantava-me cedo e dava de mamar à Elba; trocava-lhe a fralda e fazia-lhe uma higiene básica; tomava o pequeno almoço, tirava leite, saía com os minutos contados. A Lena, a minha empregada, ficava com a Elba até à hora do almoço, quando eu vinha repetir a rotina de dar de mamar, comer, tirar leite e sair à disparada. Geralmente terminava por volta das cinco e vinha logo para a Lena poder ir embora. Nesses dias, e como ainda dou de mamar entre duas a quatro vezes por noite, ficava esgotada e tentava pôr a Elba cedo na cama, para poder descansar; ao mesmo tempo, sentia-me culpada por lhe dar tão pouca atenção.

Já nos dias em que não trabalhava, levantava-me junto com ela, e ao longo do dia, eu e a Lena íamos alternando estar com ela. A Lena gostava de a pôr nas costas e era assim que a punha a dormir. Já eu inventava umas brincadeiras para fazer com ela, como dar-lhe um banho surpresa na varanda ou preparar-lhe uma travessa com grãos de feijão para ela chutar. Noutros momentos, podia sentar-me ao computador, fazer umas traduções, ou jogar às cartas ou fingir escrever.

Agora, a principal diferença é que eu é que tomo conta da casa. E da roupa. De tudo, menos da comida e da loiça.

Devo dizer que no início, estava até que contente. Aquela felicidade que vem da ingenuidade: vou aproveitar para limpar bem, organizar tudo na minha casa, todas as gavetas e prateleiras. E estive uns dias assim: quando a Elba me deixava.

Mas a bebé como que foi deixando menos. Eu também me fui importando menos. No início, limpava tudo, dia sim, dia não, ia até ao cantinho mais inacessível. Agora, faço o básico, se não der hoje, faço amanhã. Passo muito mais tempo com ela, de fato. Não apenas a deitar um olho, mas deitadas na cama a brincar. Ou sento-me no tapete com ela e tento seguir a sua lide em relação ao que fazer.

Descobri que para além do amor óbvio que sentimos pelos nossos filhos, eu gosto cada vez mais da Elba pela pessoa que ela é. E isto de estar sempre em casa permitiu-me ao menos isso: conhecê-la mais profundamente, viver no seu ritmo. Mas ela também sente falta de sair à rua e tenho pena pelas experiências que ela vai perdendo: ainda não tomou um banho de mar, há muito que ninguém mais a põe ao colo, nunca viu um gato, há uns meses que não vê um cão. Às vezes vem um pardal à nossa janela, mas nenhum deles vê o outro”.

Leila Rocha

Percebi um novo significado para a resiliência que me foi ensinado ao observar a Carolina com a sua mestria em viver tudo de forma tão positiva

Leila Rocha
Esta especialista em Medicina Tradicional Chinesa, de 46 anos, reside na cidade da Praia e tem dois filhos, um de 22 anos, residente em Lisboa (Portugal), e uma menina de 9 anos. Vive sozinha com a filha na cidade da Praia onde não tem rede de apoio de familiares. "Percebi um novo significado para a palavra resiliência que me foi ensinado ao observar a Carolina com a sua mestria em viver tudo de forma tão positiva, serena e alegre". créditos: Fotos cedidas

Esta especialista em Medicina Tradicional Chinesa, de 46 anos, reside na cidade da Praia e tem dois filhos, um de 22 anos, residente em Lisboa, e uma me-nina de 9 anos. Vive sozinha com a filha na cidade da Praia onde não tem rede de apoio de familiares.

“Viver este período de pandemia Covid-19 tem sido uma aprendizagem a todos os níveis. Pessoal e profissionalmente tem sido desafiante e compensador ao mesmo tempo.

Ao estar em teletrabalho e telescola e ao ter que gerir o meu trabalho e os da minha filha percebi um novo significado para a palavra resiliência que me foi ensinado ao observar a Carolina com a sua mestria em viver tudo de forma tão positiva, serena e alegre. Este período tem servido para aumentar mais ainda a cumplicidade que sempre tivemos”.

Soraia Deus

Ser mãe é, sem dúvida a mais exigente e desafiante função da minha vida

 Soraia Deus
É portuguesa e reside em Cabo Verde, na Praia, desde finais de 2005. É diretora de Conteúdos da Agência Cabo Verdiana de Imagens (ACI) e repórter e vive com marido (com quem partilha o local de trabalho) e o filho de 11 anos. Conta com o apoio da “família” de coração, composta por amigos especiais que ajudam a conciliar a vida profissional e pessoal, nos períodos mais exigentes como este que agora vivemos. “Ser mãe é, sem dúvida a mais exigente e desafiante função da minha vida. Aquela que me faz questionar todos os dias se as decisões que tomo são as mais corretas, se o caminho escolhido é, de facto, o caminho certo". créditos: Fotos cedidas

É portuguesa e reside em Cabo Verde, na Praia, desde finais de 2005. É diretora de Conteúdos da Agência Cabo Verdiana de Imagens (ACI) e repórter e vive com marido (com quem partilha o local de trabalho) e o filho de 11 anos. Conta com o apoio da “família” de coração, composta por amigos especiais que ajudam a conciliar a vida profissional e pessoal, nos períodos mais exigentes como este que agora vivemos.

“Ser mãe é, sem dúvida a mais exigente e desafiante função da minha vida. Aquela que me faz questionar todos os dias se as decisões que tomo são as mais corretas, se o caminho escolhido é, de facto, o caminho certo.

Nesta fase o desafio tem sido ainda maior, porque, apesar do Estado de Emergência continuo a trabalhar e muito! A pandemia trouxe desafios a todos os níveis e ao nível comunicacional também, por isso, praticamente toda a empresa continua, com os devidos cuidados e precauções, no ativo.

Como tal, tenho de conciliar da melhor forma os papeis de mãe e profissional, com um filho em casa (um pré-adolescente), a ter aulas à distância e a ne-cessitar de acompanhamento presencial. De facto, este tem sido o maior desafio. Enquanto, mãe e encarregada de educação, sou chamada à linha da frente e é-me exigida uma presença muito mais ativa na vida escolar do meu filho. Aproveito aqui para fazer a devida vénia aos professores, a quem, mais do que nunca damos agora valor!
Não é fácil. É toda uma nova realidade, um mundo absolutamente impensável que agora experienciamos e que nos põe à prova, enquanto pessoas, pro-fissionais, filhos e pais.

Julgo que, o que aprendemos com isto é a ser mais resilientes, a perceber que temos uma capacidade enorme de adaptação e de reinvenção até! En-quanto mãe tenho verificado também que, a ausência de uma vida social, tornou-nos mais unidos dentro do nosso “casulo”, dando valor às pequenas coisas, às atividades dentro do núcleo familiar. Temos mais tempo para “olhar com olhos de ver” uns para os outros”.

Miriam Raisa Sanches Simas Tavares

Eu era excelente mãe antes de ser mãe, sabia tudo, mas vou percebendo que ser mãe é uma oportunidade de crescer com os nossos filhos

Miriam Raisa Sanches Simas Tavares
Esta produtora cultural residente em Mindelo, São Vicente, tem três filhos: uma menina de 12 anos que vive em Portugal (e que está muito bem o que deixa com o coração tranquilo, apesar das saudades) e de dois rapazes de 6 e 2 anos que vivem com ela e o pai. "Eu era excelente mãe antes de ser mãe, sabia tudo..., mas de facto vou percebendo que ser mãe é uma oportunidade preciosa de crescer com os nossos filhos". créditos: Fotos cedidas

Esta produtora cultural residente em Mindelo, São Vicente, tem três filhos:  uma menina de 12 anos que vive em Portugal (e que está muito bem o que deixa com o coração tranquilo, apesar das saudades) e de dois rapazes de 6 e 2 anos que vivem com ela e o pai.

“Este período de quarentena tem sido um verdadeiro desafio. Estava fora do país para uma formação que teve de ser interrompida devido à pandemia. Diante da situação, só queria regressar para estar junto dos meus filhos, uma decisão que implicou enfrentar um "pesadelo" e o medo constante da possibilidade de não conseguir viajar, devido à pressão. Consegui chegar a Cabo Verde no dia 17 de Março, um dia antes de fecharem as fronteiras. E com isso, naturalmente, tive de enfrentar o isolamento de 14 dias, sem chegar a casa.

Foram dias de extrema importância e tive gerir as emoções e alguma ansiedade pelo desejo de estar em casa com os eles. Ainda assim, sentia uma grande gratidão por já estar em Cabo Verde.

Depois do período de isolamento foi um novo começo. Estar em casa com eles tem sido de grande valor, pois tive um ano intenso a investir num projeto a pensar exatamente neles, o que ironicamente nos "privou" de os acompanhar. Neste processo, questionava-me por este tempo de alguma" ausência".

Eu era excelente mãe antes de ser mãe, sabia tudo, mas de facto vou percebendo que ser mãe é uma oportunidade preciosa de crescer com os nossos filhos.

Esta oportunidade de estarmos com eles, de observar o seu desenvolvimento e de alguma carência e depois de "toda esta aventura", tem me permitido valorizar cada momento desta preciosa oportunidade sem culpas e tem sido extraordinário.

O grande desafio tem sido realmente depararmo-nos de forma muito concreta com algumas fragilidades do sistema escolar. As aprendizagens têm sido imensas, principalmente o quão importante é termos a coragem de lutarmos por uma educação melhor para as nossas crianças e para isso precisamos estar bem perto deles e da escola. Educa-los para serem pessoas de grande valor. Este vírus está a mostrar-nos, a importância da responsabilidade individual, e esta é uma oportunidade única para perpetuar mudanças na nossa família, na nossa comunidade e no nosso país que se vão refletir na nossa sociedade e, consequentemente, no mundo”.

Com Edna da Veiga/ estagiária

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