A história deste homem, de 52 anos, pode ser, segundo o mesmo, tema de um “livro de várias páginas”, marcada por uma “infância árdua” que o fez largar os estudos aos 14 anos para trabalhar, primeiro, na plantação de árvores no extinto Ministério de

Desenvolvimento Rural (MDR), depois na construção civil, na betonagem. Também foi pastor de cabras e ainda trabalhou a carregar sacos de cereais na antiga Empresa Pública de Abastecimento (EMPA) de Cabo Verde.

O pai de José Carlos, que era órfão, foi trabalhar nas roças de São Tomé e Príncipe ainda criança e, por isso, queria que os filhos estudassem até onde pudessem.

Mas, o seu pai também faleceu e José Carlos interrompeu os estudos para ajudar a mãe e as outras duas irmãs mais novas.

“Fico triste quando conto esta história, porque criei numa família que veio do fundo do poço. Ainda não subi alto, mas também não estou a viver uma vida mendigado porque tenho um Deus a quem sigo”, revelou.

Para este homem, ter perdido pai e começado a trabalhar desde cedo ajudou-o transformar-se no cidadão e no pai que é hoje. Teve oito filhos, quatro meninas e quatro rapazes, e mesmo sem saber o conceito de paternidade responsável, diz-se orgulhoso da forma como que se relaciona e educa os seus filhos.

Segundo José Carlos, não é preciso lei alguma para obrigar um pai a amar e a cuidar dos seus filhos.

“Ser pai, para mim, é um grande privilégio, porque antes era filho, hoje sou pai. É uma coisa que vem do espírito, o homem ganha-o sem aprender. Basta termos na base o temor de Deus”, sustentou José Carlos, que também se espelha na Bíblia para exercer a paternidade.

“Se entendemos como é que Deus quer que vivamos na sociedade, poderemos ensinar aos nossos filhos a viver nela também. A primeira coisa que eles têm que respeitar são os pais em casa, porque é a ordem que Deus deixou”, acrescentou a mesma fonte, que aproveitou para ler o capítulo sexto do livro dos Efésios que aconselha a educação dos filhos sem ira e “através da doutrina e demonstração de Deus”.

Aliás, para o nosso entrevistado, se hoje a sociedade está “poluída é por causa de pais que têm pouco entendimento na criação dos filhos”.

A seu ver, tudo isso acontece porque “criaram os filhos à sua maneira, sem perguntar a Deus” como assumir este papel “de melhor forma”.

José Carlos considera o seu filho mais velho, de 31 anos, como um “filho do coração”, que “não concebeu e que assumiu por amor” à sua esposa.

“Pai não é quem faz, é quem cria. Ele foi o primeiro filho que adoptei. Depois tive os meus filhos de sangue e não lhes tratei de forma diferente. Ele é um filho do coração e os filhos dele são os meus netos”, reforçou.

E é por causa deste amor que nutre pelos filhos que José Carlos começou a pensar num projecto de criar uma empresa para trabalhar com eles.

Pois, conforme defendeu, “não há dinheiro”, mas, “a sua experiência, aliada ao conhecimento dos seus filhos pode ser uma coisa eficaz”.

“Hoje, não há emprego. Mas o emprego faz-se. Tenho jeito, só me falta um pouco de força. Quero montar uma empresa para

trabalhar junto com os meus filhos”, arrematou José Carlos, que enquanto não materializa o seu projecto segue com o seu trabalho de guarda no Campo de Sucupira, onde joga com as crianças qual pai como os seus rebentos.

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