Paulino Moniz fez essa consideração em declarações à Inforpress no âmbito do Dia do Pai, que se assinala hoje, 19, data que deveria ser marcada com uma conversa aberta sobre “Paternidade Responsável e novas formas de masculinidade”, promovida pela rede e o Instituto cabo-verdiano de Igualdade de Género (ICIEG).

Contudo, devido às medidas impostas pelo Governo para a prevenção da entrada do Covid-19 em Cabo Verde, todas as actividades foram suspensas.

Entretanto, em conversa com à Inforpress, Paulino Moniz disse que esta rede vem contribuindo e muito para a consciencialização dos homens cabo-verdianos, isto é, a leva-los a assumirem uma paternidade responsável.

Em Cabo Verde, os dados do último Censo de 2010 indicam que 53,3% das crianças cabo-verdianas não vive com o pai e, mesmo em casos de pais e filhos que residem na mesma casa, o laço emocional entre os dois é muitas vezes “frágil e distante”.

O relatório anual sobre a situação da justiça em Cabo Verde, referente a 2018, aponta que há 3.397 averiguações oficiosas em que ainda não foram assumidas a paternidade.

Segundo a mesma fonte, a rede vem ajudando os homens a desconstruírem o modelo de masculinidade que a sociedade construiu, ou seja, a construir uma nova forma de masculinidade.

“Estamos a falar de uma construção social, de crenças sociais e de géneros que estão entranhadas na maneira de pensar, ser e estar do povo cabo-verdiano, e que ultrapassa a questão do homem”, disse, sublinhando que essa crença religiosa reforça o comportamento do homem e a educação que o homem vem recebendo mostra como eles devem agir e tudo isto acaba por abrangendo a questão da paternidade de uma forma negativa.

Neste sentido, disse que a rede trabalha, não só na consciencialização dos homens, como também da sociedade para que possam mudar essa mentalidade e resolver essa problemática da fraca assunção da paternidade responsável no país.

Fruto dos trabalhos que a rede vem desenvolvendo, sublinhou, hoje percebe-se uma “maior” presença dos homens nas escolas e nos jardins, a cuidarem dos seus filhos e a participarem na vida escolar.

Contudo, reconheceu, ainda há muito trabalho a fazer porque muitos pais participam na vida dos filhos apenas financeiramente e por obrigação da lei.

Para o sociólogo é importante ter leis para punir esses pais e a leva-los a contribuir financeiramente, mas o mais importante é ter os pais presentes na vida dos filhos.

“A lei não vai obrigar o homem a amar o seu filho, você pode criar leis para obrigar o homem a participar financeiramente, mas para amar você não consegue” observou.

Para além da rede “Laço Branco”, a Inforpress conversou com o jovem Patrick Semedo, 22 anos, que partilhou a sua experiência de ser pai ainda na adolescência.

Conforme relatou, aos 17 anos recebeu a notícia por parte da sua namorada de que iria ser pai.

“Não foi fácil carregar esta responsabilidade porque éramos estudantes. Tive que abandonar os estudos para começar a trabalhar, pois os meus pais não tinham condições para nos sustentar” disse à Inforpress.

Segundo Patrick Semedo, as maiores dificuldades, antes mesmo do bebé nascer, eram custear as consultas de pré-natal que a namorada tinha de fazer, e com o nascimento do filho foram as fraldas, o leite e alguns medicamentos e depois o pagamento da creche.

Reconheceu que ambos foram “irresponsáveis”, pois não protegeram-se e ter filho, ainda mais nessa idade, “não era uma tarefa fácil”.

Afirmou que por causa disso teve que crescer e ser um homem antes da hora, visto que teve de mudar a sua rotina e os seus hábitos.

“Não me arrependo de ter sido pai cedo”, afirmou, revelando que o sorriso do seu filho é o que faz com que ele nunca desista de lutar e vencer na vida.

Actualmente, o jovem trabalha num mini-mercado e pretende retomar os seus estudos secundários para que futuramente possa realizar o seu sonho de ser engenheiro um dia.

Na sua rede favorita

Siga-nos na sua rede favorita.