Os chamados Bancos de Leite surgiram com o objetivo de armazenar leite materno para ser consumido por recém-nascidos que estejam internados nas unidades de saúde como hospitais e que não podem ser amamentados pelas próprias mães.

É justamente com o propósito de criar uma reserva de leite materno para o serviço de neonatologia do Hospital Agostinho Neto, que o primeiro Banco de Leite Humano de Cabo Verde surgiu em 2011. O projeto só foi possível concretizar-se com o apoio técnico do Brasil, país com larga experiência nesta matéria já que possui uma Rede de Bancos de Leite Humano que foi estabelecida em 1998 e é considera pela OMS como a maior e mais complexa do mundo.

A trabalhar no Hospital Agostinho Neto desde 2001, a enfermeira Ester Lopes está no Banco de Leite desde 2013. A profissional de saúde explica que apesar de ser um “banco de leite”, ao contrário do que muitos utentes acham, não é possível chegar ao balcão da maternidade do HAN pedir um biberão de leite materno e “já está”.

Além dos procedimentos existentes, uma regra básica é que o leite só é dado aos recém-nascidos mediante prescrição do pediatra depois de uma avaliação do bebé e da mãe.

“Todas as doações que recebemos destinam-se para os bebés da Neonatologia. Não fazemos uma distribuição para fora, por exemplo, se uma mãe chegar cá e pedir (leite), nós não damos automaticamente”, acrescenta por sua vez a coordenadora do Banco de Leite Fernanda Azancoth.

Banco de Leite Humano do Hospital Agostinho Neto
créditos: CM

Desde a sua abertura em 2011, pelo Banco de Leite já passaram cerca de 2500 doadoras, avança a enfermeira, estas mulheres são homenageadas anualmente numa cerimónia promovida pela instituição a cada mês de maio.

“O nosso objetivo maior são os bebés (do serviço de saúde) cujas mães não têm como amamenta-los ou por problemas de saúde, ou por algum processo ao nível de parto, por exemplo”.

Ester Lopes salienta que as mães cabo-verdianas estão conscientes da importância da amamentação e que quando, por algum motivo, não conseguem amamentar sentem-se frustradas.

Contudo, a amamentação é um exercício de paciência. “Começamos a agir ainda no Pré-Natal. Informamos sobre os cuidados a ter, o que leva à produção do leite — quanto mais o bebé mama, maior é a produção. Como estimular a produção com a massagem do seio, por exemplo”.

No Banco de Leite é possível obter estes conselhos sobre amamentação e dissipar algumas das dúvidas que assolam, principalmente, os que são pais pela primeira vez. Aqui os profissionais de saúde ensinam o melhor posicionamento do bebé no peito e outros aspetos relevantes para uma amamentação de sucesso.

Desenganem-se os que julgam que são apenas as mães procuram este tipo de aconselhamento, também os pais visitam o Banco de Leite à procura de respostas para apoiar as companheiras no processo de amamentação.

Apesar de os conselhos serem úteis, Ester Lopes refere que na mesma é quase impossível eliminar o stress, principalmente, nos “marinheiros de primeira viagem”.

Equipa Banco de Leite do HAN
créditos: CM

Leite seguro

À partida, só podem doar leite as mulheres que estão a amamentar e têm uma produção em excesso. Mas como identificar este excesso? “Se depois de dar de mamar ao bebé, a mulher sentir que o seio continua cheio e dorido, ela está com excesso e tem de aliviar o seio, caso contrário, o bebé não vai conseguir mamar bem (na próxima mamada)”, explica a enfermeira Ester Lopes.

Recorda que inicialmente não foi fácil convencer as mães a doar leite. Contudo, atualmente, os tempos são outros. “Muitas mulheres já nos procuram. Algumas até cujos bebés tomaram leite do Banco, agora querem também contribuir, por exemplo”. Em 2018, de janeiro a maio, quase 200 mulheres doaram leite no HAN.

Algumas são doadoras domiciliárias. “Visitamos as casas para ver as condições de higiene e sanitárias, depois fornecemos os materiais e, uma vez por semana, passamos para fazer a recolha do leite”. Outras mulheres fazem-no ainda na Maternidade (durante o internamento) e algumas depois de o trabalho passam pela instituição para fazer a sua contribuição.

A enfermeira assegura: o leite materno que é dado aos recém-nascidos no hospital é 100% seguro. Além de cada doadora ter uma ficha e ser submetida a exames médicos, o leite passa por um rigoroso processo de pasteurização que mata qualquer microorganismo que possa afetar a sua qualidade. São também enviadas amostras do leite doado para laboratório.

Banco de Leite Humano do Hospital Agostinho Neto
créditos: CM

Leite materno X leite artificial

Segundo Fernanda Azancoth, nutricionista de formação, o trato digestivo do bebé está preparado para receber o leite materno, uma proteína que o estômago do bebé consegue digerir, além dos outros nutrientes e da água que estão presentes neste “alimento”. O mesmo já não acontece quando se trata de leite artificial.

No caso deste tipo de leite (artificial), que é extraído da vaca e onde a indústria vai tentar “imitar” o leite materno, a coordenadora explica que a introdução do leite artificial pode gerar casos de alergias, maior propensão para doenças como diabetes, obesidade, porque a quantidade é excessiva para humanos, além de poder afetar o vínculo entre a mãe e filho, o crescimento da criança, a economia familiar, entre outros. “Há vários fatores que devemos colocar na balança (…) Às vezes, pode parecer muito mais fácil dar uma ‘mamadeira’ ao bebé, mas devemos ponderar bem”.

‘Momento sagrado’

Para a responsável do Banco, um ponto fundamental para uma amamentação de sucesso é a disponibilidade da mãe para tal. “Ela (mãe) tem de estar consciente de que é isso que quer fazer, porque também pode não querer e temos de aceitar isso”.

Outras questões são a posição do bebé no peito, a pega, o ambiente onde acontece a amamentação (sem distrações para o bebé). É importante que tanto a mãe como o bebé estejam confortáveis. Outra dica preciosa é não deixar o bebé chegar ao ponto de chorar e irritar-se antes deste momento.

“O momento de dar de mamar é sagrado” é a mensagem que é passada às várias mães tanto pela enfermeira Ester como por outras profissionais de saúde do BL.

Sobre os benefícios da amamentação, Ester Lopes é categórica: “(a mãe) tem de ter consciência de que ao amamentar uma criança está a dar-lhe vida e a construir o futuro de uma Nação (…) se for feito como uma obrigação e não com amor, não terá vantagens”.

Além de ser um importante elo de ligação entre a mãe e o bebé, a amamentação ajuda na formação da musculatura da face e a arcada dentária do recém-nascido, por ex.

Dar de mamar leva algum tempo, tendo em conta que o leite materno tem várias fases.

Segundo explica a coordenadora do Banco de Leite, o leite materno está dividido em várias “camadas”: o primeiro leite que sai serve para matar a sede do bebé, depois segue-se a fase da proteína e, por último, o leite mais calórico e nutritivo. Por conseguinte, é importante que o processo de amamentação chegue ao final para que o bebé fique satisfeito.

A responsável da instituição adianta que algumas mães não deixam o bebé mamar até ao fim e ficam-se apenas pelas “camadas” iniciais.

“Não existe leite fraco”, desmitifica a coordenadora e explica que a natureza é perfeita que mesmo uma mãe desnutrida ou uma mãe obesa produzem um leite com todos os constituintes necessários para o bebé. “Muitas vezes, o estado nutricional da mãe não influencia na produção de leite”.

Salienta ainda que “não existe uma alimentação especial para quem amamenta”, mas aconselha uma dieta equilibrada, consumo de água e um estilo de vida saudável.

Ao longo do processo de amamentação a mãe tem de estar atenta à reação do bebé porque os alimentos, principalmente os mais ricos em enxofre, que a mulher consome podem causar desconforto e gases no bebé.

Os pigmentos presentes em frutas e hortaliças também passam para o leite e podem alterar a cor do mesmo, mas não é algo que seja a prejudicial para o bebé.

Licença de maternidade X amamentação exclusiva até 6 meses

A Organização Mundial de Saúde recomenda a amamentação exclusiva até aos 6 meses do bebé. Uma realidade que nem sempre é possível para as mulheres em Cabo Verde onde a licença de maternidade é de 60 dias.

A coordenadora do BL diz que é muitas vezes confrontada por mães que dizem não conseguirem amamentar os bebés até os 6 meses. “Tenho consciência de que não é um momento fácil e se houvesse um sistema governamental que ajudasse as mães a passar por este processo de forma mais tranquila, com certeza seria melhor. Infelizmente não é o que está a acontecer em Cabo Verde”.

Como alternativa, o BL aconselha as mães para que nos dois meses que lhes são dados por lei a preparar-se para o regresso ao trabalho, nomeadamente, fazendo a extração de leite e o respetivo armazenamento no congelador, de modo a ter um “stock” para conseguir completar os seis meses de amamentação exclusiva.

O apoio familiar nesta fase também é importante que a amamentação seja bem-sucedida.

Como tirar leite em casa

O recipiente (de vidro com tampa de plástico) para conservar o leite deve ser lavado apenas com água e detergente para depois ser fervido durante 15 minutos. Depois de arrefecer, o recipiente deve secar (cabeça para baixo) em cima de uma toalha. Os frascos devem ser guardados em recipiente próprio.

Outra indicação é lavar as mãos e o seio antes de tirar o leite e mesmo antes de dar de mamar. Massajar o peito também é aconselhável.

A enfermeira Ester Lopes aconselha a dividir o leite em diferentes recipientes conforme a quantidade que o bebé consome.

Cada recipiente com o leite congelado deve ser identificado com data e hora em que foi extraído o líquido. À temperatura ambiente o leite aguenta 2 horas, no frigorífico são 12 horas e no congelador 15 dias.

Para preparar o leite conservado é necessário aquecer uma panela de água quente. Assim que a água levantar fervura, apagar o lume e introduzir o frasco com o leite. O leite aquecido não pode ser “esquentado” novamente.

Banco de Leite em São Vicente

Ao nível local, o próximo passo é implementar centros de recolha de leite materno nos centros de saúde na Praia, adianta a coordenadora do Banco de Leite do HAN.

Banco de Leite Humano do Hospital Agostinho Neto
créditos: CM

Paralelamente, mediante o sucesso do projeto do Banco de Leite no Hospital Agostinho Neto, o próximo objetivo é implementar um espaço semelhante no Hospital Baptista de Sousa, em São Vicente.

Neste sentido, Cabo Verde e Brasil assinaram em fevereiro deste ano uma segunda fase do projeto de cooperação “Apoio técnico para a implementação do Banco de Leite Humano em Cabo Verde (fase II).

Com este acordo, o ministério da Saúde vai contar com o apoio técnico do Instituto Fernandes Figueira (IFF CRUZ) e do ministério da Saúde do Brasil, entidades executantes do projeto, e da Agência Brasileira de Cooperação.

Citada pela agência Inforpress, a diretora nacional de Saúde, Maria da Luz Lima, afirmava que a implementação de mais um banco de leite humano é muito importante para o país, uma vez que irá contribuir para a redução da mortalidade infantil e fazer com que o arquipélago seja uma referência em África.

O projeto deverá começar a funcionar em 2019.